A Viagem - Parte I

Clássicos 04 Fev 2024

A Viagem – Parte I

Por João Carvalho e Costa

Agradável, aquela sensação de ouvir a voz do meu pai para me acordar a dar o sinal do início das férias, João… levanta-te filho… são 8 horas, e preparar tudo com o entusiasmo de quem sonha com a praia, a água morna e o reencontro com os tios.

Descer as escadas e ajudar a carregar o carro com todos as malas e sacos preparados de véspera pela minha mãe, tudo feito num ápice, …senão ainda vamos apanhar o Alentejo na pior altura! – garante o meu pai.

Já estamos todos e ainda o meu pai limpa o vidro da frente com uma batata para desengordurar, porque se esperam mais de 600 km de viagem, uma grande parte deles feitos atrás de grandes camiões.





Toma aí nota dos quilómetros, são 32648 para depois se fazer a média e os consumos – diz o meu pai, Fechaste a água e deixaste a porta do frigorífico aberta? – responde a minha mãe. Afofamo-nos nos assentos de trás e os meus pais colocam os cintos de segurança. São 8:45, o depósito foi atestado de véspera e saímos calmamente da Rua Gomes Leal.

Está Sol e vai ser uma viagem com muito calor. Despeço-me do Porto com as saudades de quem nasceu na freguesia da Sé, quando passamos a Ponte de D. Luís…

Entramos na auto-estrada à saída da avenida de Gaia, o meu pai acelera até aos 90 km na descida sabendo que vai ser um dos raros momentos em que poderá fazê-lo.

Lembro-me sempre daquela personagem do turista alemão, o Fritz, do Zip-Zip que dizia que o nosso país tinha uma auto-estrada estranha: saindo de Lisboa tinha-a perdido em Vila Franca e só a tinha tornado a encontrar à chegada ao Porto!

Saímos da auto-estrada e entramos no cruzamento dos Carvalhos. Ficamos parados à frente da garagem da União Transportadora dos Carvalhos com as camionetas cor de vinho e uma lista preta. Estamos na Estrada Nacional nº1 que liga o Porto a Lisboa. São visíveis os camiões à nossa frente e que nos vão obrigar a marcar passo enquanto não houver oportunidade de ultrapassagem.

Passamos os armazéns do Gama onde às vezes brinco por cima dos sacos de café com o Rui o meu grande amigo e onde têm a fábrica da marmelada que todos apreciam mas que me enjoa. Sem que eu perceba, começa-me a dar alguma moleza e encosto-me à cadeirinha da minha irmã para completar as horas de sono em falta.

Onde estamos? pergunto logo assim que acordo: estamos quase na Malaposta – responde-me a minha mãe. O meu pai acabou de parar para ver a pressão dos pneus e esticar as pernas.

Arrancamos outra vez em direcção a Coimbra. Parece que a quantidade de camiões e camionetas diminuiu, seguimos agora num grupinho de quatro carros que também devem ir de férias pois é visível o balde da praia pelo vidro de trás em dois deles.

Entramos em Coimbra, e atravessamos as ruas a olhar as pessoas pensando que morrem de inveja por ver que vamos de férias. Adoro os tróleis amarelos que há em Coimbra e fascinam-me sobretudo as linhas de comboio que atravessam a baixa em frente à estação de Coimbra A. Vejo o rio Mondego em baixo, à medida que passamos a ponte e a seguir a entrada do Portugal dos Pequenitos onde fui algumas vezes nos passeios da escola e ouço o comentário que a minha mãe faz sempre – passamos aqui tantas vezes, havemos de lá ir!

Passamos a placa que indica Conímbriga e mais alguns quilómetros depois passamos pela placa que indica Figueiró dos Vinhos onde já passámos alguns fins-de-semana e onde até já fizemos um Magusto com os colegas do Banco onde o meu pai trabalha.

Mais camiões a passo de caracol porque vamos a subir e o jogo de paciência para os ultrapassar nos pontos onde a estrada é mais larga e com maior visibilidade. Eis que surge na nossa frente um camião carregado de batatas que faz pisca para a direita indicando que o meu pai pode acelerar e mostrar o que vale um Renault 10 e ultrapassá-lo. O meu pai agradece com um toque da buzina e comenta – se fossem todos assim…

Já começo a sentir o estômago vazio, a pensar no arroz de tomate quentinho e a minha irmã pequenina também – calma que já estamos a chegar ao Pombal – serena a minha mãe.

Fotografia: Silva e Costa

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