Escala de Luanda: O Hotel Presidente

Arquivos 13 Mar 2023

Escala de Luanda: O Hotel Presidente

Por José Correia Guedes

Em finais da década de 90 comecei a ficar alojado no Hotel Presidente durante as minhas permanências em Luanda ao serviço da TAP. O hotel já tinha conhecido melhores dias mas continuava confortável e permitia que os tripulantes e outros clientes usufruíssem de condições de repouso mais que razoáveis. Tinha, porém, alguns pequenos problemas.

Um deles era a falha frequente da electricidade. Depois era o entra-não-entra do gerador de emergência, nem sempre muito eficaz. Quem fosse apanhado a meio da viagem no elevador mais pequeno (duas pessoas, no máximo) candidatava-se a uma experiência única; tinha portas de correr e, em consequência, a coisa ficava “preta” para quem tivesse problemas de claustrofobia. Ficava preta mesmo, porque ficava tudo às escuras.

Outro problema era o relógio do edifício da Alfândega, situado mesmo em frente do hotel. Batia estridentes badaladas electrónicas todos os quinze minutos, que se ouviam a quilómetros de distância. O relógio esteve avariado durante décadas mas um dia apareceu um benemérito (Jorge Gonçalves, o “bigodes” ex-presidente do Sporting) que ofereceu a reparação. A partir daí, quem tivesse o azar de ficar alojado num quarto virado para a Alfândega tinha o inferno garantido.

Na altura não havia muito para fazer em Luanda. De manhã ia-se para a praia (Barracuda, habitualmente) e a tarde era passada no hotel. Uns dormiam (se o relógio da Alfândega o permitisse), outros liam, outros ainda lutavam com a ligação lenta e difícil da Internet. Outros (outro, pelo menos), tocavam piano.

No Bar do Presidente havia um razoável piano de quarto de cauda que quase nunca era utilizado. Como o lugar era pouco frequentado, durante a tarde aproveitava para treinar e fazer os meus “trabalhos de casa”. Na altura tinha aulas de jazz com o Jean Marc Charmier e andava entusiasmado com o novo mundo que se abria à minha frente. Sempre que podia lá me sentava ao piano, abria as partituras do New Real Book, a bíblia dos principiantes, e começava a tocar.

Estando eu neste preparo, uma bela tarde notei um cliente que estava sentado ao balcão e parecia já ter bebido bem mais que a sua conta. Era simpático. Cada vez que eu terminava uma peça, batia palmas e acenava com os dedos da mão direita fechados levantando apenas o polegar, o gesto de OK universalmente conhecido. Havia mais dois ou três clientes nas mesas, mas só ele aplaudia.

Passado um bocado, puxou uma cadeira e sentou-se a meu lado. Tinha um hálito “pesado”. Ofereceu-me um whisky. Agradeci, mas recusei dizendo que não era apreciador. Para o não ofender, disse que aceitaria uma cerveja bem gelada.

As bebidas chegaram pouco depois, fizemos um brinde e durante alguns minutos fomos misturando música com um pouco de conversa. Até que, aproveitando uma pausa, o meu novo amigo levantou-se e, em modo de despedida, disse:

“Para homem de negócios, não tocas nada mal!”

Agradeci o cumprimento:

“Muito obrigado. O meu nome é José Guedes. Obrigado também pela cerveja e pela companhia”.

“De nada. Eu sou o general XPTO” (claro que não vou dizer o nome).

Tudo certinho, confirmado pelo barman.

Nesses tempos, princípios do século XXI, os comandantes da TAP tinham o privilégio de levar um convidado/a em cada viagem, sem quaisquer encargos. Foi a solução encontrada pelo SPAC e pela companhia para nos “compensar” de uma série de anos sem aumentos salariais. Mais tarde os restantes tripulantes vieram também a beneficiar desse acordo.

Não faltavam “clientes” para o Rio de Janeiro, Maputo, Nova Iorque, São Paulo, Joanesburgo e sei lá mais o quê. Só para Luanda é que ninguém queria ir. A reconstrução da cidade estava a começar mas ainda havia carências de toda a ordem. A segurança também deixava algo a desejar e o processo de obtenção dos vistos era um pesadelo.

Certa noite, enquanto fumava uma cigarrilha na varanda do Presidente, comentava isso mesmo com um dos directores, João Reis. Ele não precisava dos meus serviços, porque ia a Portugal com regularidade, mas o chefe da cozinha estava há já seis meses sem ver a mulher. Será que eu podia?…

Claro que pude. A senhora tratou de tudo e na próxima viagem lá foi comigo para Luanda.

Adivinhem agora qual passou a ser a mesa melhor servida do restaurante do Hotel Presidente a partir daquele dia. Até irritava de tanta lagosta!!!

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