Uma história de arrependimentos

Clássicos 29 Dez 2023

Uma história de arrependimentos

Por Irineu Guarnier

Tive muitos automóveis na vida. Comecei cedo. Com 18 anos, me esfalfava em dois empregos para pagar as prestações de um Volkswagen SP2 usado de dois lugares. Foi meu primeiro automóvel. Depois dele, vieram pelo menos outros 50 de todas as marcas e modelos – perdi a conta. Sempre me desfiz dos carros que tive com muita facilidade. Nunca fui de me apegar muito a este ou aquele veículo.

Todavia, olhando retrospectivamente para esse meu histórico juvenil de desapego, sinto que abri mão de carros dos quais jamais deveria ter-me separado. Não porque fossem perfeitos, raros ou valiosos, mas porque possuíam algo que jamais encontrei em outros exemplares. Na verdade, por uma razão ou por outra, nunca consegui substituí-los na minha galeria de afetos automotivos. Se pudesse voltar no tempo, não os venderia por dinheiro algum. São eles:

VW SP2


Era usado, bem usado. Passou por uma boa reforma, ficou novo – e lindo. Azul Caiçara (também chamado de “azul-calcinha”). O motor boxer refrigerado a ar de 1.700 cc e ventoinha plana não era lá essas coisas. Mas o acabamento interno em couro, madeira e aço inox era inacreditável para um carro brasileiro da época. E o design, ah, o design fluido e longilíneo era – e ainda é – belíssimo. A revista alemã Hobby o considerou o Volkswagen mais bonito de todos os tempos. E olhe que os alemães não tiveram o privilégio de possuir um SP2 – o carro só foi fabricado no Brasil, entre 1972 e 1976. Pouco mais de dez mil unidades.

Troquei o SP2 por um Chevrolet Chevette (carro brasileiro derivado do Opel Kadett alemão), porque precisava de mais espaço.  Até hoje, me arrependo amargamente deste negócio infeliz. Tentei recompra-lo tempos depois, mas não consegui. Com o passar dos anos, o carrinho virou cult (até na Europa), os sobreviventes foram rareando, os preços não pararam de subir, e o meu sonho de voltar a ter um SP2 se tornou inalcançável. De todos os carros que tive, até por razões sentimentais, é o que eu mais gostaria de voltar a ter algum dia.

VW Karman Ghia TC

Outro modelo que a Volkswagen só produziu no Brasil. Era uma evolução do tradicional Karmann Ghia alemão. Com linhas tipo fastback fortemente inspiradas no clássico Porsche 911 (Dizem que o design teve retoques do genial designer italiano Giorgeto Giuggiaro), tinha motor de 1.600 cc, carburação dupla e mais espaço no banco de trás. Um carro muito bonito para a sua época. Tinha problemas com ferrugem. Mas qual carro daquela época não sofria deste mal?

Guiei o do meu pai, um belo KG TC branco, novinho em folha, nos anos 1970. E, décadas mais tarde, por puro saudosismo, restaurei um desses para mim, que encontrei abandonado em uma garagem. Fez muito sucesso nos encontros de carros antigos. Vendi o meu KG TC Amarelo Manga para comprar outro carro antigo. Arrependido, também tentei recompra-lo anos depois, mas a resposta do novo dono foi: NÃO! É outro modelo que valoriza a cada dia que passa.

CHEVROLET S10

Sempre gostei de picapes. Talvez influenciado pelo cinema norte-americano, que as transformou em ícones (desde há décadas, o carro mais vendido nos Estados Unidos é a picape Ford F-150), desejava muito ter uma. Para não perder um negócio de ocasião, acabei comprando uma Chevrolet Blazer, azul, que era na verdade um SUV. Gostei de dirigi-la, da mecânica simples e robusta – mas não da carroceria fechada.

Finalmente, adquiri a picape que cabia em meu bolso: uma Chevrolet S10, cabine dupla, verde, 1997. Foi um dos melhores veículos que já tive. Viajei muito com ela. Era confiável e confortável. Mas encasquetei que era grande demais para o trânsito urbano e para as exíguas vagas de estacionamentos dos shoppings, e decidi encerrar minha experiência como “caminhoneiro”, como disse na época, passando a S10 adiante. Bobagem. De lá para cá, as picapes se tornaram cada vez maiores e mais presentes nas grandes cidades, e hoje ninguém mais se queixa do seu tamanho.

FORD Focus

Quando chegou ao Brasil, em 2000, o carro da Ford inglesa, que inaugurou o estilo de design New Edge, causou forte impressão. Não era para menos. As linhas arrojadas, o painel assimétrico, as lanternas traseiras instaladas na coluna C, tudo no Ford Focus Hatch chamava a atenção até de quem não curte carro. A versão sedan, que veio depois, tinha design um pouco mais conservador.

Tive os dois modelos – zero quilômetro! Tanto em uma como em outra configuração, eu nunca havia experimentado um equilíbrio tão bom entre motor, caixa de câmbio, direção e suspensão. Comparável ao dos melhores carros importados. Aliás, o Focus era importado – da Argentina. Foi reestilizado até a terceira geração no Brasil e saiu de linha em 2019. Nas atualizações, incorporou muitos aperfeiçoamentos – mas não ficou mais bonito. Vendi os dois Focus para me livrar de emergências financeiras. Com qualquer um deles, eu estaria muito feliz hoje em dia.

FORD Taurus

O Ford Taurus foi, por décadas e várias gerações de modelos, um dos sedans mais queridos dos norte-americanos. O design da segunda geração, no entanto, não foi aceite unanimemente. Houve, até mesmo entre “tauristas” de carteirinha, quem detestasse as formas ovaladas de todo carro – dos faróis e lanternas à carroceria, das janelas ao painel. Com o passar do tempo, no entanto, as formas inusitadas do Taurus oval vão tornando o modelo uma peça de coleção cada vez mais exclusiva.

Admito que eu não gostava do Ford Taurus ovóide. Mas, um dia, por uma dessas coincidências incríveis do destino, fui buscar um Chrysler Stratus conversível que namorava havia meses, mas o carro fora vendido havia uma semana. O ex-proprietário ofereceu- me então um Taurus preto com pouco mais de 60 mil quilômetros originais, que fazia parte de sua coleção.

A princípio, recusei. Mas, como ele insistisse, fui dar uma espiada no carro – e me encantei. O Taurus era simplesmente impecável. Foi amor à primeira vista. Fiz mais de 20 mil quilômetros com ele. Chamava a atenção por onde passava. Não raramente, era confundido com um Jaguar. Desfiz-me dele porque precisava de um veículo mais econômico para o dia a dia. Depois disso, por muito tempo tentei encontrar outro Taurus como aquele – mas a busca foi inútil.

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