GP do Mónaco de 1984: A corrida que ficou a meio

Competição 04 Jun 2024

GP do Mónaco de 1984: A corrida que ficou a meio

Por Paulo Alexandre Teixeira

Há 40 anos, a temporada de Fórmula 1 começava a ser marcada pelo domínio dos McLaren, com o MP4/2 e o seu motor TAG-Porsche Turbo. Porém, era também marcada pelas estreias de pilotos como Ayrton Senna, Martin Brundle e Stefan Bellof. Num início de temporada onde a equipa britânica tinha ganho todas as corridas, menos uma, esperava-se um pouco mais do mesmo no Mónaco. Contudo, não foi bem assim… a começar pelo tempo no final de semana, que foi tudo menos agradável.

No final, a corrida iria ficar marcada para sempre nas memórias de todos por imensos motivos, nem todos bons.

Uma competição interna


Mónaco era a sexta corrida do campeonato, e até então, a McLaren tinha vencido quatro das cinco corridas realizadas até então, num duelo interno entre Niki Lauda e Alain Prost, que tinham ganho duas corridas cada um, com Michele Alboreto, da Ferrari, a triunfar no GP da Bélgica, mais de um mês antes. Apesar de tudo, Prost liderava o campeonato com 24 pontos, contra os 18 de Lauda. Derek Warwick, o britânico da Renault, era terceiro, com 13 pontos, resultado de dois pódios, em Kyalami e Zolder. Empatado com ele estava o Ferrari de René Arnoux, com pódios também em Zolder e em Dijon, onde se correra o GP de França naquela temporada.

Algo surpreendente estava a ser a Tyrrell, que tinha conseguido com que os seus pilotos, o britânico Martin Brundle e o alemão Stean Bellof, já tivessem pontuado. A equipa do velho lenhador era única, pois corria sem motor Turbo, ainda com os antigos – e fiáveis – motores Cosworth aspirados, com menos 220 cavalos de potência. E até ali já tinha conseguido pontuar, quer com Brundle – quinto lugar em Jacarépaguá – quer com Bellof, com um quinto lugar em Zolder e um sexto em Kyalami. E eles encaravam essa corrida com esperança, dado ser um percurso citadino, onde normalmente se davam bem. Porém, a qualificação iria ser atribulada.

No Mónaco, uma das equipas, a Brabham, iria apresentar uma versão do seu motor BMW Turbo de 4 cilindros em linha, um pouco mais domesticado, porque em vez de ter 900 cavalos, tinha ‘apenas’ 750. Com isso, esperavam pontuar. Para além disso, a Brabham tinha outro piloto no lugar de Teo Fabi, que corria nos Estados Unidos. Para o seu lugar entrava o seu irmão, Corrado Fabi, que faria aqui a sua primeira prova do ano.

Um enorme estrondo

Por esses dias, a qualificação era na Quinta-feira e no Sábado, ficando a Sexta-feira livre. Os organizadores decidiram que apenas 20 carros iriam entrar, dos 27 participantes, logo, quase um terço da grelha iria ficar de fora, e os carros aspirados eram os naturais candidatos. Na Quinta-feira, Lauda foi o melhor, seguido por Alboreto e Prost, mas no Sábado os pilotos aplicaram-se para entrar nos 20 lugares disponíveis. E foi ali que Martin Brundle sofreu um dos maiores sustos da sua carreira, comparável com o que aconteceria 12 anos depois, em Melbourne.




A mais de 250 km/hora, perdeu o controle do carro na Curva Tabac e bateu com estrondo nos guard-rails, deslizando por algumas dezenas de metros. Ficou com escoriações e regressou logo às boxes para continuar a qualificação com o carro de reserva, mas logo depois viria a ser impedido pelo Dr. Syd Watkins, afirmando que quando perguntou sobre como ele regressou às boxes, Brundle havia afirmado que “não se lembrava”. Acabou por ser um dos não qualificados, a par com os Arrows de Marc Surer e Thierry Boutsen, o Spirit de Mauro Baldi, o Alfa Romeo de Eddie Cheever e os RAM-Hart de Jonathan Palmer e Philippe Alliot. Stefan Bellof conseguira o 20º e último tempo, a quase 3,5 segundos do poleman, Alain Prost, e tal viria a ser importante na corrida.

Na frente, ao lado de Prost estava o Lotus de Nigel Mansell, com os Ferrari na segunda linha – Alboreto na frente de Arnoux – e os Renault na terceira – Warwick na frente de Tambay. Niki Lauda era oitavo, atrás do Ligier de Andrea de Cesaris, e Ayrton Senna, no seu Toleman, partia de 13º, na sétima fila, ao lado do Alfa Romeo de Riccardo Patrese e atrás do ATS de Manred Winkelhock.

Agora era esperar pelo dia da corrida, que não se disputaria em piso seco.

(Meia) Corrida Épica

Desde a manhã de Domingo que chovia, e à hora da partida os organizadores decidiram adiar o início da prova em 45 minutos. Durante esse tempo, Niki Lauda pediu a Bernie Ecclestone para que molhassem o asfalto dentro do túnel, para equivaler ao piso no resto do circuito, que estava muito molhado. Com a chuva a continuar a cair, passado esse tempo, então, resolveram arrancar com a corrida.

E logo na primeira curva, em Ste. Devote, houve confusão. Os Renault de Tambay e Brabham bateram forte, e ambos os pilotos saíram dos seus carros com lesões corporais. Os chassis foram logo retirados, e na frente estava Prost, com Mansell a seguir. Atrás, Senna e Bellof começavam a acelerar e a passar carros atrás de carros.

Na décima volta, Prost foi ultrapassado por Mansell, e este começou a afastar-se do pelotão, arriscando na chuva. O britânico, que liderava um Grande Prémio pela primeira vez na sua carreira, ganhava dois segundos face a um Prost que tinha problemas com o funcionamento do seu motor. Por esta altura, já Senna estava nos pontos, e tentava apanhar o Ferrari de René Arnoux, que era quarto, atrás de Prost e Lauda.




Contudo, na volta 14, Mansell perdeu o controlo do seu carro na subida para Massenet, porque pisou uma linha branca e perdeu o controlo da sua traseira. Com a asa traseira torta e o eixo traseiro afectado, não iria longe, acabando por fazer um pião na Mirabeau, ficando por ali. Prost regressou à liderança, seguido por Lauda e… Senna, que tinha acabado de passar Arnoux. Apesar de ser um carro do meio do pelotão, naquela atmosfera do Mónaco a potência contava muito pouco em relação às habilidades dos pilotos, e ali, a capacidade do brasileiro em situações de pista molhada começava a destacar-se. E quando Lauda se despistou no Casino, na volta 23, já Senna o tinha passado, perseguindo Prost pela liderança.

Entretanto, Arnoux lidava com outro jovem que se dava bem na chuva, Bellof no seu Tyrrell. Apesar da diferença de potência, isso de nada servia naquela atmosfera, e depois de lutarem na descida do Mirabeau, Bellof ficou com o terceiro lugar do piloto francês.

Senna aproximava-se de Prost, e no inicio da 31ª volta, o piloto da McLaren acenava à organização para parar com a corrida. Pouco depois, no início da volta 33, esta mostrou uma bandeira vermelha… e uma de xadrez, simbolizando o final da corrida. Prost encostou-se logo após ter cortado a meta, com Senna a aparecer logo atrás. O brasileiro chegou a comemorar, julgando ter ganho a corrida, mas na realidade tinha apenas chegado em segundo. Ainda por cima, a organização apenas contou os resultados a partir da 31ª passagem pela meta.

No final, o pódio tinha Prost, Senna e Bellof. Para o francês, a sua primeira vitória no Mónaco, para os outros dois, os primeiros pódios das suas carreiras. Tempos depois, com a descoberta das ilegalidades nos Tyrrell, os pontos foram retroactivamente retirados ao alemão.




Porém, logo depois começaram as polémicas. O director de corrida era Jacky Ickx, e surgiram acusações de favorecimento ao francês, pois Prost tinha motores construídos pela Porsche, enquanto Ickx era piloto da marca alemã no Endurance. No final, a FISA decidiu multá-lo em cinco mil dólares por não ter consultado a organização nesse campo, e não foi mais chamado para prestar tais funções.

No final, todos receberam metade dos pontos, e a grande ironia é que, para o francês, quando no final da temporada perdeu o campeonato por meio ponto para Lauda, provavelmente, o melhor teria sido continuar a corrida até chegar a uma altura onde poderia receber os pontos na totalidade… Ironias de um destino chuvoso naquele dia pelas ruas do Principado.


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Automóvel VW T2 €1

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