Competição • 04 Jun 2024
No desporto em geral, e na Fórmula 1 em particular, nem todos ganham fama e notoriedade por serem campeões mundiais ou pela quantidade de vitórias, mas antes pela sua personalidade com classe, coragem, amizade e comportamento profissional, técnica, determinação, resiliência, rigor, seja dentro das pistas ou fora delas.
Nem todos conseguem ser respeitados por colegas, pelos adversários e pelos fãs.
Início da Carreira
No dia 4 de Maio de 1946, em Belfast, na Irlanda do Norte, nasceu John Marshall Watson. Apesar de nesta época o automobilismo ser encarado como um desporto perigoso, John começou cedo a mostrar a sua paixão pelo automobilismo e, em 1963, com 17 anos, teve a sua primeira experiência em competição, ao volante de um Austin Healey, em provas de rali e de subida de montanha na sua região natal.
Marshall, seu pai, muito bem sucedido no ramo do negócio de automóveis e patrocinou o início da carreira de Watson.
Posteriormente, Watson decidiu, no sentido de evoluir na sua carreira de piloto, ingressar na Fórmula Libre e, em 1970, passou a competir na Fórmula 2 europeia.
Ao volante de um Brabham BT30, John revelava o seu potencial, mas um grave acidente no circuito de Rouen-Les-Essarts, França, quase que lhe custou a carreira, fracturando o braço e a perna esquerdos.
Demonstrativo da sua notável resiliência, voltou às pistas, logo no ano seguinte, e rapidamente readquiriu forma competitiva.
Em 1972, Watson teve boas performances nos circuitos ingleses que lhe permitiram subir mais um degrau na sua carreira automobilística.
Começo na Fórmula 1
A sua primeira participação na Fórmula 1 (mas extra-campeonato) aconteceu em 1973, ao volante de um March 721-Cosworth #23, da equipa Hexagon, de John Goldie, na Victory Race of Champions, em Brands Hatch, corrida que serviu de homenagem ao título mundial do nosso muito admirado e estimado Emerson Fittipaldi. Mas um incidente devido ao acelerador preso originou outro acidente grave para John.
Apesar disso, Watson estrearia oficialmente na Fórmula 1 em Julho do mesmo ano, no GP da Inglaterra, em Silverstone, pilotando um “velho” Brabham BT37 privado, da Motor Racing Developments. John conseguiu escapar a um acidente logo na partida e teve um bom desempenho até ver-se forçado a abandonar, na 36ª volta, devido a problemas na injecção de combustível.

Participou também no GP dos EUA, em Watkins Glen, aos comandos de um melhorado Brabham, o BT42, mas aconteceu mais um azar a John e o motor partiu logo no início da corrida.
No ano de 1974, Watson teve a oportunidade de disputar a temporada completa, com o Brabham #28, pela mesma equipa da Hexagon. As suas performances foram relevantes e consistentes e terminou num meritório 4º lugar, na corrida da Áustria, em Zeltweg.
Além disso, Watson obteve um 5º lugar, no GP dos EUA, a 6ª posição no circuito do Mónaco (colado a Emerson Fittipaldi) e um 7º lugar em Monza, prova em que partiu de uma notável 4ª posição da grelha de partida.

Conquistou seis pontos e o 15º lugar, no Mundial de Pilotos, uma marca assinalável tendo em conta que era um estreante, numa equipa privada e com um monolugar pouco competitivo, equipado com pneus Firestone que eram menos eficazes que os da Goodyear.
Com o fim da equipa da John Goldie Racing, Watson ingressava na equipa da Surtees, pilotando um Ford #18, para a temporada de 1975, que não correu nada bem, conseguindo como melhor posição um 8º lugar no GP de Espanha, chegando ao fim somente em sete corridas, sem fazer qualquer ponto.
Para o GP da Alemanha, no “inferno verde” de Nürburgring, o norte-irlandês, em substituição do lendário Jacky Ickx da Lotus, aos comandos do Ford #6, partiu da 7ª linha de partida mas apenas completou duas voltas ao circuito e viu-se forçado a abandonar, com problemas na suspensão.

Para o último GP de 1975, que decorreu na Alemanha, Watson foi convidado pela equipa da Penske, para pilotar o Penske-Ford PC1 #28, em substituição do malogrado norte-americano Mark Donohue, que havia falecido, em consequência de um despiste logo no warm-up do GP da Áustria.
A sua performance consistente, ao terminar em 9º depois de partir da 12ª posição, abriu-lhe as portas para ser contratado por Roger Penske, dono da equipa norte-americana.
A primeira vitória na Fórmula 1
Por isso, em 1976, Watson tornou-se piloto da Penske e vivenciou uma temporada extremamente marcante, de emoções extremas.

Ao volante de um Penske PC3 terminou o GP da África do Sul em 5º lugar mas o novo monolugar, o Penske PC4 #28, permitiu a John alargar os seus horizontes e obteve dois pódios com o terceiro lugar no GP de França e de Inglaterra.
Seguiu-se o GP da Alemanha, em Nürburgring, que ficou historicamente marcado, na 2ª volta, pelo violento acidente que deixou o lendário Niki Lauda com queimaduras graves e quem Watson ajudou a retirar do Ferrari a arder, que viria a ser consumido pelas chamas.

Neste GP o norte-irlandês obteve o 7º lugar depois de ter largado da 19ª posição.
No GP da Áustria, Watson alcançou a sua primeira vitória, num total de cinco, e que foi a única vitória da Penske, na Fórmula 1. Chegou naquela altura da competição ao 5º lugar, no Mundial de Pilotos. A história dessa corrida teve a curiosidade de o piloto ter feito uma aposta com Roger Penske que, se ganhasse, cortava a sua farta barba. Por isso, ao passar a linha da meta em primeiro lugar, honrou a promessa e surgiu barbeado.
Neste ano conseguiu 20 pontos, o que lhe permitiu terminar o campeonato em 7º lugar. Aquela temporada consolidou-o como um piloto de topo, respeitado por colegas e adversários. Apesar de ter feito uma boa temporada, Watson não chegou a acordo com a Penske e, em 1977, regressou à Brabham, sob o comando de Bernie Ecclestone, que o convidou para colmatar a saída de Carlos Reutemann.

A equipa utilizava os motores da Alfa Romeo, que eram potentes mas propensos a dar problemas. Apesar de momentos de brilhantismo, confirmando que era um piloto dos mais rápidos em qualificação, como foi o caso da pole position no Mónaco e noutras seis corridas em que partiu dos três primeiros lugares da grelha, o piloto sofreu com diversas falhas mecânicas, no seu Brabham-Alfa Romeo #7. A situação mais dolorosa foi no GP de França, em Dijon, onde liderava confortavelmente até ser traído por uma avaria na bomba de combustível, já com a meta à vista, terminando em 2º. lugar.
Voltou a pontuar apenas no GP da Suécia e África do Sul, com o 5º e 6º lugares respectivamente, finalizando a temporada em 13º com 9 pontos.
A temporada de 1978 foi das melhores para Watson, que fez dupla com o icónico campeão mundial e amigo Niki Lauda, e conseguiu a proeza de ser, em várias corridas, ainda mais veloz que o seu colega de equipa, imagine-se!
O norte-irlandês, no seu Brabham #2, obteve a pole position no circuito de Paul Ricard, e acumulou três pódios, tendo sido duas vezes 3º, em Brands Hatch e em Kyalami, e o 2º lugar em Monza, conseguindo a dobradinha para a sua equipa.
Terminou a temporada em 6º lugar, com 25 pontos, e deixou a equipa em alta, com relações sólidas dentro do paddock.
A Era na McLaren
Depois de um campeonato tão prometedor, Watson foi contratado pela McLaren, em 1979, substituindo o veloz James Hunt.
A equipa, chefiada por Teddy Mayer, passava por uma fase de transição e dificuldades técnicas e John, no seu Mclaren-Ford #7, apenas conseguiu um pódio na Argentina, duas vezes 4º no GP do Mónaco e Inglaterra, e 6º no Canadá e EUA.
Acabava a temporada no modesto 9º lugar, com 15 pontos.

No campeonato de 1980, Watson somente conseguiu um 4º lugar no GP de Long Beach, depois de ter partido da 21ª posição da grelha, e o mesmo lugar em Montreal, acabando com apenas seis pontos. Neste ano, fez dupla com um rookie francês muito promissor, que dava pelo nome de Alain Prost.
Posteriormente houve uma reestruturação na McLaren, com a mudança de comando para as mãos de Ron Dennis, e com a fusão com a sua Project Four, adquiriu a equipa fazendo uso do investimento da Malboro. Watson tornou-se o pilar da nova fase da equipa, fazendo dupla com Andrea de Cesaris.
Em 1981, a Mclaren apresentava o MP4/1, o primeiro monolugar com o chassis construído inteiramente em fibra de carbono, utilizando tecnologia aeroespacial.
Apesar das esperadas dificuldades iniciais, Watson obteve o primeiro pódio, com um 3º lugar em Jarama, ficou em 2º no GP de França, onde também conseguiu a pole position, e em Montreal.
No circuito de Silverstone, John arrecadou a sua segunda vitória na Fórmula 1. Depois de partir do 5º lugar, o piloto assumiu o 2º lugar na 18ª volta da corrida, liderada por René Arnoux mas na 60ª volta Watson ultrapassou o francês, que se debatia com problemas no motor, e venceu a prova.

Foi uma vitória muito importante também para a McLaren que não vencia um GP desde 1977, e historicamente ficou marcada como a primeira conquista de um monolugar construído em fibra de carbono.
Finalizou o ano em 6º lugar, arrecadando 27 pontos, o que lhe valeu renovar contrato por mais dois anos.
O Título Mundial tão perto
No ano seguinte, John voltou a formar dupla com o grande amigo Niki Lauda e teve uma temporada extraordinária, ficando muito perto de ser campeão mundial, somente a escassos cinco pontos do 1º. classificado, o finlandês Keke Rosberg.
Watson venceu o GP da Bélgica, depois de ter começado do 10º. lugar da grelha de partida. Voltou a vencer, desta feita, em Detroit, de forma excepcional porque partiu da 17ª. posição e fez uma recuperação épica!
Conseguiu a 2ª. posição em Las Vegas e em Jacarepaguá e com o 3º. lugar em Montreal, chegou a liderar a classificação mundial de pilotos.
Contudo, na segunda metade da temporada, perdeu algum ritmo e os abandonos nos circuitos de Paul Ricard, Brands Hatch e Hockenheim impediram-no de ser o primeiro.
Terminou em 3º. lugar da geral, com os mesmos 39 pontos de Didier Pironi.
A maior recuperação na História da F1
No GP de Long Beach, em 27 de Março de 1983, Watson largou da 22ª. posição da grelha. Num desempenho absolutamente soberbo, e também beneficiando do ritmo de corrida dos pneus Michelin, superou os adversários um a um.
Na volta 25 aconteceram umas batidas entre K. Rosberg, P. Tambay e J. P. Jarier, com os consequentes abandonos, e isso permitiu que Watson ficasse em 8º com Lauda logo atrás, e duas voltas depois passaram para 3º e 4º respectivamente.
Na volta 45, John assumiu a liderança e venceu de forma gloriosa, com uma vantagem de 27,9 segundos sobre Lauda, na 2ª posição, e que partira logo atrás de si do 23º lugar.
Uma dobradinha histórica e irrepetível!
Essa permanece como a maior recuperação de um vencedor na história da Fórmula 1.

Watson ainda teve bons resultados, com dois pódios, com o 3º lugar em Detroit e em Zandvoort, partindo da 15ª posição da grelha, mas não acompanhou o progresso dos novos motores TAG-Porsche.
O ano de 1983 marcou o fim da era dos motores aspirados. A McLaren ainda usava os Cosworth DFV, enquanto as equipas rivais apostavam em turbocompressores.
Terminou o ano em 7º lugar, com 22 pontos.
Final de Carreira na Fórmula 1
Para a temporada de 1984, Watson, que conseguiu a proeza de ficar melhor classificado que Niki Lauda nos dois anos anteriores, pediu 1,3 milhões de dólares para renovar o contrato mas Ron Dennis não aceitou e contratou Alain Prost, para fazer dupla com o austríaco que veio a ser campeão mundial com meio ponto de vantagem sobre Prost.
Sem lugar na Fórmula 1, Watson foi competir para os Sport-Protótipos, correndo pela Porsche ao lado de Stefan Bellof.

Em 1985, John quase regressou à F1 pela equipa da Toleman, para a qual participou no programa de testes do modelo TG185, mas problemas com o patrocinador de pneus impediram a sua inclusão na equipa.
Em 6 de Outubro de 1985, o GP da Europa, em Brands Hatch, foi o último na Fórmula 1 para John Watson, que foi chamado por Ron Dennis para substituir o lesionado Niki Lauda.
Mais uma vez, o piloto norte-irlandês mostrou toda a sua notável qualidade, competência, rapidez ao volante do Mclaren-TAG/Porsche #1, e mesmo partindo da 21ª posição da grelha, conseguiu terminar num respeitável 7º lugar.
Conduzir o monolugar #1, de campeão mundial, foi uma despedida em grande, com a glória que Watson bem mereceu!
Ali encerrava-se a carreira competitiva, de John Watson na Fórmula 1, num total de 154 corridas, 5 vitórias, 20 pódios, 2 poles position, 5 recordes de voltas mais rápidas e um total de 169 pontos.
A Vida após a Fórmula 1
Afastado das pistas da F1, Watson manteve-se activo. Criou uma escola de pilotagem em Silverstone e participou em diversas provas de Sport-Protótipos, inicialmente pela BMW North America.

Em 1986, ele conduziu o March BMW 86G #18, na competição da IMSA, ao lado de David Hobbs, e conquistou um 4º lugar em Portland e a 9º posição nas 3 Horas de Daytona.
No ano seguinte, chegou a acordo com Tom Walkinshaw e ingressou na equipa da TWR-Jaguar, para participar no Mundial de Sport-Protótipos (WSC). Obteve a vitória na corrida de Jarama, foi segundo em Silverstone e em Spa-Francorchamps e obteve mais um pódio, com o terceiro lugar em Brands Hatch.
Ainda pela equipa da TWR-Jaguar, competiu com o #5 nas provas da IMSA e do WSC, em 1988, conseguindo três pódios: o 2º lugar em Atlanta, e o 3º no circuito de Jarama e de Daytona.
Depois John transferiu-se para a Toyota, e conquistou um 10º. lugar em Donington Park. Em 1990, terminou na 11ª posição nas 24 Horas de Le Mans, aos comandos de um Porsche, da equipa da Richard Lloyd Racing e a sua última prova automobilística oficial aconteceu em Montreal, dentro de um Toyota 90 C-V.

No ano seguinte, convidado por Eddie Jordan, Watson tornou-se o primeiro a testar um monolugar da equipa e voltou a usufruir o prazer de ter nas mãos um Fórmula 1. Já com 44 anos, foi o piloto que trabalhou no desenvolvimento do Jordan 191 (inicialmente 911) com o qual a equipa de Eddie participou na temporada de 1991, com a dupla Andrea de Cesaris e Bertrand Gachot. Também participaram, neste ano, para a Jordan, os pilotos R. Moreno, A. Zanardi e curiosamente Michael Schumacher que fez a sua estreia na F1, no GP da Bélgica.
O Comentador de Televisão
Mas foi na televisão que Watson encontrou nova vocação. Entre 1991 e 1996, formou com Ben Edwards uma das duplas mais carismáticas a comentar as corridas da Fórmula 1, no canal da estação da Eurosport.
Seu estilo directo, técnico e espirituoso cativou imenso os fãs. Watson tornou-se uma referência em transmissões desportivas, comparado a lendas como James Hunt.
Posteriormente passou a comentar as provas do BTCC para a BBC e a A1 Grand Prix na Sky Sports, sempre ao lado de Ben Edwards.
John também passou, a partir de 2010, a comentar as provas da FIA GT, FIA GT3 e Blancpain Series.
A presença de John era e continua a ser sinónimo de classe, qualidade, conhecimento e paixão pelas corridas.
O Legado
John Watson pode não ter sido um campeão mundial, mas o seu legado transcende os títulos. Foi um excelente exemplo de coragem, consistência, determinação e grande profissionalismo.
Um homem que venceu pela inteligência nas pistas e pela elegância fora delas. A sua simplicidade e modéstia fora do cockpit pode ter sido um travão para “Wattie” ter alcandao mais sucesso na F1.
Num mundo em constante mudança, Watson representa uma era de cavalheirismo, técnica e amor puro pelo automobilismo. Celebrar a sua história é honrar os verdadeiros heróis do desporto motorizado



