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Auto Union Lucca, uma viagem na história
O Auto Union Lucca simboliza de forma exemplar a inovação técnica dos quatro anéis durante a década de 30 e, agora, a Audi Tradition recriou este espectacular automóvel de recordes e irá apresentá-lo publicamente pela primeira vez no início de Maio, precisamente na cidade italiana de Lucca.

A 15 de Fevereiro de 1935, o automóvel estabeleceu um amplamente celebrado recorde da milha lançada num troço rectilíneo da autoestrada nas imediações de Lucca, alcançando uma velocidade média calculada de 320,267 km/h e uma velocidade máxima medida de 326,975 km/h. A Rennlimousine — termo da época que significa “berlina de competição” — ficou concluída na Primavera de 2026 e passará agora a integrar a lendária colecção de Flechas de Prata históricas da AUDI AG.
A corrida à velocidade nos anos 30
A década de 30 assistiu a uma autêntica corrida internacional aos recordes de velocidade. Mais do que uma simples unidade de medida, a velocidade tornara-se símbolo de supremacia técnica e nacional. As corridas de Grande Prémio e os sucessivos recordes eram acompanhados quase obsessivamente pela imprensa e pelo público.
Na Alemanha desenrolava-se uma rivalidade feroz entre marcas, pilotos e soluções técnicas: a estrela da Mercedes-Benz contra os quatro anéis da Auto Union; Rudolf Caracciola e Manfred von Brauchitsch frente a Hans Stuck e Bernd Rosemeyer; motores dianteiros contra arquitectura de motor central.

Fundada em 1932 a partir da fusão entre Audi, DKW, Horch e Wanderer, a Auto Union AG estreou-se na nova fórmula dos 750 kg em 1934 com o Auto Union Type A de 295 cavalos. Nesse mesmo ano destacou-se também nos recordes de velocidade: a marca estabeleceu três recordes mundiais a 6 de Março e mais cinco a 20 de Outubro, todos com Hans Stuck ao volante, reputado especialista em corridas de montanha.
A pressão sobre a Daimler-Benz AG aumentava. Rudolf Caracciola respondeu de imediato, igualando os feitos da Auto Union e estabelecendo, no final de Outubro de 1934, vários recordes internacionais perto de Gyón, na Hungria, incluindo uma média de 316,592 km/h na milha lançada. Era este o valor que a Auto Union precisava superar.
O nascimento da Rennlimousine
Durante o Inverno de 1934 para 1935, os engenheiros da Auto Union trabalharam intensamente no desenvolvimento de um novo automóvel de recordes. Partindo do modelo utilizado nas tentativas de Outubro, foi criado um novo para ensaios em túnel de vento, inicialmente em configuração aberta e posteriormente com cockpit fechado para melhorar a eficiência aerodinâmica.

Os conhecimentos obtidos no Instituto Aeronáutico de Berlin-Adlershof foram incorporados num automóvel que a revista Automobilrevue classificaria como “uma estreia na construção automóvel europeia de competição”.

A carroçaria recebeu um acabamento extremamente cuidado, com lixagem fina e verniz transparente; as rodas raiadas passaram a contar com coberturas aerodinâmicas e na traseira surgiam duas entradas circulares de ar para os carburadores, enquanto os escapes eram elevados e agrupados em duas saídas laterais.

O automóvel utilizava já um motor V16 da temporada de 1935, com cilindrada aumentada para cerca de cinco litros. Nesta primeira evolução debitava 343cv, ainda abaixo dos 375 alcançados mais tarde nesse mesmo ano. O chassis e a suspensão mantinham-se próximos da especificação de 1934, mas a silhueta alongada, o perfil em gota e a traseira afilada davam origem a uma estética radicalmente diferente — e extraordinariamente moderna.
De Gyón a Lucca
O automóvel ficou concluído em Dezembro de 1934 nas oficinas da divisão de competição da Auto Union em Zwickau e o primeiro teste realizou-se no circuito berlinense de AVUS a 17 de Dezembro.
Inicialmente, a marca planeava regressar à Hungria para tentar o recorde no mesmo local onde Caracciola triunfara. Contudo, as condições meteorológicas deterioraram-se rapidamente. Após ensaios problemáticos e dificuldades mecânicas, a equipa decidiu procurar alternativas mais a sul.

Depois de uma passagem frustrada pela região de Milão devido à neve, a Auto Union encontrou finalmente um troço adequado da autoestrada Florença–Viareggio, entre Pescia e Altopascio, próximo de Lucca. A estrada apresentava condições ideais: superfície regular, excelente aderência, oito metros de largura e aproximadamente cinco quilómetros praticamente em linha recta.
O recorde de 15 de Fevereiro de 1935
Os primeiros ensaios começaram a 14 de Fevereiro. A equipa experimentou diferentes configurações aerodinâmicas, ajustando a grelha frontal, as coberturas das rodas e diversos detalhes técnicos. Na manhã seguinte, Hans Stuck regressou à pista. O ambiente em redor do evento começava já a ganhar notoriedade, atraindo numerosas figuras do automobilismo italiano e milhares de espectadores.

Com a frente do radiador praticamente selada e novas optimizações aerodinâmicas, a Auto Union atingiu finalmente o objectivo: a Rennlimousine estabeleceu o recorde internacional da milha lançada na Classe C com uma média de 320,267 km/h.
Mais impressionante ainda, numa das passagens registou 326,975 km/h, tornando-se no “automóvel de competição de estrada mais rápido do mundo”.
Entre Lucca e Berlim
Enquanto a tentativa de recorde decorria em Itália, uma versão praticamente idêntica do automóvel era apresentada no Salão Automóvel de Berlim, realizado entre 14 e 24 de Fevereiro de 1935. A principal diferença residia numa grelha frontal de maiores dimensões.
Como o recorde ainda aguardava homologação oficial, a Auto Union promoveu o modelo como “o automóvel de competição de estrada mais rápido do mundo”, destacando precisamente os 326,975 km/h atingidos em Lucca. Poucos meses depois, a Auto Union levou duas Rennlimousinen à quinta edição da corrida internacional de AVUS, disputada em Berlim a 26 de Maio de 1935.
Hans Stuck e Achille Varzi alinharam com os monolugares de Grande Prémio, enquanto o príncipe Hermann zu Leiningen conduziu o antigo carro de Lucca. O jovem Bernd Rosemeyer, recém-chegado à equipa, pilotou a segunda Rennlimousine.
Rosemeyer impressionou nos treinos ao atingir 290 km/h, mas viu a corrida terminar prematuramente após o rebentamento de um pneu traseiro. Já Hermann zu Leiningen acabou igualmente por abandonar devido a problemas no sistema de refrigeração. A vitória acabaria por sorrir à Mercedes-Benz.
Uma peça central da história da Auto Union
Apesar dos resultados modestos em pista, o Auto Union Lucca desempenhou um papel determinante na evolução técnica da marca. Stefan Trauf, responsável pela Audi Tradition, considera o modelo “uma obra-prima de engenharia”, representativa da filosofia “Vorsprung durch Technik” já nos anos 30.
A recriação agora apresentada foi desenvolvida pela empresa britânica Crosthwaite & Gardiner com base em fotografias históricas e documentação de arquivo. O projecto consumiu mais de três anos de trabalho, envolvendo a construção artesanal de todos os componentes.

No final de Abril de 2026, o automóvel registou um coeficiente aerodinâmico de apenas 0,43 no túnel de vento da Audi. O projecto foi coordenado por Timo Witt, responsável pela colecção histórica da Audi Tradition desde 2015. Segundo Witt, a recriação procurou respeitar ao máximo a autenticidade histórica, conciliando-a com preocupações modernas de fiabilidade e durabilidade.
Curiosamente, o automóvel utiliza um motor V16 proveniente do Auto Union Type C, visualmente indistinguível da unidade original de cinco litros. Além disso, incorpora algumas modificações introduzidas para a corrida de AVUS em Maio de 1935, nomeadamente no sistema de ventilação, permitindo assim futuras demonstrações dinâmicas sem comprometer a integridade mecânica.
Estreia pública em Goodwood
Quer na configuração de Lucca, quer na especificação AVUS, o Auto Union Lucca representa uma das mais fascinantes sínteses entre desempenho extremo e elegância aerodinâmica da era das Flechas de Prata. Após a apresentação oficial em Lucca, a Rennlimousine fará a sua primeira aparição pública dinâmica no célebre Goodwood Festival of Speed, agendado para os dias 9 a 12 de Julho.
Imagens: Audi AG



