Cápsulas do Tempo: A era

Clássicos 01 Mai 2022

Cápsulas do Tempo: A era “cool” das transportadoras de competição

Por Pedro Pais Cardoso

Longe vão os tempos em que se podia apelidar a F1 de “circo”. A expressão – Circo da F1 – surgiu, porque na sua origem, a competição era basicamente constituída por um conjunto de entusiastas que chegava às diversas cidades onde existiam circuitos, e onde, proprietários de equipas negociavam directamente com proprietários de circuitos. Aí chegados discutiam-se os valores a pagar para que as provas decorressem e o “circo estava assim montado”.

 

Antes da era Ecclestone, a partir da qual por influência daquele antigo corredor de automóveis e vendedor de carros usados, a ter organizado, e a ter transformado numa indústria de biliões; a F1 não era mais do que uma grande comunidade de “garagistas” itinerantes que, de “malas às costas”, partiam de circuito em circuito, levando toda a parafernália necessária a hora e meia de corrida, um pouco por todo o mundo.

 

As equipas de F1, nas quais se incluíam os mecânicos, projectistas, pilotos, donos de equipas, cozinheiros e “groupies” de tournée, ficavam normalmente alojados nos mesmos sítios, partilhavam os mesmos espaços, eram em suma, uma grande comunidade que viajava em conjunto e cujo único factor distintivo eram as cores da camisola que defendiam.

 

Nessa era romântica da F1, que podemos situar entre os inícios dos anos 60 e meados dos anos 80 do século passado, um dos factores distintivos de cada “escuderia”, para além dos monolugares que colocavam em pista, era também as diferentes transportadoras que serviam cada uma das equipas. Essas transportadoras tinham a incumbência de, finda cada prova, embalar e levar todo o equipamento por estrada, de um país para outro, como um qualquer outro circo itinerante que todos nós tivemos oportunidade de ver chegar às nossas cidades, enquanto crianças.

 

Este era apenas um circo diferente, um circo movido a alta octanagem (perdoem-me a expressão), muito barulho, protagonizado por modernos intérpretes, dos gladiadores da Roma antiga.

 

Desses tempos ficam as imagens das diferentes transportadoras que, nas suas “costas” levavam os bólides, e nas suas entranhas, o que mais fosse necessários – pneus, ferramentas, tachos, panelas, vinho, comida, medicamentos – enfim, o que necessário fosse para montar o espectáculo da F1. O mesmo se passava de forma similar, em competições de menor dimensão, e em categorias menos mediáticas.

 

Destaco algumas transportadoras que ao longo dos tempos se foram evidenciando, não só pelo seu arrojo estético, mas também pela genialidade mecânica que evidenciavam, nomeadamente em termos de fiabilidade, já que, eram obrigadas a cumprir milhares de quilómetros de 15 em 15 dias para que o circo mudasse de poiso e a F1 pudesse acontecer.

 

Não posso deixar de referenciar aquela que para mim é a precursora das “purpose built” carrinhas de transportes de F1´s – a Mercedes de 1955 que servia para transportar os veículos de corrida da marca, os famosos “flechas de prata”. O tempo de serviço deste veículo foi relativamente curto, já que após o acidente de Pierre Levegh ao volante do seu Mercedes nas 24 horas de Le Mans de 1955, (vitimou 84 pessoas) resultou no abandono das competições por parte da marca, até ao seu regresso em 1989. 

 

Foram produzidos três modelos desta transportadora, todos destruídos anos mais tarde. Daquela época não sobrevive qualquer exemplar original, tendo no entanto sido recriada recentemente pela marca, estando patente no museu da mesma em Estugarda.

 

 

Outras porém, quiçá não tão belas quanto esta primeira, foram surgindo, ainda a anos-luz dos sofisticados camiões e “motorhomes” da actualidade, como a transportadoras da Scuderia Ferrari, de 1957 e 1969.

 

 

 

As transportadoras de competição não serviam apenas a disciplina máxima do automobilismo mundial, os campeonatos de turismo na Europa e as competições de maior ou menor impacto do outro lado do Atlântico também nos proporcionaram veículos de enorme engenho e impacto estético que permanecem na memória colectiva dos aficionados. Seguem alguns exemplos:

 

A famosa transportadora da “Ecurie Ecosse” – equipa escocesa vencedora das edições de 1956 e 1957 das 24 horas de Le Mans.

 

 

Aqui reunida com os bólides da equipa, e cujo lote atingiu em leilão realizado pela Bonhams em 2013, o valor combinado de 8.8 milhões de libras esterlinas. Cerca de 10 milhões de euros!

 

A transportadora – uma Commer TS3 de 1960 – foi arrematada, isoladamente por 1.8 milhões de libras esterlinas (cerca de dois milhões de euros) tornando-se assim no mais caro veículo comercial do mundo.

 

 

Esta transportadora é tão famosa que deu origem à respectiva versão em brinquedo, fabricada pela Corgi. Já se antevia assim o seu enorme sucesso.

 

 

Não menos impactante, a magnífica transportadora da equipa Ford com os famosos Ford GT 40 em Le Mans (1966-1969).

 

 

Ou exemplos mais compactos, como esta pão-de-forma – década de 50 – devidamente adaptada para a competição:

 

 

Quaisquer que fossem as formas, cores ou configurações que estes veículos adoptavam, o que podemos assegurar é que estes constituíam um espectáculo dentro do próprio espectáculo. Lanço aqui o desafio aos leitores, para, nos comentários, nos recordarem de mais alguns exemplos de transportadoras que mereciam integrar esta galeria.



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Excelência na escrita, factualidade na informação, interesse para aficionados e leigos. Ou como perceber que a história automóvel é no fundo um reflexo da evolução tecnológica e da sociedade moderna.