Muito mais do que simples máquinas

Clássicos 02 Mai 2022

Muito mais do que simples máquinas

Por Irineu Guarnier

A relação entre pessoas e máquinas – automóveis, aviões, motocicletas e barcos – pode ser quase tão intensa, e às vezes até mais prazerosa, do que a que experimentamos com outras pessoas, como com plantas ou animais domésticos. Pode parecer uma heresia dizer isso, mas pergunte a um aviador, a um piloto de automobilismo, a um navegador solitário ou a um caminhoneiro como é a relação deles com suas máquinas e certamente eles falarão delas como quem fala de uma grande amizade, com carinho e admiração.

Uma máquina de estimação, que nos leva para passear, para conhecer lugares distantes, que interage conosco ou que nos mostra o mundo de um ponto de vista diferente daquele a que estamos confinados torna-se, com o tempo, quase um ser vivo para nós. Gostamos das suas formas e confiamos nas suas atitudes. Sabemos quando ela está bem ou não. Conhecemos os seus humores, manias e achaques. Compreendemos o que ela nos diz – sim, porque, na sua “língua”, as máquinas “falam” connosco.

Por meio do ronco de um rolamento de roda desgastado um automóvel adverte que poderá sofrer um acidente. Um avião que estremece de repente avisa que vai cair se não houver uma correção imediata. A vibração no rotor de cauda de um helicóptero pode antecipar uma perda de controle no ar. Uma luz acesa em qualquer painel é um alerta capaz de evitar uma quebra ou algo pior. Sem falar de dispositivos mais modernos de segurança, que nos chamam a atenção para um descuido e até freiam por nós para evitar uma colisão.


Por outro lado, quando fazemos uma boa manutenção dos nossos veículos – trocamos o óleo do motor, as pastilhas dos freios, as velas, calibramos os pneus ou apenas lavamos e polimos – eles parecem nos agradecer por esses cuidados. Demonstram sua gratidão pelo carinho recebido rodando mais silenciosos e tranquilos. Tornam-se mais dóceis e confiáveis.   

Para quem se acomoda numa poltrona de avião, engole um sonífero e acorda no destino final, ou para quem utiliza um automóvel qualquer apenas para se deslocar de um lugar a outro da cidade, tudo isso pode parecer bobagem. Ora, máquinas são máquinas, um aglomerado de peças de metal e plástico, nada mais do que isso. Não têm vida.

Mas será que não existe algum tipo de vida no complexo organismo de seis milhões de componentes interligados de um Boeing 747-8I que nos leva de um ponto a outro do planeta, a dez mil metros de altura, na velocidade de uma bala de fuzil? Ou na sofisticada aerodinâmica de um carro de Fórmula 1 quando cola no chão a 350km/h? Na leveza silenciosa de um veleiro que navega contra o vento? No movimento ritmado dos pistões de uma moto Harley Davidson que produz aquele som gorgolejante único? No rugido leonino expelido pelo motor V8 de uma Ferrari F430? Na força da propulsão que lança às estrelas um foguete de centenas de toneladas como se fosse uma bolinha de golfe?

É preciso ser muito pragmático e um tanto insensível para não perceber uma centelha de vida em todas essas maravilhas criadas pela engenharia contemporânea. Uma vida não comparável à biológica, certamente, mas ainda assim é um tipo de vida. Mecânica, electrônica, artificial, por óbvio, porém animada pelo sopro da inteligência humana. Como se o homem brincasse de Deus, e as máquinas fossem suas criaturas.

Um amigo me diz que a sua colecção de automóveis clássicos o poupou de muitas sessões de terapia psicanalítica. Outro, garante que subir a serra no final de semana com sua moto Triumph é uma forma de “despressurização” das tensões do quotidiano. Conheci um casal de aviadores – ele piloto de linhas aéreas, ela piloto de helicópteros off-shore – que, nos seus raros momentos de folga, corriam para voar planadores num aeroclube a 100 quilômetros de casa, porque se sentiam “mais vivos” nas alturas. Há, também, o caso de um editor e escritor amigo que viu um anúncio de um Gol GTS abandonado e sentiu que precisava fazer algo pelo clássico Volkswagen brasileiro que parecia implorar para ser salvo de virar sucata. Ele o comprou, o restaurou, e hoje desfila feliz da vida com seu GTS nos encontros de antigomobilismo.

Quanto a mim, confesso que em alguns dos momentos mais difíceis da minha vida, como quando enfrentei um período de depressão, restaurar veículos clássicos ou pegar uma estrada ao volante de um automóvel foram os “remédios” que mais benefícios me proporcionaram. Tonturas, enjoos e desânimo eram substituídos por uma sensação de bem-estar inacreditável. Interagir com a máquina, sentir a rotação do motor subindo após cada troca manual de marcha, a pressão dos pedais, as mudanças de rumo a um leve toque no volante, o sibilo do vento, a ação da força G nas curvas, as ondulações da topografia, tudo isso injetava no meu cérebro doses generosas de serotonina que me devolviam o prazer de viver. Dito isso, como negar que entre homens e máquinas pode sim existir uma relação afetiva tão íntima como nem sempre ocorre entre seres humanos?

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Fotografias: Eduardo Scaravaglione

Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


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