70mm: Le Mans (1971)

LifeStyle 13 Nov 2022

70mm: Le Mans (1971)

Por António Almeida

Música calma, um 911 S cinzento a percorrer a estrada deserta que atravessa uma pequena vila. Chega o momento em que já é possível identificar que a estrada faz parte do circuito de La Sarthe, o Porsche para e é revelada a identidade do condutor, que olha firmemente para uma secção de rails de protecção recentemente colocados.

 

Um flashback mostra o acidente que levou à substituição das protecções, envolve o Porsche número 64 de Michael Delaney (Steve McQueen) e o Ferrari número 18 de Piero Belguetti tendo este perecido no mesmo. A narrativa continua com toda a preparação para o evento. A azáfama das equipas a movimentarem os seus veículos e material, os espectadores que vão enchendo as bancadas para verem as suas equipas favoritas.

 

 

Delaney continua a conduzir pela Gulf-Porsche ao volante de um 917K sendo o seu principal rival Erich Stahler (Siegfried Rauch) que representa a Scuderia Ferrari e o seu 512s.

 

Praticamente não existe qualquer tipo de diálogo entre as personagens nos primeiros 30 minutos da película, completamente ao contrário da maioria dos filmes do género. A história não tem a prova como pano de fundo, mas a prova é a história principal e as personagens e as suas interacções acabam por existir como uma narrativa paralela. Um corta-sabores para dar contexto à competição, o que torna esta película ainda mais gratificante para os amantes do desporto automóvel.

 

A partida é um momento magnífico, todo o ruído do circuito é silenciado, fixando o enquadramento no relógio, bandeira de partida e ignição. Apenas se ouve o ritmo cardíaco a acelerar como acontece num momento de concentração do piloto até ao instante da partida.

 

O relógio marca quatro horas em ponto, a bandeira é acenada e o barulho ensurdecedor dos motores ecoa em Le Mans durante as próximas 24 horas.

 

Excluindo breves trocas de palavras entre Michael e a viúva de Belguetti, Stahler e alguns companheiros de equipa com a sua família, a película resume-se a uma mistura de takes da corrida real de 1970 e a encenação feita a velocidades de corrida com pilotos da época e os actores que também conduziram os próprios automóveis em varias ocasiões.

 

 

É difícil arranjar palavras para descrever o quanto esta película apela a um verdadeiro aficionado.

 

A meu ver, não é graças aos automóveis icónicos que nela aparecem nem pelo facto de retratar a corrida mais antiga e mais famosa do mundo que faz brilhar os olhos de qualquer amante do desporto. Acima de tudo não é pelo drama intrigante ou interpretação brilhante por parte do elenco. Tudo se reduz à visão de um homem, à sua paixão pela velocidade, pela competição e por todas as coisas mecânicas. Para ele, a competição era uma escapatória, uma forma de se desligar no mundo e ser livre. Todos os traumas de infância eram postos de parte, apesar do perigo e fatalidade omnipresentes, existia uma paz inalcançável de qualquer outra forma. O desejo de McQueen era partilhar essa alegria com o resto do mundo, criando um filme definitivo, intemporal!

 

Colocar o espectador atrás do volante de um destes monstros, transmitir as emoções, o ruído, a beleza e os perigos da competição como nenhum outro filme o havia feito. Um projecto ao qual se dedicou o máximo possível e no qual perdeu quase tudo. A sua admiração por este mundo não conhecia limites – os pilotos eram heróis, o alcatrão era solo sagrado e tudo isto é notório no filme.

 

 

Originalmente, a ideia era McQueen competir na corrida real, a qual foi imediatamente rejeitada pelo estúdio devido ao risco que representava à conclusão do projecto. Contra a sua vontade, o actor abdicou da sua oportunidade única de competir em Le Mans, simplesmente para obter o apoio financeiro do estúdio na produção do filme.

 

Eventualmente filmaram a prova real, convertendo o Porsche 908 que Steve levou ao segundo lugar das 12h de Sebring, num automóvel-câmara que participou na corrida pilotado por John Williams.

 

A produção permaneceu no circuito de La Sarthe durante meses após a corrida, recriando a prova com alguns dos pilotos incluindo Derek Bell, David Piper, John Williams entre outros. Estes homens arriscaram a vida todos os dias, a filmar a velocidades equiparáveis às de corrida tentando seguir as instruções do realizador e a coreografia predefinida, uma tarefa complicada e por vezes mais perigosa que uma corrida a sério. Derek Bell sofreu queimaduras na face e David Piper perdeu a perna num acidente bastante grave que também destruiu completamente um 917. Estas filmagens e recriações fiéis da prova concedem à película uma qualidade genuína, que não se encontra em qualquer outra.

 

 

O perfeccionismo e atenção aos detalhes criou problemas com o estúdio. A produção estava atrasada e um milhão e meio acima do orçamento de seis milhões. O filme precisava de ser um sucesso. Tendo em conta tudo isso e o facto de ainda não existir um guião neste estágio de filmagens, o estúdio retirou o controlo da produção das mãos de McQueen atingindo mortalmente a empresa de produção que fundou. Durante estas dificuldades na produção desenrolaram-se ainda eventos que a fizeram descarrilar mais – o acidente de David Piper e o casamento de Steve e Neile desmoronou. Sentindo-se responsável fez um esforço para trabalhar com o novo realizador e finalizar a produção do projecto pessoal que tanto lhe tinha custado.

 

Depois de todos os sacrifícios, o perfeccionismo, a dedicação ao projecto e as situações desagradáveis, a má recepção da crítica e o insucesso na bilheteira foram uma desilusão que o afectou tão profundamente que deixou a competição por completo, dissolveu a empresa de produção e mudou completamente o seu ponto de vista.

 

 

Felizmente tem vindo a ser redescoberto por entusiastas, nas palavras de Derek Bell “Fiquei desapontado! Na altura, não havia a possibilidade de ser um sucesso, porque não tinha guião. Mas voltei a ver o filme há uns anos. E pensei. Meu Deus é brilhante! É um magnífico documentário sobre uma das mais gloriosas eras da competição, na melhor pista do mundo!”. É puro, captura a competição como ela é e não é uma invenção de Hollywood, apenas não captura o elemento dramático que os críticos procuram e valorizam. O culto que o segue ganhou uma vida própria e mantém o legado vivo. Finalmente a visão de McQueen, é apreciada pela sua autenticidade, exactamente como ele desejava.

 

Só alguém com uma paixão enorme pela competição e pelos automóveis conseguiria criar algo assim, intemporal, a película sagrada para um aficionado deste mundo magnífico.

 

Aproveito para deixar a recomendação do documentário Steve McQueen: The Man and Le Mans. Inclui entrevistas a pessoas directamente associadas à produção, Derek Bell, David Piper, Chad McQueen e Neile Adams, permite uma perspectiva do que realmente se estava a passar na produção, bem como da personalidade de McQueen.

 


TAGS: 24 Horas de Le Mans Steve McQueen


PARTILHAR:

Deixe um comentário

Please Login to comment