Simplicidade de uma era passada

Clássicos 27 Dez 2022

Simplicidade de uma era passada

Por José Brito

Ao entrarmos no ramo dos achados da “Engenharia Automóvel” das décadas de 60 e 70, sabemos de antemão que teremos “pano para mangas” ou, pelo menos, motivos para galhofa.

 

Em conversa de café com um conhecido apreciador do tão nosso conhecido “carocha”, dei por mim a contemplar um destes tais achados de engenharia (ou artimanha, vá).

 

Ele, um auto-intitulado “doente de tudo o que é Volkswagen naturalmente arrefecido”, falava de tal artifício como se de um sistema VTEC ou de um qualquer primeiro revolucionário turbo se tratasse. Directo ao ponto: não passa de um sistema de limpa para-brisas. Este artigo poderia ficar por aqui, mas por receio de que não encontrem também um motivo para sorrir, prosseguirei.

 

Ora, o cerne da questão é o quão simplório acaba por ser este sistema de limpa para-brisas. Começando pela rama, e como certamente um qualquer estudioso da língua seria capaz de nos explicar, o propósito de um limpa para-brisas é o de… bem, limpar o para-brisas. Sem dúvida complexo e simultaneamente subtil, mas certamente consideremos acompanhar. Tipicamente este processo ocorre através da injecção por bomba de água através de um qualquer orifício para a superfície do para-brisas, que seguidamente é varrido pelas escovas. Em grande parte dos veículos automóveis estas bombas são alimentadas por sistemas de 12 volts que pressurizam o depósito de fluído para que, à abertura da válvula, o fluído saia.

 

Quando a Volkswagen decidiu colocar um sistema de limpa para-brisas no Beetle, já no longínquo ano de 1961, de um ponto estavam certos: não iam de certeza absoluta colocar um engenho espampanante como uma bomba de 12 volts para simplesmente irrigar o para-brisas com fluído. Bem, se nem para colocar duas lâmpadas distintas nos indicadores de pisca do tablier, imagine-se para isto.

 

Assim, a primeira versão usava uma pequena bomba de mão que obrigava o utilizador a pressurizar o depósito de fluido manualmente. Apesar de funcionar, existe algo indigno acerca de ter que bombear água com uma acção dos nossos próprios músculos, o que fez com que a Volkswagen pensasse numa forma de pressurizar automaticamente o reservatório para que, com o simples premir de um botão, se pudesse obter igual resultado, e tudo isto sem recurso a qualquer tipo de bomba…

 

Como? De uma forma bastante inteligente. Os sistemas de limpa para-brisas dos antigos Volkswagen funcionam utilizando a pressão do pneu sobressalente, o que, pessoalmente, representa uma aplicação à qual se pode aplicar verdadeiramente a palavra “engenharia”.

 

 

O funcionamento em si era bastante simplista. O reservatório do líquido está montado atrás (e em versões posteriores, ao meio) do pneu sobressalente, tendo duas tubagens conectadas a este. Uma destas é longa e estabelece ligação directa a um pequeno bocal em nariz de sapo ao meio do para-brisas. Já a restante possibilita ligação, através de uma válvula especial, à válvula do pneu.

 

Assim, bastava encher o pneu sobressalente até 43 PSI, e a válvula especial no depósito impedia o pneu de ficar abaixo de 26 PSI, a quantidade necessária para usar o pneu para o seu propósito fundamental.

 

 

Claro que de “x em x” tempo a pressurização vigorosa passava a uma mais débil, o que significava que, na próxima paragem para abastecer, a pressão do pneu deveria ser revista.

 

Após alguma investigação chega-se à conclusão de que esta utilidade não é exclusiva do Beetle, sendo também implementada em Ghias, Things, e Type 3’s e 4’s e apenas as Type 2 se “salvaram”, mantendo o recurso manual.

 

Ao fim de uns bons minutos a admirar tal sistema e de o ver em acção, devo admitir que se tornou num dos meus pormenores clássicos favoritos. Lógico  num automóvel de entrada de gama como o Beetle, mas até absurdo num veículo de classe alta como o Type 4.

 

Resta a sensação de que a Volkswagen da altura estava tão embrenhada na ideia de não desperdiçar nada, nem mesmo o ar do pneu sobressalente, que não poderiam, em boa consciência, instalar uma “decadente” bomba. O seu engenhoso sistema resolvia o problema, e isso, em si, é de alguma forma, belo.

 

Será relevante mencionar que tal não funcionava com um grau de eficácia tremenda. Se formos honestos, e porque o botão no tablier não era um switch eléctrico mas antes uma válvula que abria ou fechava o fluxo de fluido pressurizado, era possível desenvolver uma fuga na porção traseiro do mesmo, fazendo escorrer liquido pelo tablier. Enfim, nada que não tivesse já acontecido no Beetle em que me baseio para escrever este artigo, e, ainda assim, nada que “lhe remova a beleza da mais simples engenharia”.

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