James Hunt: Sexo, drogas e adrenalina

Clássicos 15 Jun 2022

James Hunt: Sexo, drogas e adrenalina

Por Pedro Torres

Há precisamente 29 anos, então com 45, o irreverente piloto e campeão do mundo de Fórmula 1 James Hunt sucumbia a um ataque cardíaco, algo ironicamente, após uma vida dedicada a levar monstros de quatro rodas ao limite, numa época em que a segurança era a menor das preocupações dos construtores.
 
Depois de competir em categorias inferiores como a Fórmula Ford e a Fórmula 3, iniciou a sua carreira na categoria rainha do desporto motorizado em 1973, ao volante de um March 731 com as cores (ou falta delas) da Hesketh Racing que se veio a revelar mais competitivo do que os rivais esperavam, tendo alcançado, logo nesse ano, o segundo lugar em Watkins Glen, no GP dos Estados Unidos. No ano seguinte e já com carro próprio da Hesketh, o 308, com as famosas listas azul e vermelha e com o “teddy-bear” a ilustrar a frente, não foi além de um quinto lugar na África do Sul, tendo, no entanto, alcançado a vitória numa corrida em Silverstone, mas que não contava para o campeonato. Em 1975, o Hesketh 308 foi melhorado, nascendo então o 308B, o qual Hunt, após um início de temporada marcado por vários problemas mecânicos, levou pela primeira vez à vitória em Zandvoort, no GP holandês.
 

 
Ainda que os resultados não fossem os melhores, o enorme talento era inegável e, no final de 1975, a conjugação dos problemas financeiros da Hesketh e da saída de Emerson Fittipaldi da McLaren levaram Hunt a ocupar o lugar do brasileiro no alinhamento da equipa para o ano seguinte. Seria então nesse 1976 algo atribulado que viria a conquistar o campeonato do mundo de F1. Com o McLaren M23 a não se revelar tão fiável como o Ferrari 312T2 de Niki Lauda, e apesar de ver a sua vitória no GP do Reino Unido, em Brands Hatch, ser-lhe retirada por ordem da FIA, venceu seis corridas, beneficiando do trágico acidente de Lauda a 1 de Agosto, em Nürburgring, tendo este estado afastado por apenas dois Grandes Prémios, mas que foi suficiente para Hunt reduzir a diferença de pontos que os separavam. Contudo, o campeonato só ficaria decidido na derradeira prova, no sopé do Monte Fuji e sob um autêntico dilúvio, condições que levaram Lauda a retirar-se, o que permitiu que Hunt se sagrasse campeão com mais um ponto do que o austríaco.
 
A referência a Niki Lauda quando se fala de James Hunt é quase inevitável. Os dois protagonizaram uma das maiores rivalidades da modalidade e do desporto em geral, podendo-se afirmar que o sucesso de um se deveu em parte ao sucesso do outro. Tal não impediu, no entanto, uma amizade que se sobrepôs às suas diferenças – o calculismo de Lauda e a agressividade de Hunt.
 

 
Em 1979, enquanto piloto da Wolf Racing e um ano após a morte do piloto e seu amigo próximo Ronnie Peterson em Monza, James Hunt acabaria por abandonar de vez a Fórmula 1.
 
A carreira como piloto foi sem dúvida marcante, mas a dimensão de James Hunt vai muito para além disso, tendo o seu talento, o comportamento politicamente incorrecto e mesmo a sua aparência transcendido o desporto que praticava. O piloto comum é um desportista em todos os aspectos – alimentação regrada, abstracção e estado de concentração inabalável horas ou até dias antes de uma prova. A vida e os rituais de Hunt eram a antítese de tudo isso, o que evidencia o talento puro e duro do britânico. Mulheres (milhares, segundo ele), tabaco, álcool e drogas. Mas o seu maior vício era outro: a adrenalina.
 

 
A vertente charmosa da vida de piloto de F1 não era suficiente se não tivesse a oportunidade de, com a regularidade que se conhece, arriscar a vida a velocidades estonteantes, a milímetros do chão, com o rugido do V8 nas suas costas. No seu obituário, num jornal britânico, o autor refere que teve o prazer de acompanhar Hunt, entretanto já afastado das pistas, num cruzeiro por destinos exóticos. Certa manhã, ao entrar no camarote de Hunt, encontrou-o, para não variar, bem acompanhado. Dali a momentos, e após um melancólico suspiro, desabafou: “Isto é tudo o que existe, agora…”. Para James Hunt, isso estava longe de ser suficiente.
 

 
Após deixar as corridas e até 1993, Hunt seguiu a carreira de comentador de Fórmula 1 na BBC, marcando por nunca fugir à sua maneira de ser, contrariando por vezes as directrizes da estação. O sentido de humor algo cáustico, o copo na mão de cada vez que entrava na cabine, os conflitos com o parceiro de comentários Murray Walker. James Hunt continuava a sê-lo com toda a essência que sempre o caracterizou.
 
Essência essa que se foi dissipando às mãos de uma força maior chamada Helen Dyson, que o descreveu como uma pessoa calma, um excelente pai e o seu melhor amigo, e que não se importaria de ser relembrado pelo seu lado mais selvagem. Hunt deixou de fumar e de beber e recuperou a forma física. Horas antes de morrer, pediria Dyson em casamento.


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