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Corrado Lopresto, arquitecto e empresário de Milão, é hoje o mais destacado coleccionador italiano de automóveis clássicos. A sua paixão, nascida na infância em Bagnara, levou-o a reunir uma colecção única de modelos italianos raros, protótipos e exemplares especiais, restaurados com um rigor filológico exemplar.
O Jornal dos Clássicos entrevistou em primeira mão Corrado Lopresto, pioneiro em técnicas inovadoras e abordagens personalizadas ao restauro, e actual embaixador oficial da marca Eberhard & Co. Lopresto soma mais de 280 prémios internacionais e tem sido presença assídua — e muitas vezes curador — de exposições de referência dentro e fora de Itália.

A sua paixão pelos automóveis começou muito cedo. Recorda-se do momento ou do automóvel que despertou esse fascínio inicial?
Tudo começou quando os meus primos começaram a restaurar um velho automóvel de família, um Lancia Aurelia. Eu era ainda muito jovem, mas segui-os nesta aventura e apaixonei-me por este mundo, comprando o meu primeiro carro, um FIAT Balilla, pouco tempo depois.
O seu nome está indissociavelmente ligado ao conceito de “restauração filológica”. Pode explicar-nos em que consiste exactamente esta abordagem e porque a considera essencial na preservação do património automóvel?
Os automóveis clássicos são testemunhos do passado e do nosso património e devem ser tratados como tal, fazendo todos os esforços para os manter (ou restaurar) na sua forma e especificações originais. O restauro filológico é exactamente isso, com uma abordagem comparada à utilizada nas obras de arte.
A Colecção Lopresto é conhecida por incluir protótipos e exemplares únicos da história automobilística italiana. Que critérios segue na escolha de cada novo exemplar a integrar a colecção?
Todos os meus carros têm uma história para contar. Podem ser exemplares únicos, protótipos, carros que pertenceram a pessoas famosas ou apenas o primeiro carro (com o chassis número 1) de uma grande produção. Tudo o que seja, de alguma forma, único (e italiano!) pode fazer parte da colecção.
Ao longo da sua carreira, já viu muitas peças renascerem quase das cinzas. Há algum restauro em particular que o tenha marcado de forma especial, técnica e emocionalmente?
Orgulho-me de ter redescoberto peças desconhecidas e esquecidas da história, como o protótipo Giulietta Spider da Bertone, um automóvel que se acreditava ter sido construído em apenas uma unidade. Encontrei o segundo, com algumas diferenças na forma para testar uma solução diferente, e com uma longa pesquisa consegui até localizar o primeiro proprietário, ainda vivo décadas depois. Há poucas semanas, o meu filho, que partilha comigo esta paixão, casou-se nesse mesmo carro!
Em 2018, decidiu colocar a sua experiência ao serviço de outros coleccionadores. O que distingue o trabalho do Atelier Lopresto e que tipo de clientes o procuram?
A minha experiência com carros únicos é algo que desenvolvi ao longo de muitos anos de restauro. Quando os amigos começaram a pedir a minha ajuda para restaurar automóveis com o espírito da minha colecção, compreendi que esta área específica exige competências únicas que tenho todo o gosto em partilhar com pessoas apaixonadas como eu.

A sua colecção é frequentemente premiada nos mais prestigiados concursos de elegância do mundo. O que representam para si esses reconhecimentos? São um estímulo, uma validação, ou um detalhe acessório?
Tudo começou quando ganhei a Coppa d’Oro no Concorso d’Eleganza Villa d’Este de 2001. Eu era apenas um novato no mundo dos concursos, mas consegui obter o primeiro prémio. Isto deu-me a motivação para dar o meu melhor no restauro dos meus automóveis e estes prémios ajudam-me a perceber que a minha visão e a minha filosofia são compreendidas e apreciadas.
Em tempos de crescente digitalização e automatização, que papel acredita que os automóveis clássicos — e o trabalho de preservação como o seu — devem desempenhar na cultura contemporânea?
Num mundo digital, o papel da preservação cresce todos os anos, para salvar o passado para as novas gerações. Tento sempre partilhar a minha paixão com os jovens, que muitas vezes nem sequer conhecem os automóveis antigos, mas são imediatamente cativados pelo seu aspecto não convencional.
A maioria das peças da sua colecção são italianas e muitas são obras únicas de mestres do design automóvel. Que importância atribui ao design no valor histórico e artístico de um automóvel?
A Itália tem uma longa tradição de design automóvel (e de design em geral), com alguns dos melhores estilistas e construtores de carroçarias qualificados, e alguns dos automóveis mais inovadores de todos os tempos. A minha colecção está, sem dúvida, mais centrada no design e na construção de carroçarias do que no desempenho.
A Itália do pós-guerra foi um terreno fértil para a criatividade automóvel. Que ligação sente entre esses automóveis e o espírito cultural da época? Considera que os automóveis deste período são, em si mesmos, elementos primordiais que contam uma parte fundamental da sociedade e da história italiana?
De facto, o rápido crescimento após o fim da guerra levou a uma pesquisa contínua de novas formas e ideias, com marcos como o Cisitalia 202 em 1947 ou o Lancia Florida em 1955. Os automóveis eram um símbolo de liberdade e de esperança num futuro melhor.

Entre as muitas viagens e eventos internacionais em que participou, há algum encontro, pessoa ou episódio que o tenha tocado de forma especial e que recorde com especial apreço?
Anos de concursos e eventos ajudaram-me a conhecer muitas pessoas apaixonadas. É óptimo ver em todo o mundo como os carros italianos são sempre amados. Uma menção especial merece o concurso de Cascais em 2015, pelos 60 anos do Alfa Romeo Giulietta Spider. Levei os meus protótipos Bertone e Pinin Farina, e as pessoas até fizeram uma faixa enorme para me agradecer. Foi um momento único.
Ao restaurar um automóvel, há sempre uma tensão entre devolver-lhe o brilho original e preservar as marcas do tempo. Como lida com essa dualidade constante entre a perfeição estética e a autenticidade histórica?
Depende muito do ponto de partida. Quando um automóvel está bem conservado, opto sempre por o manter nas condições originais. É claro que, por vezes, a carroçaria pode precisar de um restauro ou simplesmente já ter sido restaurada/pintada de forma incorrecta, o que leva a um restauro completo para a trazer de volta à originalidade.
Há algum modelo que ainda procure activamente, aquele “unicórnio” que continua a escapar à sua colecção? E qual é aquele que se arrepende profundamente de ter deixado ‘escapar’?
Nunca procurei um carro específico, o que foi provavelmente uma boa escolha, pois concentrar-se em algo que talvez nunca encontre pode levar à frustração de um coleccionador. Limitei-me a olhar à volta (e ainda o faço) e vi o que me chamou a atenção.
Para terminar: qual é o conselho que daria a um jovem coleccionador que hoje sonhe iniciar um percurso como o seu?
Começar por uma verdadeira paixão, talvez apenas comprando um automóvel antigo de que gosta, e com isso começar a ver se este é um mundo em que se encaixa. Começar já com a ideia de construir uma grande colecção pode afastar-nos do prazer que devemos sempre procurar.
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