40 RA, o Fora da Lei

Modernos 24 Fev 2022

40 RA, o Fora da Lei

Por Pedro Fernandes

Na noite de 26 de Novembro de 1993, um Lotus Carlton (modelo também comercializado como Lotus Omega) com a matrícula “40 RA” é roubado à porta da casa do proprietário na pequena cidade de Pershore, Worcestershire, no Reino Unido. Os eventos que se seguiram deram origem a uma história na qual factos e ficção confluem para criar uma narrativa tão errática e imperfeita como fascinante, a qual cimentou lugar na consciência coletiva dos apreciadores de automóveis desde que começou a ser reportada. Com o condado das Midlands Ocidentais como cenário de fundo, uma região com raízes profundas na indústria e no carvão, com uma sociedade dividida entre os beneficiários dos grandes empreendimentos e a numerosa classe trabalhadora que assistira, a partir de 1990, ao afundar da economia britânica sob o peso de uma dramática recessão, o facto de um automóvel de produção tão limitada (950 unidades), com um preço – então – exorbitante de £48.000 ser ali roubado constituía, em si, uma ocorrência digna de nota na região. Contudo, o que viria a acontecer nos meses seguintes transcendeu o mero interesse por parte das comunidades locais, com as proezas do 40 RA a ajudarem a esculpir o próprio legado cultural do Lotus Carlton/Omega.

Armados com o que era, à data, um dos automóveis mais rápidos do mundo, o arrojado bando que decidira fazer uso do Lotus Carlton perpetuava uma já longa tradição na vida criminal de colocar os melhores e mais rápidos sedans ao serviço do golpe e do saque, tendência que se afirmara com os assaltantes de bancos nos anos 60 ao volante de Jaguares MkII 3.8 e que perdura ainda na actualidade com façanhas como a dos Pink Panthers no Dubai em 2018 (na qual Audis S8 foram conduzidos por um centro comercial de luxo de modo a possibilitar o roubo de milhões em diamantes), a actividade do bando concentrou-se nos infames “ram raids”, assaltos nos quais os próprios automóveis constituíam, frequentemente, a ferramenta de brecha do alvo do bando.

Entre Novembro de 1993 e Janeiro de 1994, aproximadamente £20.000 (ajustado à inflação e convertido, o valor corresponde na actualidade a mais de 50.000€) em álcool, tabaco e outros bens foram furtados pelo bando. A actividade tinha sempre início depois da meia-noite e prolongava-se até à primeira luz da manhã. Ao longo das madrugadas, o espetro Verde Imperial (única cor disponível para os Lotus Carlton/Omega) surgia para trazer o caos às lojas da região, desaparecendo imediatamente após os poucos minutos que duravam os assaltos. Durante o dia, o 40 RA permanecia escondido em parte incerta. A localização do automóvel discutia-se em sussurros, alimentavam-se rumores e partilhavam-se teorias; contudo, nunca viria a emergir informação concreta acerca de onde o Lotus era resguardava das autoridades.  


A edição de 4 de Janeiro de 1994 do jornal The Independent relatava as dificuldades que a polícia sentia na caça ao 40 RA, citando o testemunho do agente David Oliver, o qual afirmava que as autoridades não se conseguiam sequer aproximar do automóvel e que parecia duvidoso que alguma vez o conseguissem. Tal não se define como surpreendente, pois a frota da polícia local era maioritariamente composta por Rovers Metro, os quais alcançavam pouco mais de metade da velocidade máxima do Carlton/Omega. Além do mais, o trabalho realizado pela Lotus foi extensíssimo e o Carlton/Omega era perfeitamente capaz de lidar com as curvas e não apenas ser rápido em linha reta. Equipado com amortecedores McPherson de tubo duplo, suspensão multilink e diferencial de deslizamento limitado, discos ventilados, pinças AP Racing desenvolvidas para o lendário Grupo C e pneus Goodyear Eagle especialmente desenvolvidos em parceria com a Lotus, não é difícil imaginar como este modelo iria certamente ao encontro das necessidades inerentes a uma fuga bem-sucedida. Pelos padrões actuais, o refinamento da abordagem do pesado automóvel (1655 kg) às curvas deixaria bastante a desejar, mas à data, inspirava claramente bastante confiança aos seus ilícitos utilizadores. Aliás, a confiança no automóvel cresceu de tal forma que um dos assaltos cometidos pelo bando do 40 RA viria a ter lugar a meros 25 metros da esquadra mais próxima, na cidade de Rubery. O Independent reportou acerca do incidente que, apesar dos agentes de serviço terem ouvido a quebra da porta do estabelecimento atacado, ao chegarem ao local, o 40 RA já se colocara em fuga e tudo o que puderam fazer foi testemunhar o desaparecimento do automóvel na escuridão.

À medida que a onda de furtos alastrava e a impunidade do bando se continuava a afirmar sobre os esforços das autoridades, afirmava-se igualmente o estatuto de lenda urbana do 40 RA. A história mais famosa associada ao automóvel descreve o 40 RA a despistar o helicóptero da polícia que o perseguia na autoestrada M6, numa cena digna de um filme de Jerry Bruckheimer. Uma variante não menos hollywoodesca deste relato que também se popularizou, prende-se com uma hipotética troca dentro de um túnel, com o 40 RA a permanecer no interior enquanto outro Carlton, modelo base, também em tom escuro, continuou a ser seguido do ar pelo helicóptero. É importante sublinhar que a veracidade destas histórias permanece inteiramente por confirmar, visto não existir divulgação pública da documentação das autoridades no que diz respeito à caça ao bando do 40 RA. Mas independentemente das façanhas terem sido verídicas ou meramente romantizadas no imaginário popular, o facto é que a reputação do 40 RA como fora da lei encontrava-se, no início de 1994, bem estabelecida.


Contudo, tal reputação não se prendeu apenas com a onda de crimes cometidos ao volante deste automóvel em particular; o Lotus Carlton/Omega era já um modelo controverso muito antes deste exemplar específico causar alvoroço. Tudo brotara de uma fonte inesperada: a conceituada revista Autocar. Bob Murray, o então editor, assinou uma coluna em 1990 na qual caracterizou o super sedan da General Motors como excessivo, especialmente no domínio da velocidade máxima. Recorde-se que este modelo era oficialmente capaz de alcançar 285 km/h (embora, em testes da Lotus, tenha alcançado 292 km/h) quando a restante concorrência alemã se encontrava artificialmente limitada a 250 km/h. As palavras de Murray definiram-se como de tal modo incisivas, que despoletaram uma avalanche de atenção indesejada sobre o automóvel por parte dos perniciosos tabloides britânicos, com o infame The Daily Mail ao leme da controvérsia manufacturada, exigindo que o automóvel fosse banido da nação. A tempestade mediática apanhou Mike Kimberley, o então Presidente da Lotus, de surpresa. Não só a companhia trabalhara arduamente para que o Lotus Carlton/Omega fosse o automóvel de referência no seu segmento, mas para Kimberley, a ofensa era não apenas profissional, mas também pessoal. O patrão da Lotus fora o pai do conceito daquele modelo, tendo abordado a GM (que tomara controlo da companhia em 1986) com a ideia de um “halo car” para a Vauxhall/Opel, um automóvel que seguisse a mesma receita identitária que a Lotus afinara com o Cortina. O projecto viria a ser aprovado com a ajuda do Presidente da GM Europa, tendo ficado o design a cargo de Julian Thomson, personalidade que acabaria por se tornar no sucessor de Ian Callum como Director de design na Jaguar.

A reacção negativa ao Lotus Carlton/Omega não se limitou à Autocar e aos tabloides; a questão foi mesmo arrastada até ao Parlamento do Reino Unido, com argumentos contra o modelo a serem levantados em intervenções da sessão da Câmara dos Comuns de 16 de Novembro de 1990. Aos protestos de Membros do Parlamento juntaram-se as objeções da Royal Society for the Prevention of Accidents e da ACPO (Association of Chief Police Officers), a segunda talvez mais sentida não com o reportado perigo que o automóvel representava, mas com as então recentes vendas de Senators B por parte da Vauxhall a forças policiais um pouco por todo o Reino Unido, os quais mesmo depois de custosos melhoramentos continuavam a ficar muito aquém das capacidades de desempenho do Lotus Carlton/Omega…

Focando novamente a atenção no 40 RA, o ano de 1994 prosseguiu sem informações que levassem à captura dos membros do bando ou à recuperação do automóvel. Com o passar dos meses, os assaltos cessaram, dissipando-se seguidamente o interesse da imprensa britânica pela questão. O 40 RA, contudo, nunca deixou o imaginário popular e muitos especularam ao longo dos anos – e décadas – seguintes acerca do destino do automóvel. As hipóteses eram variadíssimas: talvez atirado para o fundo de um corpo de água, talvez enterrado, desmantelado, prensado…ou simplesmente esquecido nas dependências de uma qualquer propriedade rural abandonada. A resposta a estas incertezas viria a surgir apenas recentemente.

Em comentários realizados num thread relativo ao 40 RA, Riccardo Austini (o “RA” da matrícula “40 RA”) identificou-se como proprietário original do famoso Lotus Carlton e, na subsequente atividade online nos últimos dois anos, esta personalidade tem-se validado como, de facto, o lesado cuja perda originou quase trinta anos de mitologia e especulação. A história completa permanece (pelo menos, publicamente) por contar, mas Austini revelou que na referida noite de 26 de Novembro de 1993, ainda tentou prevenir que o automóvel fosse roubado, tendo saído de casa – de acordo com a sua descrição – quase despido, mas o esforço falhou, resultando no desaparecimento do 40 RA após uma agressão ao proprietário. Austini revelou que o Lotus acabou por ser atirado a um canal em Knowle, perto de Birmingham, a pouco mais de 60 kms de onde fora roubado. Depois de descartado sem cerimónias, o 40 RA terá ainda sofrido o embate do casco de uma barcaça, o qual encavou o tejadilho do automóvel. Austini não especificou quando o 40 RA foi removido das águas, mas após ser, sem surpresa, declarado como uma perda total por parte da seguradora, terá sido transportado para uma sucata/desmantelador em Shropshire Whitchurch. Visto esse negócio ter entretanto fechado as portas, não virá a ser aparentemente possível apurar se algum dos componentes do 40 RA acabou ou não reabilitado para uso em outro Lotus Carlton/Omega.      

Embora a conclusão de uma narrativa repleta de potencial se tenha revelado insatisfatória, caindo aquém das melhores expectativas dos que ainda esperavam poder vir a encontrar o lendário automóvel em estado recuperável, Riccardo Austini continua no entanto a fazer as delícias dos entusiastas do 40 RA. Visto as normas no Reino Unido terem permitido a Austini manter propriedade sob o registo “40 RA”, em Novembro do ano passado, este tornou-se uma vez mais proprietário de um Lotus Carlton, o qual se encontra agora adornado com a famosa matrícula, continuando a rodar nas Midlands Ocidentais. Ao longo dos últimos meses, têm-se multiplicado os posts nos média sociais com avistamentos do automóvel, tendência que permite que a história do 40 RA seja continuamente retransmitida às novas gerações de entusiastas.


Como modelo, o Lotus Carlton/Omega não é um automóvel raro meramente em termos de produção, mas também no que diz respeito às circunstâncias da sua génese e no impacto cultural que alcançou. A veracidade do sentimento subjacente à reacção perante a própria existência deste modelo é algo muito mais claramente legível nas entrelinhas que nos cabeçalhos. O Lotus Carlton/Omega incomodou, tendo pisado os proverbiais calos da concorrência; o facto de ter um Vauxhall /Opel por base significou que, superar titãs da sua própria classe como o 500E e Alpina B10 Biturbo e exóticos como o Ferrari 348 e o Porsche 911 nos valores-chave da velocidade máxima, potência, tempo dos 0-100, etc, exigia a entrada num clube que não estava preparado para receber o Lotus Carlton/Omega como membro.

No entanto, o viés dos críticos fomentou uma incremental admiração no lado oposto: o do público. Esta discrepância estabelece o modelo da Lotus como um dos mais paradoxais automóveis alguma vez produzidos; simultaneamente dispendioso, exclusivo e claramente destinado a uma pequena elite de compradores, mas pela sua origem, também percepcionado como um dos derradeiros “underdogs” um “working-class hero” (perdoe-se os anglicismos). Os acontecimentos ocorridos em redor do 40 RA só vieram ajudar à construção da imagem do Lotus Carlton/Omega como um ícone de rebeldia e irreverência. É difícil imaginar que as mesmas acções, caso levadas a cabo ao volante de um Mercedes-Benz ou BMW, tivessem de algum modo assegurado o tipo de repercussão ao longo do tempo que garantiram, precisamente, pelo facto de envolverem este modelo em particular. A comunidade que preservou a memória do 40 RA no domínio da história oral dificilmente incutiria valor a essa mesma memória, especialmente perante o sucedido (recordem-se as perdas materiais avultadas que a vaga de assaltos causou), caso não existisse um reconhecimento das suas próprias características e aspirações no automóvel e no modo como este foi usado. Esse reconhecimento nasceu, provavelmente, no sentido da necessidade de uma vitória, de reacção contra circunstâncias impostas, e o 40 RA providenciava sem dúvida uma forte vivência por associação nessa realidade. Tal como a própria comunidade, o automóvel nascera de origens humildes e, num período em que a desesperança reinava e a confiança nas instituições abatera, o 40 RA desafiava a autoridade e fazia a sua própria sorte no aliciante mundo do crime. O facto de ser, originalmente, um automóvel extremamente dispendioso, posicionado muito além do alcance da esmagadora maioria dos membros dessa mesma comunidade e das actividades nas quais esteve envolvido terem causado danos unicamente à referida comunidade, não se revelou como suficiente para que o estatuto de pertença e, eventualmente, de lenda do 40 RA lhe fosse negado.

Quanto ao bando em si, permanece até à actualidade anónimo e impune aos crimes daquele período, uma boa razão para que Riccardo Austini mantenha o seu novo Lotus Carlton bem guardado pois, como se refere frequentemente, a história tem tendência a repetir-se.

Crédito das imagens: Riccardo Austini e Autowp


TAGS: Lotus Omega


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