Peugeot Eclipse: O coupé-cabriolet dos anos 30

Clássicos 02 Jan 2022

Peugeot Eclipse: O coupé-cabriolet dos anos 30

Por Bruno Machado

Ao contrário do que poderíamos pensar, a origem dos cabriolets Eclipse não se encontra no departamento de design da Peugeot, nem na oficina de uma “Carrozzeria” italiana, mas sim na garagem particular de um dentista, chamado Georges Paulin. Foi lá, no início dos anos 30, que Paulin aproveitou os seus tempos livres para trabalhar num sistema inovador de tejadilho retrátil eléctrico. Uma inovação que até virou moda décadas mais tarde, no início do século XXI.

Constatando que as capotas dos cabriolets não ofereciam as melhores garantias de impermeabilidade e resistência, Georges Paulin, projectou e concebeu um sistema que permitisse andar de cabelos ao vento, sem perder as virtudes de uma carroçaria fechada nos dias de chuva. O resultado foi apresentado a Marcel Pourtout, que realizou um primeiro protótipo baseado num Hotchkiss, em 1933.


Emile Darl’Mat, concessionário Peugeot, acreditando no potencial de tal sistema, enviou alguns chassis de 301, 401 e 601 para os ateliers de Pourtout. Mas foi no Salão de Paris de 1934, que o sistema começou a ganhar notoriedade, com a apresentação dos modelos 401 Eclipse e 601 Eclipse, entretanto integrados na gama Peugeot.


Até o escritor e cineasta, Marcel Pagnol, seduzido pelo conceito, encomendou um 601 Eclipse, mas com um estilo único e particularmente moderno, graças à integração dos guarda-lamas na carroçaria. Tal como o tejadilho retrátil, as linhas inovadoras e exclusivas do 601 Eclipse, eram da autoria de Georges Paulin, que se tornara cada vez menos dentista e cada vez mais designer.


Em 1935, o novo Peugeot 402, inaugurava um novo estilo aerodinâmico (Fuseau Sochaux), inspirado no Chrysler Airflow, e cuja principal característica era a colocação central dos faróis dianteiros, atrás da grelha. O sistema Eclipse correspondia bem à filosofia futurista do design do 402. Assim, além das versões mais comuns (berlina, “Commerciale”, coach, entre outras), a Peugeot propunha ainda uma versão Eclipse. Consciente do preço particularmente elevado desta versão, a Peugeot acabou por substituir o sistema eléctrico por um sistema manual, mais barato.


Mas com a Segunda Guerra Mundial, as fábricas foram reconfiguradas para a economia de guerra, interrompendo-se assim a produção do 402 Eclipse, depois de 580 exemplares construídos, dos quais apenas 80 com sistema eléctrico.

Depois da guerra, o sistema Eclipse ainda foi adoptado em alguns automóveis americanos, na década de 50, mas foi sobretudo no início deste século que conheceu um novo fôlego, pois os tejadilhos já se dobravam e desdobravam de várias maneiras, tornando-os mais adaptados às dimensões dos automóveis actuais. O Mercedes SLK, ainda em 1996, actualizou o conceito, o Peugeot 206 CC democratizou-o em 2000, e pouco tempo depois, a maioria das marcas já tinha o seu coupé-cabriolet. Hoje em dia, a moda já passou, subsistindo apenas o Ferrari Portofino.


Por seu lado, Georges Paulin viu a sua carreira como designer “eclipsar” a sua carreira de dentista. E se as relações com a Peugeot azedaram, devido à redução dos royalties após o lançamento do 402 Eclipse, a parceria de Paulin com Pourtout continuou, originando modelos como o 302 Darl’Mat, o Bentley Corniche Vanvooren e, sobretudo, o Delage D8-120 Sport, um dos mais belos exemplos de arte automóvel. Nada mal para um “designer amador”. Pouco conhecido, é o Lancia Belna (um Lancia Augusta fabricado em França), que também beneficiou do sistema Eclipse, a partir de 1934, ainda antes do Peugeot 402!


Infelizmente, a promissora carreira de designer de Georges Paulin, foi igualmente interrompida pelo conflito mundial. Inconformado com a ocupação alemã da França, Paulin abriu um consultório de medicina dentária, que na realidade, não passava de uma fachada que escondia uma rede de resistência contra os nazis. Acabou por ser detido e torturado pela Gestapo durante 4 meses, durante os quais se recusou a fornecer quaisquer informações. Foi fuzilado em 1942, aos 40 anos. Com o regresso da paz, foi condecorado a título póstumo.

Afinal o sistema Eclipse não foi inventado por um simples dentista, mas sim, por um herói.

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