Danilo Coto:

LifeStyle 05 Jan 2024

Danilo Coto: “O meu maior sonho é acrescentar um grão de areia ao legado histórico do automobilismo”

Estreou ontem nas salas de cinema portuguesas o filme Ferrari, última obra de Michael Mann com Adam Driver no papel de Enzo, e o Jornal dos Clássicos teve a honra de entrevistar em primeira mão Danilo Coto, fundador da PACTO – a marca de capacetes e acessórios de época que produziu todos os artigos respectivos para a longa metragem que retrata uma era impactante na vida do fundador da marca de Maranello.




Fale-nos um pouco da história da PACTO – como começou esta sua viagem?
A PACTO começou em 2011 mas a motivação de fabricar um capacete veio cerca de 10 anos antes, quando adquiri uma moto Zundapp kS 601sp de 1955 e o proprietário não me quis vender o capacete original que lhe deram quando adquiriu a moto naquele ano. Desde aquele momento o meu interesse por capacetes antigos ganhou força, porque eu queria andar na minha moto com um capacete vintage, então comecei uma pequena colecção de capacetes antigos e após 10 anos a estudar os diferentes tipos de capacetes que eram usados ​​​​naquela época, resolvi fazer um para mim, só para usar na minha moto, demorei muito para fazer o meu capacete, três anos para ser exacto, porque era extremamente difícil. Poucos dias depois de o ter pronto, coloquei a foto do meu capacete no Facebook e fui contactado por uma empresa britânica que vendia esses capacetes ingleses nas décadas de 50 e 60, fizeram um pedido de 100 capacetes e foi aí que comecei a sonhar, alguns meses depois formei a marca, isto em 2011.

Como vê a importância da utilização de acessórios de época nos mais variados eventos de automóveis históricos?
A minha principal motivação para fabricar os capacetes foi essa, a ideia de que se tens um carro ou moto clássica deverias usar acessórios da época correcta. Há alguns anos era pouco comum ver as pessoas com capacetes do período correcto dos seus carros em rallies ou eventos de clássicos, hoje isso faz parte do meu trabalho, ajudar os meus clientes a usar acessórios de época para os seus diferentes veículos, seja o calçado de competição, casacos, calças, entre outros.

Entretanto, surge o filme Ferrari: como nasce a relação com a PACTO?
Foi uma enorme surpresa, estávamos em Roma a desfrutar das Mille Miglia com clientes nossos, quando recebemos um email de uma das empresas de acessórios para cinema, no qual perguntavam se queríamos participar como fornecedores de capacetes, sapatos e viseiras para o novo filme Ferrari. Não tínhamos a certeza se era um e-mail falso, mas logo percebemos que era a empresa de acessórios e vestuário que o Michael Mann tinha contratado em Itália para os figurinos do seu novo filme, e cuja sede ficava a apenas 850 metros do hotel onde estávamos em Roma. Fomos imediatamente para a reunião e tivemos uma excelente troca de ideias sobre os acessórios dos pilotos para o filme. Perguntámos como sabiam que a PACTO fazia esse tipo de acessórios e eles disseram-nos que tinha sido o director do filme Ford v. Ferrari a recomendar-nos, porque já tínhamos integrado o filme com acessórios nossos e auxiliámos na pesquisa de acessórios correctos dos anos 60 para o filme.

Pode falar-nos um pouco sobre o seu papel no filme, nomeadamente em que momentos específicos podemos ver os seus produtos?
Por sorte, metade do filme é sobre corridas de automóveis, seja de monolugares ou outros, e em todas essas cenas de corrida aparecem “os meus” capacetes e acessórios, por isso, em grande parte do filme aparecem os meus produtos. No total produzimos 23 capacetes personalizados por piloto, 12 pares de sapatos de corrida e 12 viseiras de chuva de corrida para pilotos como: Peter Colllins, Fangio, Stirling Moss, Piero Taruffi, Hawthorn, Castelotti, Wolfgang von Trips, Alfonso de Portago, Olivier Gendebien, Edmound Nelson, entre outros; cada capacete era feito exactamente como esses pilotos customizavam naquela época, por isso tivemos de fazer coisas extremamente detalhadas, como cores específicas de fivelas, linhas de costura do tecido do capacete, tecidos do capacete, couro, orifícios de ventilação, logotipos das escuderias pintados à mão, tamanhos de viseiras, broches para colocar outros acessórios, ganchos metálicos para óculos, entre muitos outros detalhes.

Permita-nos agora uma pequena reflexão. Vivemos tempos desafiantes e exigentes no que diz respeito ao paradigma da mobilidade em todas as suas formas e, consequentemente, à utilização do automóvel e à nossa perspetiva sobre o mesmo. Como é que vê o papel da PACTO na preservação de um legado que tanto nos apaixona?
Estamos perante um momento de grande incerteza em termos de mobilidade, há muitas dúvidas sobre o rumo dos mercados e dos fabricantes de veículos a nível mundial, não há uma ideia clara de como será o futuro dos nossos meios de transporte no que toca ao tema da energia, há muitos interesses envolvidos no uso de combustíveis fósseis e outras formas de energia alternativas. O meu maior sonho como dono da PACTO é acrescentar um grão de areia ao legado histórico da época de ouro do automobilismo mundial e que as gerações futuras entendam que homens e mulheres do passado competiram em veículos de enorme potência sem cinto de segurança, travões adequados às altas velocidades, com pneus de 5 polegadas de largura, com capacetes pouco fiáveis, ​​mas que ainda assim o fizeram com uma grande paixão pelo desporto motorizado.

O Jornal dos Clássicos agradece a amabilidade e disponibilidade de Danilo Coto, bem como os contributos de Tiago Santiago Silva e Pedro Pais Cardoso para a concretização desta entrevista.



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