Arquivos • 06 Mar 2026
Um berço de ouro nem sempre significa uma vida facilitada, bem pelo contrário: poderá ter tantos ou mais obstáculos nas escolhas na sua vida, o que nem todos entendem. Herdeiro de uma dinastia nos cosméticos, a sua paixão pelo automobilismo levou-o a alcançar alguns dos mais elevados títulos e a tornar-se num dos rostos mais reconhecíveis num lugar difícil como a América.
Correu e ganhou na Fórmula 1, IndyCar, Can-Am e Trans-Am, a sua namorada era uma Miss Mundo, mas mesmo assim, era chamado de Champagne Peter e isso ressentia-o, porque queria ser conhecido pelas suas façanhas na pista e não pela sua aparência ou com quem andava. Contudo, quando sofreu o seu acidente fatal, em Kyalami, na África do Sul, foi como piloto que foi reconhecido pelos seus pares e pelo mundo em geral.
E tudo isso aconteceu há meio século.
As Origens
Peter Jeffrey Revlon Revson nasceu a 27 de Fevereiro de 1939 na cidade de Nova Iorque, filho de Martin e Julie Revson. Martin e Charles, seu irmão – e tio de Peter – eram de origem judaica – os seus antepassados vieram da Rússia – e foram dois dos fundadores da multinacional de cosméticos Revlon. Martin tinha-se desligado do negócio da família pouco depois de Peter nascer, mas Charles era o patrão e tinha decidido que o seu sobrinho seria o herdeiro da empresa, quando morresse. Este tinha um irmão mais novo, Douglas, e duas irmãs mais novas, Julie Ann e Jennifer.
A sua infância foi passada em White Plains, New York, tendo ido para a Columbia University e, depois, para a Universidade do Hawaii sem, no entanto, terminar o seu curso. Em 1960 comprou um Morgan e começou a entrar em corridas, descobrindo cedo que tinha jeito para a coisa. Quem não achou graça alguma foi a sua família, que decidiu tirar-lhe a mesada, assim que soube das suas aventuras automobilísticas.
Nessa altura, conheceu um grupo de pessoas lideradas por Timmy Mayer, o seu irmão Teddy, e Bill Smith. Os três decidiram construir em 1962 a equipa Rev-Em e foram correr para a Fórmula Junior, com bons resultados. De seguida, compraram um chassis Cooper e uma carrinha Ford, foram para o Reino Unido e correram na Fórmula 1, graças a Reg Parnell, que ia precisamente montar uma equipa.
Com ele estavam Chris Amon e Mike Hailwood, e corriam tão fortemente quanto festejavam depois das corridas. Cedo, a boa vida acabou, porque os resultados foram maus – um Lotus 24 muito pouco competitivo – e, para piorar as coisas, Parnell ficou doente, com uma apendicite que acabou em septicémia e morte.
Em 1965, quase falido, regressou aos Estados Unidos para correr nas competições da SCCA, a Sports Car Club of America. Aos poucos, começa a mostrar o seu nome na Can-Am e Trans-Am, para além de passagens pela IndyCar. E também foi nessa altura que, graças aos seus amigos, iria conhecer o piloto que mais o influenciaria na sua carreira: Bruce McLaren.
“The Bruce and Denny Show”
Apesar de não ter entrado a ganhar na Can-Am, com o tempo tornou-se num piloto sólido. Correu pela McLaren quase desde a sua primeira corrida em 1966, mas foi depois da morte do seu fundador, Bruce – e com o auge do The Bruce and Denny Show (basicamente, os anos de domínio da McLaren na competição americana) – que alcançou o seu primeiro pódio, com um segundo lugar em 1970, na ronda de Mid-Ohio, pela Carl Haas Racing.
Nesse mesmo ano, mas em Sebring, quase ganhou a corrida ao lado de… Steve McQueen. Guiando um Porsche 908 “barchetta” na maior parte do tempo – o actor amante de automobilismo recuperava de uma fractura na perna – esteve na frente da corrida até perto do final quando foi superado por Mário Andretti, no seu Ferrari 512.
Anos depois, Andretti falou sobre essa corrida: “Quando ouvi pelo altifalante que era Revson o líder, a multidão começou a aplaudir e a incentivar, não ele, mas sim o Steve McQueen. A ideia de ter um actor de Hollywood no lugar mais alto do pódio revoltou-me, pois ele não tinha feito nada para o merecer, e diminuía o esforço feito pelo Revson. Assim sendo, saltei para o carro e guiei que nem um possesso para apanhar o Porsche. Sabia que tinha uma tarefa difícil pela frente, mas sempre acreditei que era possível.”
Em 1971, contudo, foi a temporada onde se mostrou. Cinco triunfos foram suficientes para ele ser o campeão, para depois ter uma má temporada no ano seguinte, com dois pódios e um sexto lugar na geral. Mas nessa temporada, tinha conseguido um excelente resultado individual, quando alcançou a pole-position e conseguiu o segundo lugar nas 500 Milhas de Indianápolis, a bordo de um McLaren, batido apenas por Mark Donohue, também num McLaren, mas inscrito pela Penske.
Foi nessa altura, 1972, que ele regressara à Fórmula 1. Primeiro com um “one-off” com a Tyrrell, mas nessa temporada, era piloto a tempo inteiro, ao lado de Dennis Hulme, no seu regresso à F1. Ali, quatro pódios e uma pole-position deram-lhe o quinto lugar do campeonato, com 23 pontos.
Glamour e Morte
Em 1973, a McLaren tinha construído o M23, para Hulme e Revson, e em algumas corridas seleccionadas, para o sul-africano Jody Scheckter. O automóvel estreou-se na África do Sul, nas mãos de Hulme, que lhe deu a pole-position. O americano só teve o carro na ronda seguinte, mas cedo se mostraria competitivo, tanto que quando a F1 chegou a Silverstone, palco do GP britânico, ele aproveitou a carambola na primeira volta, causada por Jody Scheckter, para subir alguns lugares na classificação e ficar com a liderança, a qual não largaria mais. A vitória, merecida, foi celebrada nas boxes, mas por esta altura, as relações com Teddy Mayer estavam abaladas, especialmente depois deste ter dado uma opção no prolongamento do contrato que achou não ser o ideal. Assim sendo, depois de nova vitória no atribulado GP do Canadá, em Mosport – onde teve de tudo, incluindo um “Pace Car”! – Revson decidiu assinar um contrato de uma temporada com a Shadow. Apesar de ter tido mais pontos que em 1972 (38) manteve-se na quinta posição da geral.
Entretanto, no plano pessoal, as coisas até andavam melhor. Com fama – e proveito – de playboy, começou a namorar com Marjorie Wallace, a primeira americana a ser Miss Mundo, mas 104 dias depois de ser coroada, ela foi destronada porque tinha sido apanhada pelos “paparazzi” numa praia de Barbados a beijar o cantor britânico Tom Jones.
Isso foi suficiente para que lhe fosse retirado o seu título. Apesar de tudo, ambos estiveram juntos até à morte do piloto. Entretanto, Revson escrevia uma autobiografia, em conjunto com o jornalista Leon Mandel, de seu nome Speed with Style, que esperava ver publicado ainda em 1974.
Apesar das boas classificações nas corridas da Argentina e no Brasil – chegou a ser terceiro em Buenos Aires – acabou por abandonar nas corridas sul-americanas.
A 22 de Março de 1974, quando testava para o GP da África do Sul, em Kyalami, o seu Shadow DN3 sofreu uma quebra de suspensão quando fazia a curva Barbecue Bend, bateu nos rails e destruiu o carro. Apesar de ter sido socorrido por alguns dos seus colegas, como Denny Hulme e Graham Hill, Revson teve morte quase imediata. Tinha 35 anos.
Anos depois, em 2012, Tony Southgate, o projectista da Shadow, contou à Motorsport britânica sobre a passagem dele pela equipa e as circunstâncias do seu acidente fatal:
“‘Revvie era um tipo fabuloso, fácil de lidar e um excelente piloto. Mas, tragicamente, não ficou connosco por muito tempo. Classificou-se na segunda linha na Argentina e para o Brasil na terceira fila da grelha. Então, ele, eu, o nosso mecânico-chefe Pete Kerr e mais outros dois mecânicos fomos para Kyalami, para testes antes do GP sul africano”, começou por afirmar.
Revvie estava muito bem, muito contente com o carro e então, depois de ter iniciado uma volta, não apareceu. Corremos para a parte de trás do circuito e encontramos o carro enterrado sob as barreiras de proteção, do lado de fora de uma curva rápida [Barbecue Bend]. Peter já estava na ambulância quando chegamos. Liguei para o hospital, e eles disseram-me que eu tinha que ir para a morgue e identificá-lo. Quando a notícia saiu, foi um inferno, com todos os jornalistas a bater à porta do meu hotel, até que o advogado da família Revson chegou e assumiu o controlo.”
“Estávamos a usar bastante titânio no DN3, que era então um novo material. Titânio é delicado, tem que ser trabalhado de forma suave e a sua superfície bem polida, e descobrimos que tinha havido uma junta esférica que tinha sido feita de forma grosseira sobre ele, e foi aí que quebrou. Ali [no local do impacto] havia apenas uma camada de Armco e o carro, em vez de se ter desviado ou parado, conseguiu entrar até à zona do cockpit.”
“Senti-me pessoalmente responsável. Foi uma época muito difícil. Desapareceu o glamour da Fórmula 1, e foi substituído por uma espécie de solidão. Você não tinha outra hipótese que não trabalhar. Claro, na corrida seguinte, substitui todos os componentes de titânio por aço.”, concluiu.
O impacto da morte de Revson foi grande. O funeral foi seguido pelas televisões e ficou sepultado no mausoléu da família, no Ferncliff Cemetery, em Hartsdale, New York. Ao seu lado está o seu irmão Douglas, mais novo que ele e morto em 1967 numa corrida de Fórmula 3 na Dinamarca.
O seu substituto acabou por ser o galês Tony Pryce que, ironicamente, acabaria por morrer na mesma pista três anos depois.



