Réquiem para as berlinas

Clássicos 15 Jan 2022

Réquiem para as berlinas

Por Irineu Guarnier

Vários modelos de sedãs (como classificamos no Brasil automóveis três volumes geralmente de quatro portas, ou berlinas, como se diz em Portugal) fabricados há décadas estão sendo descontinuados. São as mais recentes vítimas da “Era SUV”, que já exterminou coupés, minivans e peruas. A categoria mais tradicional de automóveis de passeio parece condenada à extinção. Uma pena. A divisão do veículo em três compartimentos bem definidos – cofre do motor, habitáculo e porta-malas – ainda parece perfeita. Motor, passageiros e bagagem, cada qual no seu lugar. 


O centro de gravidade baixo, a aerodinâmica refinada, a facilidade para entrar e sair e a ótima dirigibilidade, principalmente em curvas, são características próprias dos sedãs que os tornam muito melhores do que os SUVs. Modelos de SUVs montados sobre plataformas de sedãs e com as mesmas motorizações são menos eficientes do ponto de vista aerodinâmico, gastam mais combustível, têm desempenhos de 0 a 100 km/h bem inferiores e são mais instáveis em manobras bruscas, como diversos testes já demonstraram.


O formato sedã é uma solução tão engenhosa que já era utilizado pelas antigas carruagens. Se ajustou super bem a automóveis europeus com forte índole esportiva, como alguns modelos Alfa Romeo, Maserati, BMW, Aston Martin, Jaguar. Quem disse que um sedã tem de ser comportado como um táxi?


Até bem pouco tempo, carros presidenciais, oficiais, ou mesmo de celebridades do show-business, eram quase que obrigatoriamente sedãs. Geralmente pretos. Transmitiam segurança, autoridade, respeito. Mas também os sedãs utilizados como carros oficiais começam a ser substituídos por SUVs. A Casa Branca trocou parte de sua frota de majestosas limusines pretas presidenciais – sedãs alongados, na verdade – por gigantescos SUVs blindados. Outros governos pelo mudo seguiram o exemplo. Os caminhonetões podem até ser mais seguros, mas, definitivamente, não têm o mesmo charme.

Todavia, o mercado é soberano. Se os consumidores não querem mais saber de sedãs, e preferem os abrutalhados SUVs, as montadores vão descontinuar suas linhas de sedãs e produzir mais SUVs e picapes ao gosto da freguesia, como estão fazendo Ford, GM Volkswagen e outras grandes marcas mundiais. Até que um dia todos os carros serão SUVs e a monotonia levará os verdadeiros amantes de automóveis a virar o pescoço nas ruas para admirar algum sedã antigo que milagrosamente tenha sobrevindo à extinção em massa dos anos 2000.

Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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