Steve McQueen, a lenda revisitada no Rétromobile

11 Dez 2025

Steve McQueen, a lenda revisitada no Rétromobile

Ícone absoluto do grande ecrã e figura que marcou para sempre o imaginário cinematográfico mundial, Steve McQueen deixou muito mais do que uma filmografia inesquecível – legou igualmente uma paixão visceral por automóveis e motos desportivas. É essa faceta que os visitantes da mais bela “garagem” efémera dedicada a veículos de colecção poderão descobrir durante o 50º aniversário do salão Rétromobile.

Em parceria com Les Epicuriens, NOC e AXA Passion, o Rétromobile organizará, no espaço Moto do Pavilhão 7.2, uma grande retrospectiva dedicada ao “King of Cool”, reunindo modelos memoráveis que marcaram a vida do actor. Da Triumph TR6 de 1961 de A Grande Evasão, à Husqvarna 400 Cross de 1971, passando pela Honda 250 SRM do mesmo ano e pelo lendário Mustang Fastback de 1968 do filme Bullitt, estes são apenas alguns dos veículos que o público poderá ver — ou rever — no Rétromobile 2026.

Steve McQueen e as motos: Itinerário de um encontro

A paixão mecânica de McQueen começa nas motos, símbolo máximo de liberdade — algo que o actor valorizava acima de tudo. A bolsa que recebeu para estudar arte dramática na Playhouse School de Sanford Meisner não chegava para viver, e McQueen completava os rendimentos participando em corridas de moto no circuito de Long Island. Podia ter sido piloto profissional. “Ganhava muitas corridas e fazia duzentos dólares por fim-de-semana”, recordava. Bud Ekins, quem o iniciou no todo-o-terreno, confirmaria: “Em off-road, o Steve tinha talento verdadeiro.” Tornaram-se inseparáveis. Ekins, além de piloto experiente, era também distribuidor Triumph na Califórnia.

Bud Ekins: Um encontro com sabor a revelação

Um dia, McQueen entra na oficina. Tinha acabado de comprar a Dick Powell uma Triumph Bonneville de 1959 e queria confirmar a validade da garantia. Nascia ali uma amizade cimentada pela paixão pelas duas rodas. Bud ensinou-o as bases da condução em off-road e juntos percorreram trilhos do deserto de Mojave e aventuraram-se para lá das fronteiras dos Estados Unidos. Uma boa prova das inclinações do actor: “É nas pistas que sou mais feliz, sozinho numa moto a fundo. É onde quero estar — prefiro isso a fazer filmes”, costumava dizer. Nessa época, a forma mais fácil de encontrar Steve McQueen era procurar o deserto californiano, com declives brutais, areias traiçoeiras e rochedos. Todos os Domingos enfrentava os perigosos percursos de enduro.

Steve McQueen: De rei dos palcos a rei das pistas

Sem medo de arriscar, McQueen dá nas vistas em 1962. Durante as filmagens de A Grande Evasão, sugere ao realizador John Sturges a célebre cena final. Na pele do capitão Virgil Hilts, foge dos guardas nazis saltando com a moto sobre arame farpado. Embora essa manobra histórica tenha sido executada por Bud Ekins — que McQueen impôs à produção — todas as outras sequências da perseguição em moto foram gravadas por ele. De volta aos EUA, Ekins diria que McQueen conduzia como se estivesse numa verdadeira corrida.

Pouco depois, McQueen conquista lugar na equipa americana para o International Six Days Trial (ISDT), disputado de 7 a 12 de Setembro de 1964, em Erfurt, Alemanha de Leste. Entre filmagens, o actor junta-se a nomes de peso: Bud Ekins, o irmão Dave, Cliff Coleman e Johnny Steen como reserva. Habituados a desertos e não a trilhos lamacentos, os americanos adaptam-se surpreendentemente bem. McQueen demonstra combatividade, mas cai duas vezes. Na segunda queda, ao tentar evitar uma mulher que atravessou a pista, danifica seriamente a Triumph TR6 SC: a forquilha dobra-se e o abandono torna-se inevitável. Bud tem igual azar, ao partir o tornozelo num embate com um muro. Ainda assim, a equipa salva a medalha de ouro graças a Dave Ekins e Cliff Coleman.

O instinto nunca desaparece

Apesar de o cinema o afastar das competições, McQueen compensa mexendo nas suas máquinas e deslocando-se às filmagens ao volante — ou guiador — delas. Durante A Canhoneira do Yang-Tsé, entre duas cenas, ocupava o tempo livre escapando-se numa Suzuki com carenagem e escape livre, igual à de competição. Sem capacete, claro.

No Rétromobile, a exposição dedicada a McQueen apresenta algumas das máquinas que melhor traduzem a sua paixão: as seis Triumph oficiais preparadas para o ISDT de 1963, uma das 300 reedições da Triumph Rickman Métisse MK3 de 1966, a Triumph N13 Bud Ekins 1963 Desert Slade, a Triumph TR6 de A Grande Evasão e a Husqvarna 400 Cross de 1971, entre outras.

O às do volante

Quando não estava numa moto, era o volante que ocupava as suas mãos. No final dos anos 50, com os primeiros cachets de actor, comprou modelos desportivos com os quais competiu no campeonato americano SCCA. Numa dessas provas conheceu o piloto britânico Stirling Moss. Esse encontro valeu-lhe a participação nas 12 Horas de Sebring, ao volante de um Austin-Healey Sprite oficial da British Motor Corporation. Não chegou ao fim, mas prometeu voltar.

Os ritmos intensos das filmagens afastaram-no temporariamente das pistas, até ao final da década de 60, quando o “vírus” regressou. McQueen queria filmar Le Mans — e participar na própria corrida. Para se preparar, a sua Solar Productions comprou em 1969 um Porsche 908-02 Spyder, com o qual participou em várias provas americanas. Em Março de 1970, já com um pé esquerdo engessado após uma queda numa prova de motocross em Elsinore, espanta o público em Sebring, onde termina em segundo lugar com Peter Revson.

A mecânica no coração da arte cinematográfica

Sempre que podia, McQueen interferia nos argumentos dos filmes para incluir perseguições motorizadas. A mais célebre de todas: Bullitt. O filme fez história ao apresentar, pela primeira vez, uma perseguição automóvel filmada em velocidade real. Durante 9 minutos e 42 segundos, no papel de polícia incorruptível, McQueen guia a Ford Mustang Fastback V8 GT 390 pelas ruas de São Francisco atrás de uma Dodge Charger conduzida por criminosos.

Ambos os modelos estarão expostos no Rétromobile. Fiel ao seu estilo, McQueen recusou duplos e filmou ele próprio toda a perseguição. “Gravámos essa sequência no final porque o Steve queria conduzir ele mesmo”, explicou o realizador Peter Yates. O motivo era simples: se sofresse um acidente, não haveria filme — algo impensável face aos montantes envolvidos.

Imagens: Arthur Chambre

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