Jornal dos Clássicos: 25 anos que passaram num instante

Clássicos 17 Dez 2021

Jornal dos Clássicos: 25 anos que passaram num instante

Por Adelino Dinis

O número um do Jornal dos Clássicos nasceu em março de 1996. Foi só há 25 anos, mas os meses ainda se escreviam com maiúscula e o seu preço de lançamento era de 450 escudos (€2,25).

Na verdade, era outro mundo e nada nos data mais do que lembrarmo-nos de como era esse tempo diferente e de como o tempo que passou pareceu um pestanejar de olhos.

Para o leitor mais novo, estas palavras devem soar como soavam a mim as dos meus amigos mais velhos, quando me falavam de tempos que não vivi. Os mais experientes, sorriem, porque se lembram como se fosse hoje. Não havia internet, víamos as notícias nos jornais e no telejornal e as redes sociais eram feitas num café ou numa esplanada. Parece que foi há 100 anos, mas foi só noutro século.


A beleza do conceito do Jornal dos Clássicos não passou de moda e acertou à primeira (eu sei, porque não descansei enquanto não o transformei noutra coisa, não necessariamente melhor).

A ideia seminal do Pedro Corrêa Mendes, o seu fundador, e do António Andrade e Sousa, o primeiro director, era uma publicação de cariz popular, sem qualquer pretensão, que fosse um veículo de informação entre os entusiastas e os coleccionadores. O projecto gráfico continua gracioso e acolhedor, uma espécie de La Vie de l’Auto à portuguesa. Os primeiros números eram todos a preto e branco com, mais tarde, um caderno a cores, para temas seleccionados. Tenho um exemplar ao lado do teclado e sinto muito orgulho nele, totalmente alheio, porque não tive qualquer responsabilidade nele.

Só cheguei ao Jornal dos Clássicos no número três, numa modesta reportagem sobre o Rali Pedras d’el Rei. Mas a partir do número cinco, passei a colaborador regular, assegurando o automóvel em destaque a cada edição. Por vezes, mais um ou outro artigo.

No que diz respeito ao conteúdo, se o António Andrade e Sousa era o coração do Jornal dos Clássicos, o Nuno Coutinho era o cérebro, garantindo a sua cadência mensal com o rigor de um metrónomo. Aprendi bastante com ambos, antes de passar a ser o director, em 1998. Tinha acabado de fazer 26 anos e só a paixão pelo tema — e o apoio de um conjunto excepcional de colaboradores — me permitiu levar a cabo essa tarefa.

Não demorou para que transformasse o Jornal dos Clássicos numa revista toda a cores, com produção fotográfica mais cuidada. A verdade é que, naquela altura, os clássicos em Portugal eram um nicho quase microscópico. Não só em número de participantes, mas também em termos de visibilidade. A intenção era tornar a publicação uma montra para o sector, alargar o público e tornar o tema mais visível — e também mais comercial. Não há arrependimentos, naturalmente, e algumas das capas desta fase foram memoráveis, verdadeiras cartas de amor à estética do automóvel histórico. Uma ou outra falharam redondamente, mas sempre com categoria (acho…).

Um dos mais curiosos foi a de um estranho e magnífico Rolls-Royce (que agora é muito feliz na ilha da Madeira) que fotografámos com uma modelo vestida pela Fátima Lopes, a segurar um castiçal. Nesse mês, o Jornal dos Clássicos fugiu dos escaparates das revistas de automóveis e foi vendido ao lado das revistas de moda… Bom, a ideia era desbravar novos entusiastas, pelo que podia ter sido pior.

Esta fase do Jornal dos Clássicos durou até ao número 71, de maio de 2002. Nesta altura, o preço de capa era de €3, mas o número de páginas passara das 32 para as 68. A editora que a produzia faliu, levando com ela esta publicação, que conduzi ao longo de 38 edições.

Outros projectos se seguiram, mas o admirável Jornal dos Clássicos foi a minha bicicleta com rodinhas, à sombra do Pedro, do António e do Nuno — com a participação muito especial do Ricardo Santos Carvalho, o inesquecível Pee Wee — antes de voar mais ou menos a solo.

Eu pensei que a história do jornal tinha ficado por ali, mas menos de uma década depois, o Pedro Corrêa Mendes refundou o Jornal dos Clássicos, desta vez, numa plataforma com todo o futuro pela frente. Quando, alguns anos depois, decidiu que ficaria mais bem entregue a instituições especializadas neste sector, nasceu a parceria entre o Museu do Caramulo e as Edições Vintage, que se mantêm e cujos projectos já se multiplicaram.

Mas a história não acabou aqui, porque o sucesso do Jornal dos Clássicos deve-se quase exclusivamente ao seu director há mais tempo, o Salvador Patrício Gouveia. A sua determinação e energia são, sem dúvida, a força motriz deste projecto que conta muitos milhões de visualizações anuais no site e a caminho do milhão de visualizações no recente canal de YouTube, que convido o leitor a visitar.

De um jornal a preto e branco, mas muito digno e transbordando paixão e carolice, nasceu um projecto multimédia, reconhecido por toda a comunidade. E tudo isto, em menos de um fósforo, que é como quem diz, 25 anos.

Um grande bem-haja a todos os que contribuíram e contribuem para esta história. Venham mais 25, ao serviço do leitor e do nosso património histórico automóvel.


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