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Arquivos 08 Jun 2024

Quando o “charuto” se torna clássico

Por Bruno Machado

Do Carocha que perdeu o split-window para “ficar mais moderno”, ao Citroën DS transformado em galinheiro no fundo do quintal, sem esquecer o Peugeot 205 GTi “tuning” pintado de azul bebé com retrovisores ao estilo M3 E36. Todos nós conhecemos histórias do mesmo género. Hoje em dia, seria praticamente impensável fazer esse tipo de coisas, sob pena de ser julgado pelo tribunal internacional dos petrolheads, por atentado ao património automobilístico!


Alguns podem estar esquecidos, mas os Carocha split window, Citroën DS ou 205 GTi já foram alterados, ignorados, abandonados e mandados para a sucata sem quaisquer estados de alma. Estavam a passar por uma fase pela qual passam todos os automóveis produzidos em grande série, a fase em que já não são novidade, mas também não são relíquias, e por isso, são apenas “carros usados” ou “carros velhos” que vemos todos os dias. Como o Peugeot 205 GTi, o Citroën 2CV / Dyane, o Fiat 127, o Datsun 1200, o Opel Kadett, o Ford Escort MKI ou o Ford Taunus, o BMW Série 2, o Peugeot 504 ou ainda os Renault 4, 5 e 16, são outros exemplos de automóveis que foram grandes novidades, tornaram-se banalidades, e depois, velharias sem interesse. Até que chegaram à fase actual em que, indiscutivelmente, se tornaram clássicos.



Isso mostra que os clássicos indiscutíveis do presente são também as banalidades desprezadas do passado. Com o tempo, estes automóveis, antes comuns, foram conquistando o interesse dos coleccionadores, pelas mais variadas razões: raridade, características técnicas, charme vintage ou pormenores “kitsch”, recordações pessoais, etc. Factores subjectivos, e por isso mesmo, nem sempre consensuais.

Porque, de facto, a “elevação a clássico” é bastante subjectiva, não depende de critérios previamente fixados numa folha Excel. Não existe nenhuma definição oficial de “clássico” e nem as próprias marcas, que foram constituindo departamentos “classic”, “classiche” ou “heritage”, delimitam o conceito da mesma maneira. E nunca é demais lembrar que o conceito de “clássico” não tem, absolutamente, nada a ver com a idade. A fasquia dos 30 anos não passa de um critério burocrático (entre outros) fixado pelo legislador, para a obtenção do certificado de “Veículo de Interesse Histórico” – nomeadamente, junto do Museu do Caramulo -, e com isso, poder celebrar contratos de seguro mais adaptados à utilização de veículos mais antigos ou beneficiar de certas isenções, nomeadamente, a nível fiscal.


O conceito de “clássico” está sobretudo ligado àquela necessidade de coleccionar e de preservar, um pedaço de história – da nossa história pessoal, da história do automóvel ou até da história do país. Claro, essa necessidade surge de modo mais imediato quando se trata de um automóvel que já tinha um certo grau de exclusividade aquando da sua comercialização – versão desportiva, série muito limitada, etc -, mas como vimos acima, mais cedo ou mais tarde, acaba por atingir todos os outros, mais comuns, e muitas vezes, por estarem associados a velhas recordações pessoais. O Peugeot 205 consegue, sozinho, ser exemplo disso mesmo, através das suas versões T16, clássico desde o início, GTi que passou, bem mais tarde, de ícone tuning a ícone “clássico youngtimer”, ainda antes de fazer 30 anos, Roland Garros, Lacoste ou GT/XS – pouco mais acessíveis que o GTi -, até chegar ao GR mais comum, que está a começar agora, lentamente, se estiver de origem e em bom estado, a ser visto como um clássico.


Como em tudo na vida, o tempo faz a sua obra, nos automóveis e, sobretudo, na nossa percepção dos mesmos. Se os mais exclusivos tornam-se clássicos quase instantaneamente, os outros, mais comuns, apenas precisam de mais tempo, pois o interesse dos coleccionadores também está muito ligado à nostalgia, a qual pressupõe, necessariamente, algum distanciamento temporal.

Daí nunca ter percebido os oráculos segundo os quais, um determinado automóvel “nunca vai ser clássico“. Lembro-me logo de Peter Warr, antigo director da Team Lotus de Fórmula 1, quando, em 1984, vaticinava: “enquanto eu tiver um buraco no rabo, o Mansell nunca há-de ganhar um Grande Prémio“. Como sabemos, Nigel Mansell acabou por ganhar 31 corridas e um título mundial durante a sua carreira na Fórmula 1.


Basicamente, um “carro velho” torna-se clássico quando o “eh pá, que charuto!” dá lugar ao “eh pá, que maravilha! Ao tempo que não via um assim!”, perdemos dois minutos a olhar para ele, e a partir daí, vamos conhecendo cada vez mais pessoas a dizer o mesmo e que sentem a mesma necessidade de os preservar, sem ligar a critérios e sem snobismos. Isto está sempre a acontecer, e assim, aos poucos, com os gostos e sensibilidade de cada um, independentemente da idade, sem obedecer a processos ou requisitos previamente definidos e sem precisar da aprovação de um doutorado em “clássicologia”, vão surgindo novos automóveis coleccionáveis que queremos preservar.

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Francisco Caetano
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… e é mesmo verdade! Mas, possivelmente, não estaremos, nos dias de hoje, a ver futuros clássicos. Onde estão os detalhes que os poderiam classificar como históricos? Agradecimentos a todos os que mantém a história viva!

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