Alfa Romeo 8C 2900b Berlinetta, uma história italiana

Clássicos 17 Jul 2022

Alfa Romeo 8C 2900b Berlinetta, uma história italiana

Por Toy de Carvalho

Para muitos, os Alfas modernos não passam de pacotes de ferrugem com rodas, um processo que começa nas linhas de montagem. Se ignorarmos a opinião que muitos têm da empresa, temos que admitir que em mecânica sempre esteve à frente da competição. Dois exemplos disto são os motores de quatro cilindros em alumínio que foram fabricados durante 35 anos e o Busso V6.

Por outro lado, na década de 30, a Alfa Romeo era a marca preferida por reis, sultões e marajás. Mesmo durante a Segunda Guerra a marca fabricou, na sua maioria, para oficiais do exército Alemão e em 1942 fabricou um para o Rei Michael da Romania.

Por volta de 1935, os gerentes da companhia concluíram que os Tipo B P3 e os 8C35 de Grand Prix, estavam desactualizados para fazer frente aos automóveis alemães.


Como a empresa precisava de um automóvel desportivo, tipo Grande Turismo, a Alfa Romeo decidiu alargar os chassis dos monolugares 8C 35 e instalar-lhes carroçarias com dois lugares. Nasceu então a série 412, ideal para participar nas tão importantes e prestigiosas corridas como as 24 horas de SPA Francorchamps e Mille Miglia. Esses automóveis foram construídos em duas séries,  8C 2900 A e B. A série A destinava-se a provas de competição pela fábrica e a “B” para venda a compradores abastados. A nova série era constituída por veículos de Grand Prix disfarçados de automóveis desportivos que continham toda a mecânica dos automóveis de GP. Suspensão independente às quarto rodas, amortecedores hidráulicos, que podiam ser ajustados a partir do tablier.

Mais tarde aparecem os Alfettas, com compressor duplo, cárter seco, enormes travões de tambor com aberturas para arrefecimento, entre outros atributos distintos. Para assegurar a fiabilidade a potência dos motores foi reduzida de 220cv, para 180cv a 5200 rotações por minuto.

Desta série B, vamos visitar a história do 8C 2900 Berlineta, chassis número 412035 Touring Lungo, com três metros entre eixos e 1250 quilos de peso, portador do motor número 422030. De acordo com o certificado de fábrica, o automóvel foi construído em 18 de Julho de 1938 e vendido no mês seguinte ao engenheiro Donegani da Montecatini.

Há que notar que os veículos eram vendidos sem chassis, com o  motor instalado e depois vestidos pelas carroçarias, como a Touring neste caso, que o equipou com a carroçaria em alumínio, feita à mão, número 2032.

Em seguida, trocou de mão em rápida sucessão. Alega-se que foi propriedade de Wehrli, depois Berchtold e Richard Eberhard em 1946, antes de ser vendido para Adolf Scherz, o parceiro do conhecido entusiasta e coleccionador Suíço de Alfas, Jean Studer. Studer alegadamente  possuía metade dos 40 e poucos 8C2900 construídos.

Em Setembro de 1947 foi vendido ao conhecido entusiasta e representante de Alfa Romeo e carburadores Weber da Pensilvânia, Frank Griswold. A 2 de Outubro de 1948, este gentleman driver venceu o primeiro USGP realizado em Watkins Glen, Nova York, que se pode confirmar por uma placa no painel do automóvel. Após a vitória em Watkins Glen, o veículo viu, uma vez mais, vários proprietários num curto espaço de tempo. Griswold pintou-o de vermelho e vendeu-o ao seu advogado, David Felix, que por sua vez o passou a David Parks.

Parks colocou o automóvel à venda, na edição de Março de 1956 da Road & Track sendo vendido a Harold Berger por 1300 dólares. De seguida, o veículo volta a passar por vários proprietários acabando por ser adquirido por F. R. Scheiter de Bolton, Massachusetts, em Maio de 1962.

É possível que estas vendas em rápida sucessão tenham acontecido devido à dificuldade de legalizar o veículo, para uso rodoviário, nos EUA. A localização e a junção do para-brisas à carroçaria não estavam de acordo dos padrões americanos.

O automóvel encontrava-se em mau estado, tendo engolido uma válvula, que por sua vez danificou um pistão no cilindro número sete. Como o veículo não tinha cabeça separada ao estar fundida à parte do bloco do motor, a tarefa da colocação da válvula parecia insuperável. Depois de vários especialistas terem sido consultados, eventualmente um antigo armeiro foi encontrado, que fez um fresa especial, montada num eixo inserido no buraco da haste da válvula.  Cortou a cabeça, fez um assento e pressionou-o no lugar. Este veículo foi então vendido pela Vintage Cars ao Dr. Donald Vesley que o manteve durante dez anos fazendo pouco uso dele, antes de o vender em 1980 para David Cohen, um negociante de diamantes em Joanesburgo.

O automóvel foi visto pela primeira vez em público na África do Sul, no Concourse de 1980 da Alfa Romeo Club of SA. – ARCSA. O restauro encontrava-se fora das capacidades das oficinas locais, sendo então enviado para o famoso Tony Merrick no Reino Unido para ser restaurado. O chassis foi enviado para o Robert Wilson que prontamente começou a restaurá-lo de forma a devolvê-lo à sua antiga glória. Descobriram que a sua cor original tinha sido azul cobalto, uma cor que foi prontamente restaurada.

De volta à África do Sul em 1984, o 2.9 foi exibido em Setembro daquele ano no ARCSA Concourse, realizado no parque de estacionamento de Sandton City. O Sr. Cohen viajou extensivamente com o 2.9 por todo o país e competiu em dois ralis locais para automóveis de 1930 a 1945.


Em 1990, David emigrou para Vancouver levando consigo a sua colecção de automóveis clássicos, incluindo o 2.9. Como o tinha feito na África do Sul, ele conduzia o automóvel extensivamente pelo continente norte-americano e exibiu-o em Pebble Beach em 1993, onde foi galardoado.

Em 1998, Cohen levou o automóvel para Watkins Glen, para participar no 50º aniversário e em 2005 para o Amelia Island Concourse, na Flórida. Dois meses depois, David vendeu o carro a Jon Shirley, residente em Seattle e então presidente e COO da Microsoft, por cerca de cinco milhões de dólares.



Em 2006 Shirley participou com este automóvel na Mille Miglia Storica, na qual ele já havia competido três vezes com um Ferrari, desta vez em parceria com Butch Dennison, o seu mecânico e um veterano da Indy, que ficou impressionado com o quão civilizado o Alfa era, após o conduzir a 180km/h na autoestrada.

Em 2007, o 8C iniciou seu caminho para Pebble Beach, quando foi levado para a oficina de Dennison, perto de Tacoma, Wa., para um restauro completo.

Muitas peças estavam em falta como a bomba de combustível original e os faróis. Eventualmente, as peças adequadas foram emprestada para que fosse possível fazer moldes para fabricar as peças em falta. Um escape original foi encontrado na Argentina, o qual foi usado para fabricar uma réplica que se encontra actualmente instalada neste exemplar. Por ser um veículo tão raro e significativo, considera-se que o esforço tenha valido a pena.

Eventualmente, o automóvel foi trazido aos padrões de Pebble Beach, onde ganhou  o “Best of Show” em 2008. No ano seguinte, 2009, repetiu o feito no Concorso d’Eleganza, Villa d’Este “Best of Show”. E, claro, é preciso lembrar que venceu a primeira corrida realizada em Watkins Glen, em 1948.



Como se pode ver, este exemplar teve uma história de vida muito agitada, mudando de mãos várias vezes e sendo finalmente encontrando por alguém que o estima-se e aprecia-se. Tive o privilégio de o ter visto e apreciado, mesmo que na época eu, e muitos presentes, não tivéssemos ideia do que representava e do seu significado.


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