O primeiro 44 a vencer em Rosso Corsa

Competição 06 Fev 2024

O primeiro 44 a vencer em Rosso Corsa

Por Paulo Alexandre Teixeira

A chegada de Lewis Hamilton à Ferrari foi um choque para meio mundo. Embora isso só aconteça na temporada de 2025, o piloto britânico será o sétimo britânico na história da marca, o primeiro no século XXI – o último foi Eddie Irvine, que aproveitou a lesão de Michael Schumacher para lutar até à última corrida pelo título de 1999, perdido para o McLaren de Mika Hakkinen.

E aparentemente, Hamilton, que terá 40 anos em 2025, poderá ter o salário mais alto da história do automobilismo: 100 milhões de dólares! Nada de especial, se pensarmos que no dia do anúncio a Scuderia valorizou-se em 7,7 mil milhões de dólares na Bolsa de Nova Iorque.

Porém, este não será o primeiro automóvel da Ferrari com o número 44 na competição. Historicamente, o primeiro com esse número na Fórmula 1 foi dado a um Maserati, no GP do Mónaco de 1950, com o italiano Franco Rol ao volante. O que interessa, no entanto, neste artigo é saber quem foi o primeiro a ganhar uma corrida com esse número pela Ferrari. E isso aconteceu precisamente num local histórico: nas ruas do Mónaco. Com alguma da concorrência a ir à água… literalmente!


A temporada de 1955 estava quente, com a Mercedes a ameaçar dominar a competição, como tinha feito na segunda metade de 1954. Para além disso existia a Lancia, que tinha feito um forte investimento na Fórmula 1, graças às ambições de um jovem Gianni Lancia, filho e herdeiro de Vincenzo Lancia, o fundador da marca, e tinha pilotos como Alberto Ascari e uma jovem esperança, Eugenio Castelloti. E a Ferrari… parecia que iria ficar para trás, sem nomes sonantes e com um carro envelhecido, a par da Maserati, que tivera Juan Manuel Fangio na sua equipa, antes deste trocar o tridente pela estrela de três pontas de Estugarda, para ser o campeão.

Na Mercedes, Fangio e Moss. Na Lancia, Ascari. E na Ferrari… Trintignant. Quem, pergunta o caro leitor?

Maurice Trintignant. Se não sabe quem é, então conto a história de um piloto fascinante, e que sobreviveu aos acidentes dos outros para conseguir uma longa carreira. Na altura, Trintignant tinha 37 anos, mas já havia corrido quer antes, quer depois da II Guerra Mundial, onde conseguiu um apelido curioso.

Nascido a 30 de Outubro de 1917, em Sainte-Cécile-les-Vignes, no Vaucluse francês, era o irmão mais novo de Louis Trintignant, morto num acidente em 1933, quando corria em Peronne, no Bugatti. Começou a competir em 1938, e triunfou na Bélgica, no Grand Prix des Frontiéres, no ano seguinte, semanas antes da declaração de guerra.

O segundo conflito mundial congelou a sua carreira mas quando, em 1945, no final do mesmo, soube que se tinha marcado uma corrida no Bois de Boulogne, nos arredores de Paris, chamado “Coupe de la Liberation“, Trintignant foi buscar ao celeiro o Bugatti de corrida – que escondera dos olhares curiosos dos nazis ocupantes. Ao funcionar, o seu escape explodiu, descobrindo então que este tinha entupido com os dejectos deixados pelos ratos que tinham feito do seu carro o seu lar. Quando soube da história, um dos seus concorrentes, Jean-Pierre Wimille, deu-lhe o carinhoso apelido de… “Le Petoulet” (A Caganita ou O Homem das Caganitas).

Em 1948, acidenta-se nos treinos para o GP de França, em Reims, e Amedée Gordini pede a um argentino, que nunca tinha corrido na Europa, para o substituir. O seu nome era Juan Manuel Fangio. Algumas semanas mais tarde, no GP da Suíça, tem um acidente ainda mais grave, que o deixa em coma por duas semanas. Quando acorda, a sua mulher dá-lhe um pequeno urso de peluche, que a partir dali se torna seu o talismã. 

Não-participante na primeira corrida da história da Fórmula 1, o GP da Grã-Bretanha de 1950, a 13 de Maio, correu em duas provas dessa temporada pela Simca-Gordini, equipa onde ficou até 1954, altura em que foi para a Ferrari. Ali, conseguiu o seu primeiro pódio no GP da Bélgica, em Spa-Francochamps. Um novo pódio, no Nurburgring, deu-lhe no final da temporada 17 pontos e o quarto lugar na geral, o ano em que conseguiria mais pontos na sua longa carreira. Nesse ano, ainda ao serviço da Ferrari, venceu as 24 Horas de Le Mans, com o argentino José Froilan González.

Em 1955, tinha sido um dos sobreviventes do abrasador GP da Argentina, onde chegara ao fim na segunda posição… e na terceira (!), partilhando conduções com José Froilán González e Giuseppe (Nino) Farina para o segundo lugar, e Farina, mais Umberto Maglioli, para o terceiro. Numa corrida ganha por Fangio, que foi o único que não saiu do automóvel, nem trocou de pilotos.

No Mónaco, a segunda corrida do campeonato, parecia que a concorrência iria ter alguma hipótese contra os dominadores Mercedes. Afinal de contas, era uma corrida urbana, nas ruas da prestigiada cidade-estado, e tinha fama de ser uma de atrito: três horas, cem voltas.

Partindo de nono na grelha, com Juan Manuel Fangio na pole, e Alberto Ascari e Stirling Moss a seu lado na grelha, Trintignant aproveitou a corrida de atrito para, com o seu estilo conservador, subir posições. E compensou: a meio da corrida, aproveitou a retirada de Fangio, com um problema de transmissão no seu Mercedes. Depois, foi Stirling Moss a ficar sem motor a 20 voltas do fim. Com isso, Ascari herdou a liderança no seu Lancia, mas na chicane do Porto, derrapa no óleo deixado pelo Mercedes do britânico e acabou… no Mar Mediterrâneo. Resgatado de imediato, acabou no hospital com o nariz partido. Com isso, Trintignant herdou a liderança e limitou-se a levar o carro até ao fim, conseguindo não só a vitória para a Scuderia, sendo também o primeiro francês a vencer na F1.




Trintignant continuou a correr pela Ferrari até 1956, quando se mudou para a Bugatti, que tentava um regresso à Formula 1, que acabou por ser desastroso. Uma sombra do passado, a marca francesa iria desaparecer da disciplina pouco depois. Regressaria à Ferrari em 1957, indo no ano seguinte para a Rob Walker Racing, que nessa temporada usava os Cooper de motor traseiro. E foi aí que conseguiu a sua segunda – e última – vitória da sua carreira… nas ruas do Mónaco! Tornou-se também no segundo triunfo de um automóvel com motor traseiro na história da Fórmula 1, depois de Stirling Moss o ter conseguido na primeira corrida do ano, em Buenos Aires.

Por essa altura, já tinha 40 anos, mas continuou a correr por mais equipas, como a Aston Martin, a Lotus e a BRM, acabando em 1964, aos 47 anos, e 88 Grandes Prémios. Quando se retirou, era o último piloto no activo que correra na temporada de 1950, a primeira de todas.

Depois disso, retirou-se e dedicou-se à viticultura, dando o nome de “Le Petoulet” aos seus vinhos. O seu sobrinho, Jean-Louis Tritignant, tornou-se um dos mais conhecidos actores franceses da segunda metade do século XX – e um dedicado piloto amador, com passagens pelas 24 Horas de Le Mans e o Rally Dakar.

Maurice Tritignant acabaria por morrer a 13 de Fevereiro de 2005, aos 87 anos de idade.

E agora que em 2025 teremos o número 44 nas cores de Maranello, curiosamente, Hamilton chegará numa idade um pouco mais velha que o francês. Não obstante, a idade não significará nada porque basta olhar para Fernando Alonso, que está a caminho dos 43 e continua a ser competitivo na Aston Martin.

Afinal de contas, a idade poderá ser mesmo pouco mais que um número.   

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