A Viagem – Parte II

Clássicos 07 Fev 2024

A Viagem – Parte II

Por João Carvalho e Costa

Está calor e as janelas da frente já vão abertas. Ao fim de uma recta, numa leve curva à direita antes da fábrica de bolachas aparece finalmente a bomba de gasolina de Pombal com o restaurante.

Paramos, saímos todos do carro e calmamente esticamos as pernas.

Sentamo-nos numa das poucas mesas livres da esplanada e pedimos o costume (até parece que lá vamos todos os dias): bolinhos de bacalhau com arroz de tomate. O arroz de tomate é servido numa terrina de barro vermelho e é sempre apetitoso.


Depois das sobremesas e do meu pai pagar dirigimo-nos para o carro e para surpresa do meu pai estão os quatro pneus em baixo! O meu pai dirige-se à bomba de gasolina e surge pouco tempo depois com um dos funcionários que traz uma bomba para encher os pneus. Enquanto os enche de forma ritmada com o pé, conversa com o meu pai:

…mas o senhor verificou-os antes da viagem? Olhe, verifiquei a pressão ainda há bocado na Malaposta ! – responde o meu pai.

Pois é, responde o funcionário já habituado a estes percalços, o senhor não pode fazer isso com os pneus quentes, porque quando parar eles voltam ao normal e a pressão baixa.

Arrancamos de novo já descansados pela explicação do funcionário da bomba de gasolina e voltamos ao nosso objectivo. É uma hora da tarde.

Os quilómetros vão passando e a paisagem vai-se transformando. Mais camiões, uns carregados e outros não. Uns simpáticos outros nem por isso. Não sei porquê mas a minha mãe (se calhar acha que vou muito agitado) desafia-nos para o jogo das matrículas: vamos ver quem vê primeiro um carro branco com a matrícula começada por O!

Sei que não tenho nenhum prémio mas entro no jogo e desperto a atenção para os carros com que nos cruzamos – ia ali uma 4L igualzinha à do tio Zé Rogério e tinha a matrícula começada por um O ! Agora sou eu: vamos ver quem vê primeiro um carro vermelho com a matrícula começada por um R.

Um quarto de hora depois digo eu, é melhor mudarmos que nunca mais aparece nenhum! Então um carro verde com a matrícula começada por um P, lança o meu pai. De repente apercebo-me que a paisagem muda de novo e surge do lado esquerdo o Mosteiro da Batalha. Lindo! Até me esqueço do jogo.- Olha um, olha um diz a minha mãe ! Ora bolas. Distraí-me.

Afofo-me para trás e sem querer acordo com Alenquer do lado direito, a tempo de ouvir a minha mãe dizer: se fosse Natal víamos o presépio na encosta. É verdade, lembro-me das figuras brancas gigantes visíveis da estrada, quando cá passámos no Natal.

Mais uma paragem para esticar as pernas e beber água. Está calor. Cheira a férias!

Continuamos calmamente, passamos na Venda das Raparigas onde o meu pai comenta, Nunca mais fazem a variante! Passamos no Carregado e à frente do Museu do Ar em Alverca  chegamos às piscinas de Vila Franca de Xira. Vê lá se vês a ponte – diz o meu pai, a ponte que nos vai levar a entrar no Alentejo.

Já estávamos na auto-estrada, aquela que o Fritz do Zip-Zip tinha perdido e vejo ao fundo do lado esquerdo a estrutura metálica da ponte. Saímos à direita, passamos por baixo da estrada e entramos na ponte. Olho a largura do rio Tejo, tão diferente do meu rio Douro e aprendo com o meu pai que esta ponte, obra-de-arte como lhe chama o meu avô Quim, foi feita pelo Eng.º Edgar Cardoso, o mesmo da ponte da Arrábida.

O calor aumenta e a minha irmã ainda bebé começa a manifestar-se. Já estamos no Alentejo e percorremos neste momento a tristemente famosa recta de Pegões. Tristemente, porque segundo conta o meu pai, aqui morreu num acidente na estrada uma irmã do Sr. Silva da drogaria, ambos da família Cardinalli e que depois desta morte violenta abandonou o circo e se estabeleceu na esquina da nossa rua. Bem vista as coisas, o bigode do Sr. Silva da drogaria não engana ninguém. Deve ser o que resta do mágico do circo Cardinalli…

Afinal a recta não é bem uma recta. Mas a paisagem transformou-se de novo. A estrada é ladeada de árvores, espaçadas de forma ritmada, fazendo um jogo de sol e sombra que dá cabo da paciência ao meu pai, que segue sempre tentando manter o conta-quilómetros nos 90, por causa da média, diz ele. A minha irmã dormita, influenciada talvez pela paisagem que é serena.

O meu pai segue vigilante na luz da temperatura, porque o carro com este calor e com o peso é submetido a um esforço suplementar.

E nisto surge o cruzamento com a estrada que vem de Setúbal e vai para Faro: viramos à esquerda seguindo para o nosso objectivo mais próximo. Lanchar no Canal Caveira umas sandes de carne assada. É costume.




Agora sim, mudou definitivamente a paisagem. E o cheiro. Cheira a Sul. Já passámos por alguns campos de girassóis tão vistosos que até pareciam de plástico e até a estrada com as duas faixas largas de asfalto negro e as bermas de asfalto côr-de-tijolo. Apesar de serem quase 4 horas o calor ainda se mantém e a paisagem vai-se aplanando cada vez mais, embora mantendo as mesmas cores.

De repente a estrada começa a descer, abre-se em três faixas, surgem casas brancas com as faixas azuis e chegamos a Alcácer do Sal onde já se vê a ponte levadiça esverdeada por onde vamos passar. Lembro-me agora dos vikings que subiam o rio Sado para cá virem buscar sal, pelo menos foi o que li  num livro do meu pai. Quando passamos a ponte, vejo ao longe a ponte dos comboios que sempre me fascinam, e desperto a atenção para a água embaixo com o meu pai- Vê lá se vês algum golfinho! Não tenho sorte. Os golfinhos roazes são a espécie que vive no estuário do Sado e ainda se vêem no rio, acrescenta. Fico a pensar no assunto. Oxalá nunca se vão embora.

Fotografia: Silva e Costa

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