A exclusividade da obscuridade: Cinco raros desportivo britânicos dos anos 60 e 70 (Parte II)

Clássicos 17 Fev 2023

A exclusividade da obscuridade: Cinco raros desportivo britânicos dos anos 60 e 70 (Parte II)

Por Pedro Fernandes

Um verdadeiro antídoto contra a indiferença, o dramatismo das formas do Mantis M70 é um automóvel desportivo mais que suficiente para despertar uma opinião, positiva ou (muito) negativa em qualquer um. A Marcos Engineering teve, desde sempre, uma relação particular com o design automóvel, sucessivamente avançando com propostas arrojadas que não encontram contudo acolhimento em todos os gostos. Prova desta observação é o facto de o GT Xylon, o primeiro automóvel da companhia, ter ganho a alcunha de “patinho feio”. No entanto, nem este modelo consegue bater o Mantis M70 como a criação mais polarizante da pequena companhia britânica.

Antes do Mantis, a Marcos já produzira o peculiar Luton Gullwing e o simplesmente bizarro Fastback GT, uma extraordinária amálgama de proporções aparentemente contraditórias. Pouco antes de lançar o igualmente estranho Mini, a companhia finalmente alcançara um design coerentemente apelativo com o belíssimo 1800GT; mas a pièce de résistance da Marcos chegaria em 1968 com o Mantis XP, um dos mais atraentes, extraordinários e radicais automóveis de competição alguma vez criados.

É importante ter em conta que, quase ao longo de toda a primeira década de existência da Marcos, o foco da companhia permaneceu precisamente na competição, pelo que existe método na aparente loucura. As criações da Marcos não se regiam, inicialmente, por qualquer preocupação estética, mas sim pela pura funcionalidade e pelo que constituía vantagem em pista; uma dessas vantagens foi, sem dúvida, a eficácia aerodinâmica das formas destes curiosos automóveis. O anteriormente referido 1800GT é esteticamente mais coeso e mais tradicionalmente belo que a maioria dos seus “irmãos” de competição por ser um grand tourer e poder privilegiar a forma sobre a função.


Contudo, toda a discussão em redor do mérito (ou ausência do mesmo) das linhas de Marcos anteriores aparenta ter cessado com o lançamento em 1970 do Mantis M70, o qual se tornou imediatamente infame na opinião geral da comunidade de entusiastas e especialistas em automóveis, sendo apregoado como uma das piores criações sobre quatro rodas a ver a luz do dia, uma queda descontrolada ao mais profundo e escuro recanto da fealdade. E esta reputação perdura, com Aaron Gold da Motortrend, em 2022,a apelidar o Mantis de “cena de crime visual” e de “nível de hediondez raramente visto”.


Embora este tipo de opinião não seja inesperado dado a particularidade estética do automóvel, o Mantis M70 merecerá, talvez, um julgamento menos severo que o que tem recebido ao longo dos últimos 53 anos. É um facto que o design não é coerente, mas é certamente marcante e dificilmente poderá ser considerado ofensivo ao ponto que artigos como o da Motortrend afirmam. Criações modernas como o Infiniti QX56 serão mais abrasivas à vista, até pela sua crónica falta de qualquer tipo de identidade, uma maior ofensa no mundo dos automóveis que a simples feiura, a qual se define sempre como subjectiva. Mas atendendo ao facto que, nos últimos anos, até o Aztek tem tido direito a artigos em defesa das escolhas “únicas” que a Pontiac fez, talvez pontos positivos do aspeto do Mantis venham também a ser reconhecidos no futuro. O automóvel é, acima de tudo, um exercício estilístico bastante interessante, com um design dissemelhante a qualquer outro, o qual alia uma dianteira baixa, altamente futurista, definida pelas ópticas encapsuladas em plástico e pela grande grelha vertical do capot, a uma traseira elegante de linhas muito tradicionais, reminiscente dos melhores GTs britânicos e italianos do período. O enquadramento das janelas e vidros laterais é igualmente ponto de destaque, com contornos complexos e exclusivos ao Mantis.


O novo grand tourer da Marcos, de carroçaria de vidro sobre chassis tubular (assinalando o abandono dos chassis de madeira utilizados nos 1800GT) foi equipado com o motor seis cilindros em linha de 2.5 litros do Triumph TR6, sendo capaz de ir dos 0 aos 100 em nove segundos e contando com uma velocidade máxima ligeiramente acima dos 200 km/h. O Mantis M70 tinha sido testado com o V6 Essex da Ford em Fevereiro de 1970; mas, em Abril, a Marcos tomou a decisão de mudar para o motor e caixa do TR6. Os motivos para a alteração de última hora não são claros, mas esta abriu caminho, no futuro, às bem conhecidas questões de fiabilidade com a referida motorização.

A Marcos nunca foi um fabricante de grande volume, mas mesmo pelos padrões da companhia, a produção do Mantis foi limitada e, entre 1970 e 1972, apenas 32 M70 foram concluídos. A qualidade de construção era alta, o espaço interior e conforto bastante positivos, assim como o comportamento em estrada. Contudo, os potenciais compradores recusaram o aspecto único do automóvel e o preço também não o ajudou a definir-se como mais apelativo. Com um custo de 3.185 libras, quando comparado por exemplo às 2150 exigidas por um igualmente confortável, espaçoso e vivaz Rover SD1 3500 V8, o M70 simplesmente não fazia sentido.


O modelo acabou por só aprofundar os problemas financeiros que a Marcos já acumulara, ao ponto aliás de lançar a companhia para o campo da liquidação. Os moldes para o M70 acabariam por ser adquiridos por um empresa chamada Autotune, a qual produziu ainda mais alguns exemplares do automóvel sob a designação “Autotune Mirage”, mas esta segunda série de Mantis acabou por ser muitíssimo mais breve que a primeira.

Inegável detentor do mérito de ser um dos mais singulares automóveis do século XX, a raridade do Mantis M70 não se traduz, no entanto, em valores particularmente elevados de venda, com o último registo na Car & Classic a colocar um preço de cerca de 29.000 euros para um exemplar totalmente restaurado.

Créditos das imagens: Wikimedia Commons; Autocar; Smartage; GTPlanet

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