Tony Brooks, o “dentista” que triunfou na Fórmula 1

Clássicos 05 Mai 2022

Tony Brooks, o “dentista” que triunfou na Fórmula 1

Tony Brooks o último sobrevivente e vencedor de um Grande Prémio de Fórmula 1 dos anos 50 faleceu aos 90 anos.

Charles Anthony Standish Brooks nasceu a 25 Fevereiro de 1932 e era conhecido como “The Racing Dentist”, traduzido para o dentista das corridas devido a ter adiado os seus estudos em odontologia, na Universidade de Manchester, para iniciar a sua carreira como piloto. Brooks acabou por concluir os seus estudos e qualificou-se como dentista em 1956.

Com a suas boa e gentis maneiras e sem a óbvia qualidade de estrela que outro pilotos britânicos detinham como é o caso de Stirling Moss, Peter Collins e Mike Hawthorn, Brooks era um piloto extremamente competente e rápido que conseguiu vencer seis Grandes Prémios dentro dos 38 em que participou, o que inclui a vitória que partilhou com Moss no Grande Prêmio da Grã-Bretanha de 1957.


A história deste piloto começou como um conto de fadas, mas que mais tarde o viu, contratualmente, obrigado a ser o segundo piloto para o lendário Stirling Moss.

O último vencedor de Grandes Prémios da década de 50, era um cavalheiro inaptamente quieto e fundamentalmente discreto que preferia focar-se em conduzir carros de Fórmula 1, a velocidades surpreendentes com uma economia e precisão artística que ficava na memória dos espectadores do que se importar com a fama que lhe poderia trazer.


O conto de fadas começou em 1955, enquanto ainda era estudante de odontologia, e participou no Grande Prémio de Siracusa de onde saiu como uma estrela depois de derrotar, com o seu pequeno Connaught, equipas italianas já estabelecidas. Tornou-se o primeiro piloto britânico desde Sir Henry Segrave, mais de 30 anos antes, a vencer um Grande Prêmio com um veículo britânico.

Surpreendentemente, Brooks apenas tinha pilotado um Connaught Fórmula 2 em alguns eventos nacionais e a maioria do seu tempo era passado na Sicília com o nariz enterrado em livros de odontologia.

“Eu estava totalmente concentrado nos meus estudos quando recebi a chamada de Connaught, e assim continuei,”, revelou o piloto. “Provavelmente foi uma bênção, porque não tive tempo para pensar no que estava a fazer nem no que iria fazer. Ia pilotar um veículo que nunca tinha usado, num circuito que nunca tinha visto, um verdadeiro circuito de estrada! Felizmente estava mais preocupado com meus estudos”.

Em vez de encher a cabeça com sonhos, Brooks focava-se mais na realidade sem a distração que a imaginação pode causar. E mesmo depois de o mundo automóvel o ter aclamado como a nova estrela britânica o piloto regressou aos seus estudos, porque uma vez que um compromisso é feito deve ser levado até ao fim.

Ele não se enquadrava nos moldes dos pilotos dos anos 50, a década de jovens cavalheiros como Mike Hawthorn, Peter Collins, Eugenio Castellotti, Luigi Musso e Harry Schell, extravagantes e coloridos mas condenados e que dançavam com a linha de segurança como se soubessem, inconscientemente, que as suas vidas estavam destinadas a serem curtas.

Não era conhecido por tomar riscos desnecessários, muito menos para renunciar controlo. Brooks era mais um protótipo para a geração de hoje especialmente porque tinha uma compreensão e sensibilidade, fora do comum, para os detalhes técnicos dos modelos que conduzia.

Em 1957, depois de um ano estéril com os automóveis da BRMs que eram muito frágeis, juntou-se a Stirling Moss na equipe Vanwall de Tony Vandervell. Conseguiu terminar na segunda posição no Mônaco, e foi depois deste momento que Stirling assumiu o veículo do seu colega, no Grande Prémio da Grã-Bretanha em Aintree, e onde eles se tornaram os primeiros britânicos, numa máquina inglesa a partilharem o mesmo veículo e a ganharem o campeonato.


No ano seguinte, apesar de muitas vezes ter de entregar componentes do seu carro como chassis, motor ou caixa de câmbio a Stirling que, como número um tinha a primeira escolha no equipamento, conseguiu igualar as suas três vitórias com as do maestro para a equipa do Vandervell. Estes pilotos conseguiram superar todos os outros nos circuitos de Spa-Francorchamps, Nurburgring e Monza, as três pistas mais rápidas e exigentes do calendário. Por ironia, nenhum deles ganhou o título naquele ano, pois a confiabilidade favoreceu Hawthorn, mas enquanto o nome de Moss ficou sempre na boca dos amantes do desporto motorizado, Brooks ficou feliz em permanecer um herói relutante para quem a publicidade não significava nada.

“Acho que nós nos sentíamos-mos diferentes dos outros. Eu sentia, porque competir no deporto motorizado era demasiado sério para se poder brincar. Eu sentia que tinha de estar completamente em forma e focado no que estava a fazer. Mas eu não tinha o problema de Stirling. Ele era a antítese de Mike, pois ia dormir cedo na noite anterior à corrida e não ia jantar com os amigos ao “pub”, mas muitas vezes foi criticado, apesar de ser muito profissional, por maximizar a sua publicidade. Mas porque não? Acho que ao volante eu era igualmente profissional. Estávamos a colocar a nossa vida em risco de qualquer maneira, e não ser profissional ao volante era lançar os dados contra nós próprios”, comentou o piloto.

“Mas eu gosto de pensar que conseguia me divertir com os rapazes depois ou entre as corridas como os melhores, embora fosse diferente do Mike! Longe das corridas, eu estava a terminar os meus estudos e tinha a ideia de acabar o meu curso então, realmente, eu era um dentista não um piloto profissional. Acho que, provavelmente, senti isso durante toda a minha carreira”.


A percepção deste piloto sobre si era esclarecedora. “Penso, simplesmente, que tive muita sorte. Fui abençoado com uma habilidade natural e descobri que dirigir até o limite era algo que me trazia muita satisfação. Obviamente o circuito de Siracusa era uma história de conto de fadas e que me deu uma satisfação enorme. Mas as paredes, na minha perspectiva, nunca fizeram diferença. Paredes, barris em Silverstone, eram a mesma coisa na minha cabeça. Para a maioria das pessoas, era um circuito assustador. As estradas sicilianas não tinham boas condições na altura. Mas isso não me preocupava”.

Este piloto tinha um estilo de condução muito econômico não apenas em termos de consumos mas também de filosofia. “Eu apenas fiz o que me era natural”, disse o piloto com sua timidez que lhe era associada. Ele não entendia a razão de até mesmo alguns dos grandes pilotos declaravam odiar SPA ou o antigo circuito de Nurburgring, sugerindo educadamente que talvez forçassem demasiado os seus próprios limites. Ele usava todo o caminho que tinha disponível, mas não mais do que isso, e nunca se pressionava para reunir coragem ou para forçar mais do que sabia que aguentava. Tinha simplesmente o dom de deixar a sua condução fluir.


Ele integrou a equipa da Ferrari como número um em 1959 e desfrutou dessa temporada melhor do que em qualquer outro ano, dos pouco que teve na Fórmula 1. Conseguiu vencer em Reims e Avus, dois dos locais mais exigentes e ainda teve a oportunidade de vencer o Campeonato nesse ano, no último Grande Prémio dos EUA, em Sebring. Conseguiu classificar-se para sair em primeiro na grelha mas os cronometristas não perceberam que o franco-americano, Harry Schell, tinha cortado parte do percurso para conseguir o tempo mais rápido. Demovido para a segunda fila, o automóvel de Brooks foi abalroado no início por um modelo semelhante de Wolfgang von Trips.

Era um motorista intelectual com a habilidade de ver todas as variantes possíveis. Tinha apenas 29 anos quando decidiu reformar-se. Brooks tinha acabado de terminar em terceiro lugar a representar a BRM no Grande Prémio dos EUA de 1961 em Watkins Glen e estava a formar a sua empresa embora o principal motivo fosse a sua familia em crescimento, a altura parecia certa.


TAGS: Fórmula 1 Stirling Moss Tony Brooks Vanwall


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