La Principessa de Abarth

Clássicos 28 Out 2022

La Principessa de Abarth

Por José Brito

Com reputação actual pela alteração de modelos com proveniência na Fiat e criação de veículos desportivos, a Abarth desfrutou de uma fama exacerbada durante as décadas de 60, 70 e 80 como um preparador e construtor de veículos de competição de alto gabarito.

A história do modelo em presente análise poderá ter como génese a relação da Abarth com a palavra recorde (que causa tudo menos estranheza), a vontade contínua de Carlo em expandir o alcance da sua marca e os estudos feitos pela Fiat-Abarth e a Bertone na segunda metade da década de 50, após os quais o construtor italiano se dirigiu à Pininfarina para o desenvolvimento de novos protótipos através do emprego de um túnel de vento presente no Politécnico de Turim. Inicialmente seria desenvolvido o 750cc Monoposto (recordista em categoria H com uma velocidade média em 72 horas de 165,34 quilómetros por hora) com o motor originário do Fiat 600, mas a verdadeira evolução e dominância viria com os modelos sucessores a este, o futurista e aerodinâmico sedan Pininfarina X e o estilizado 1000 Bialbero Record, ambos pensados para a aplicação de blocos de pequenas dimensões.

O Abarth 1000 Bialbero, apelidado de “La Principessa” e comummente designado de Monoposto Record, é um voluptuoso monolugar de carroçaria em alumínio com base num Fiat 600 com um só propósito: o de ser o veículo de quatro rodas da sua categoria mais rápido em terra. Com uma reduzida altura de 1,2 metros, uma largura de 1,55 metros e um comprimento de 4,56 metros, o coeficiente de resistência ao ar possuía um valor de apenas 0,2, por si só já tremendamente digno, particularmente se tivermos em consideração a ausência de estudos computacionais dinâmicos de fluídica para auxiliar no desenvolvimento da carroçaria.



A subtileza das linhas acaba por dominar plenamente o olhar, com a impossibilidade de vislumbrar uma qualquer aresta viva. A presença de apêndices aerodinâmicos por forma a tapar as rodas auxilia ainda mais na percepção de que estamos perante um recordista de velocidade. O acesso ao habitáculo é relativamente fácil graças à presença de uma cobertura amovível, mas não perfaz uma visão particularmente única. Ladeado por protecções soldadas à carroçaria, o piloto possui apenas 40% do diâmetro de um volante normal como forma de facilitar o movimento das pernas, plenamente necessário devido à reduzida altura do monolugar. Denote-se ainda o apontamento do padrão da caixa das velocidades, em que, contrariamente ao habitual, a primeira velocidade tem uma posição superior à direita.

Desenvolvido conjuntamente entre a Abarth e a Carrozzeria Pininfarina, a sua elaboração parecia estar destinada ao sucesso, como demonstraria o estabelecimento de nove recordes de velocidade durante o projecto. O indício de força do modelo na categoria de velocidade G haveria de surgir logo nas primeiras tentativas, com o recorde de velocidade média em 10 mil quilómetros (191,03 quilómetros por hora) e o de maior velocidade média em 72 horas (186,68 quilómetros por hora) a serem quebrados. Talvez este último acabe por ter um estabelecimento mais singular, dadas as suas circunstâncias.

“La Principessa” marcaria presença nas provas de velocidade de Monza entre 28 de Setembro e 1 de Outubro de 1960, com o objectivo de quebrar o recorde de velocidade média em 72 horas. A equipa Abarth era liderada por Renzo Avidano, sendo reunidos os melhores pilotos de fábrica à altura, Giancarlo Baghetti, Mario Poltronieri, Alfonso Thiele e Umberto Maglioli. Durante o evento, uma chuvada de grande intensidade acabaria por cair sob o circuito, sendo colocado ao volante o piloto mais experiente, Maglioli, para completar a duração da prova. Devido à acumulação de água à entrada para a curva norte do circuito, o Abarth acabaria por entrar em aquaplanagem já muito próximo da marca das 72 horas, o que resultaria no embate contra a protecção superior do banking da curva. Apesar dos danos evidenciados, Magliolo escapou ileso ao acidente, sendo ainda capaz de empurrar o Monoposto até à linha de meta. Estabelecia-se assim o recorde de velocidade média em 72 horas com a supramencionada velocidade de 186,87 quilómetros por hora e uma distância percorrida de 13.441,5 quilómetros.

Seguir-se-iam os recordes de velocidade média em 12 horas (203,66 quilómetros por hora), em 2000 milhas (198,8 quilómetros por hora), em 5000 quilómetros (199,24 quilómetros por hora), em 5000 milhas (192,88 quilómetros por horas) e o de maior velocidade média em 48 horas (190,26 quilómetros por horas), também estabelecidos em Monza.

Estes valores e respectivos recordes tomam uma dimensão substancial se considerarmos que estávamos no início da década de 60 e que o Monoposto surgia equipado com o novo motor Bialbero Type 229 de quatro cilindros de um litro de capacidade debitando 105 cavalos de potência às 8000 rotações por minuto através de uma caixa de quatro velocidades, com uma velocidade máxima declarada de 220 quilómetros por hora.

Após o estabelecimento dos recordes e a publicitação dos mesmos, o 1000 Bialbero e o Pininfarina X seriam apresentados no 42º Salão Automóvel de Turim, em 1960, sob grande pompa e circunstância.

A Pininfarina acabaria por vender La Principessa a um coleccionador italiano em 1970, permanecendo durante inúmeras décadas oculto dos olhos do público, apenas ressurgindo em 2015 quando o proprietário permitiu ao fotógrafo Piotr Degler a realização de uma sessão fotográfica. De uma forma inacreditável, o 1000 Bialbero nunca sofreu qualquer trabalho de restauro profundo, permanecendo preservado num estado fenomenal quer ao nível de mecânica, quer ao nível de carroçaria. Em 2016 acabaria por surgir no leilão do evento de Pebble Beach, mas não chegou a ser vendido, com opiniões a divergirem entre uma mudança de coração por parte do proprietário em relação à venda e o não atingir do valor de reserva. Caso a veracidade se volta para a primeira opção, a última sentença que se poderá atribuir ao proprietário será culpa.

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1000 Monoposto interior (1)
1000 Monoposto 3
1000 Monoposto motor
Abarth 750 Monoposto
Monoposto 4
Pininfarina X
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TAGS: Abarth Abarth 1000 Bialbero Carlo Alberto Abarth


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