Competição • 01 Jan 2025
O fim do Grupo B, em 1986, não provocou o fim da tracção às quatro rodas. Assim, nos anos seguintes, o mundial de ralis passou a ser dominado pelos Lancia Delta HF Integrale, Toyota Celica 4WD, Ford Escort RS Cosworth, Subaru Impreza e Mitsubishi Lancer do Grupo A.
Estas não eram as únicas marcas interessadas em participar num campeonato mundial de ralis, mas as outras não tinham necessariamente a disponibilidade financeira para conceber e depois homologar um modelo 4×4 para competir no Grupo A. Seguiu-se então um intenso lobbying junto da FIA para que esta admitisse uma categoria mais acessível. A FIA acabou por ceder, e assim, a partir de 1993, surgiram novos protagonistas que tinham de obedecer a vários critérios: produção mínima de 25 000 exemplares (2 500 para o motor), motor atmosférico até 2000 de cilindrada, duas rodas motrizes, peso mínimo de 960 kg… VW Golf III, Škoda Favorit/Felicia, e sobretudo, SEAT Ibiza (tri-campeão em 1996, 1997 e 1998) foram alguns dos modelos que se destacaram nesse novo campeonato FIA 2L.

Mas foram as marcas francesas que mais ameaçaram as rainhas do WRC, e é por isso que nos interessam aqui. A Renault, participava no campeonato 2L com o Clio (na origem da versão Williams), que evoluiria para Clio Maxi em 1995, para depois alinhar o Mégane Maxi a partir de 1996, ano em que venceu o Tour de Corse (mas que não estava no calendário WRC). A Peugeot, por seu lado, contava com um 306 S16, cujo desenvolvimento culminaria com o 306 Maxi.
As equipas oficiais Peugeot e Renault nada podiam fazer contra a equipa oficial da SEAT ao longo do campeonato inteiro, preferindo concentrar-se nos ralis nacionais ou nas provas do campeonato do mundo como o Tour de Corse, Catalunha ou San Remo, mais próximas e, sobretudo, no asfalto. Austrália ou Quénia, por exemplo, não eram as suas praias.

No Rali da Catalunha 1997, Gilles Panizzi e François Delecour foram desafiar os monstros do WRC, ao volante de um “modesto” 306 Maxi da categoria inferior. No asfalto catalão, Panizzi (“Tarmac Master” para os amigos) começou por dominar a prova, com quase 20 segundos de vantagem em relação ao Subaru de Colin McRae, até um furo atirá-lo para o nono lugar, acabando, ainda assim, o rali no 3º lugar. Sempre teve mais sorte que o colega de equipa que sofreu um acidente.
No rali seguinte, na Córsega, a “maxi” rivalidade Mégane – 306 no campeonato francês, alastrou-se para o palco internacional, mas com vantagem para os 306 que lutaram até ao fim pela vitória após uma luta com os Escort de Sainz e Subaru de McRae (vencedor da prova), enquanto o Mégane de Philippe Bugalski debatia-se com problemas nos travões.

No ano seguinte, a ameaça manifestou-se novamente nos mesmos palcos. Na Catalunha, o 306 Maxi de Panizzi ainda quis desafiar os WRC, mas desta vez, não só não conseguiu ameaçar um Didier Auriol imperial ao volante do Corolla WRC, como ainda ficou em 6º lugar, atrás do surpreendente Xsara kit-car de Philippe Bugalski (ex- piloto Renault).
Na Córsega, o 306 Maxi mostrou-se ao nível do Impreza de McRae e Liatti, com um Delecour a disputar a vitória com o piloto escocês, acabando finalmente em 2º lugar (Panizzi em 4º). No Rali de San Remo, o 306 Maxi conquistou um 5º lugar com Panizzi. Terminava assim a carreira internacional de um carro de rali que marcou toda uma geração (e que também teve o mérito de desviar as atenções do fiasco da Peugeot na F1).

E em 1999, o que alguns receavam acabou por acontecer: um kit-car venceu os monstros do WRC na classificação geral. Vitória de Philippe Bugalski na Catalunha, seguida de uma dobradinha na Córsega (Bugalski e Jesús Puras). Duas vitórias consecutivas que mostravam que no asfalto seco, os kit-cars, mais leves, podiam ser superiores aos WRC de tracção integral. Como um remake do duelo Lancia 037 vs Audi Quattro. Naturalmente, a concorrência não ficou de braços cruzados, pressionando a FIA, que acabou por alterar o regulamento, antes de criar mais tarde o JWRC.

Os kit-cars tiveram uma vida curta no WRC, mas os seus sucessos abriram o apetite de algumas marcas e constituíram uma excelente base para a passagem para o WRC. Assim, a Peugeot ganhou confiança para passar do 306 Maxi ao 206 WRC, o Škoda Octavia kit-car tornou-se Octavia WRC e, sobretudo, o Xsara kit-car evoluiu para Xsara WRC, que, a partir de 2002, foi confiado a um jovem piloto particularmente promissor, chamado Sébastien Loeb…




