Volvo P1800, para santos e condutores

Clássicos 05 Abr 2023

Volvo P1800, para santos e condutores

Por Bruno Machado

Um coupé tipicamente italiano, com linhas elegantes e alguma sensualidade à mistura. Não há margem para dúvida, trata-se obviamente de mais uma bella macchina da…Volvo. De facto, estaríamos à espera de outro logótipo num automóvel, Lancia ou Maserati, por exemplo. Agora o especialista sueco das carrinhas desenhadas com uma régua é que não!

A explicação é simples: é que a Volvo é muito mais do que um “especialista de carrinhas desenhadas com uma régua na mão”! E o P1800 é o exemplo paradigmático disso mesmo. Há que recuar no tempo e contextualizar…

Nos anos 50, a Volvo tem algum sucesso com o modelo familiar PV444 (e depois PV544), não só na Suécia de origem, como também, mais inesperadamente, nos Estados Unidos. Pelo que, rapidamente surge a vontade de propor um coupé mais desportivo para completar a gama.

Apesar do fracasso do P1900 (mal concebido, performances medíocres, fraca qualidade de construção), nasce o projecto P598. Um coupé tem de ser bonito, elegante e com glamour, pelo que o design tem de ser italiano! Helmer Petterson, já responsável dos PV 444, é encarregue de entrar em contacto com os mestres italianos. É então contactada a Ghia que, por falta de disponibilidade, sugere o centro de estilo de Pietro Frua, que aceita. A equipa de Frua encarrega-se então de dar ao novo coupé da Volvo as tão desejadas linhas latinas. Quando o resultado é apresentado a Helmer Petterson, o feedback é positivo, mas terá ficado furioso ao saber, à posteriori, que as linhas são da autoria de um estagiário de Frua, Pelle Petterson, o seu filho.

A construção do Volvo P1800 também é atribulada. As fábricas de Göteborg já estão bastante atarefadas com a construção dos PV544 e dos Amazon, pelo que, não podendo assumir a construção do novo modelo, a Volvo vê-se obrigada a subcontratar. Contacta a Karmann, que, não obstante o interesse, vê-se obrigada a recusar devido às suas ligações com a Volkswagen. A realização da carroçaria é então confiada à Pressed Steel Ltd, enquanto que a montagem e acabamentos são da responsabilidade da Jensen.

O motor, enviado da Suécia para o Reino Unido, é o B18 B do 122 S Amazon, de 1778 cm3 com dois carburadores SU e 100 cavalos de potência. Mas a qualidade dos primeiros exemplares deixa a desejar, tendo em conta os padrões da Volvo que está a construir a sua imagem de marca precisamente à volta da robustez das suas produções.

Assim, em 1963 a marca decide repatriar para Göteborg a construção do seu coupé, agora designado P1800 S, o “S” significando “Sverige” (Suécia) e não Sport!

A partir de 1966, o B18 do agora 1800 S passa para 115 cavalos, igualmente disponível no 123 GT Amazon. A grelha fica mais afinada, o emblemático pára-choque frontal perde os bigodes e torna-se mais horizontal e a linha cromada lateral é agora rectilínea.

Em 1969, o 1800 S troca o B18 pelo novo B20 de 2.0 litros, sem alterações no nome. O aumento de cilindrada não traz um aumento substancial de potência (apenas três cavalos), mas o motor torna-se mais disponível nas baixas rotações, correspondendo cada vez mais a um coupé de grande turismo.

No ano seguinte surge a injecção Bosch para substituir os carburadores, de modo a respeitar as novas normas ambientais norte-americanas, já que os Estados Unidos constituíam um mercado muito importante. O condutor do agora 1800 e dispõe de 130 cavalos para as suas viagens, ao mesmo tempo que o consumo é reduzido, podendo contar com travões de disco às quatro rodas. Esteticamente, o coupé adapta-se à moda seventies, quer no exterior, quer no habitáculo (a grelha deixa de ser cromada, surgem novas jantes pretas, novas cores, novo tablier…) e uma caixa automática Borg-Warner é igualmente proposta como extra.

Internamente, o 1800 continua a inspirar os designers da Volvo, como Jan Wilsgaard (autor do Amazon), que desenha o protótipo Rocket, em que toda a secção traseira do 1800 se assemelha a uma carrinha. Embora tal projecto não tenha sido escolhido para uma produção em série, o conceito de shooting break agrada aos dirigentes da marca e é finalmente o desenho do italiano Sergio Coggiola que dará origem ao Volvo 1800 ES, comercializado a partir de 1971.

Da traseira do 1800 ES, destacam-se as janelas laterais traseiras e sobretudo a mala toda em vidro, que continuará a ser evocada posteriormente noutros modelos da marca, nomeadamente no 480 e no C30. A versão ES deixa de ser produzida a partir de 1973, um ano depois do coupé original.

Se o Volvo P1800 seduziu logo desde o início da sua carreira graças às suas linhas, também seduziu pelas suas qualidades e pela fiabilidade do motor. Exemplo disso é a história de um antigo professor de ciências, chamado Irv Gordon, que adquiriu o seu 1800 S em 1966 e percorreu com ele mais de 5 milhões de quilómetros, antes de falecer em Novembro de 2018.

E nem um santo é capaz de resistir ao Volvo P1800, que o diga Simon Templar, aliás Roger Moore, que contou com o seu coupé branco para perseguir os vilões da série “O Santo”. Além dos exemplares utilizados na série, o futuro 007 também chegou a adquirir três exemplares do P1800 para as suas deslocações pessoais.

Dois condutores que não se cansavam de conduzir o incansável Volvo P1800…

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Hugo
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Petterson sabia, obviamente, que era o filho que estava a fazer o desenho. Quem não sabia era Gunnar Engellau.
Não foi a Karmman que foi contactada para a produção das carroçarias, mas sim a Ghia.

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