O Génesis

Clássicos 26 Set 2021

O Génesis

Por José Barroco

No início tudo era escuro e nada fazia sentido. Um “ser” superior ia colocando no mundo, como eu o percepcionava, evidências da sua existência. Até lá, limitava-me a brincar com um Action Man com um pára-quedas ou a brincar à missa com as minhas irmãs sendo o altar um calorífero com uma toalha por cima.
 
A primeira evidência que tive foi um daqueles clássicos tapetes de brincar com toda uma cidade e suas estradas estampadas. O tapete tinha bifurcações, estradas rurais sinuosas, bombas de gasolina, hospitais, semáforos, tinha tudo… Eu conseguia imaginar-me dentro dos carros, nas filas de trânsito, a acelerar pelas estradas sinuosas e a fugir à polícia no meu carro da Hot Wheels.
 
Mais tarde, com cerca de quatro ou cinco anos, o meu pai levou-me à minha primeira corrida. A corrida decorreu no Autódromo do Estoril e, pelo que eu me lembro, tratava-se de uma corrida do circuito do World Endurance Championship. O meu pai, na sua ingenuidade e provável inexperiência com crianças, esqueceu-se que os automóveis talvez fizessem mais barulho do que ele esperava. Resumindo, tive que ser levado dali porque não parava de chorar e para mim tinha sido a experiência mais aterradora da minha vida a seguir ao espectáculo de trovões no Planetário.
 
Até agora, este “ser” superior não tinha sido bem-sucedido. Talvez pensasse até em desistir e entregar-me de bandeja ao futebol. Ainda bem que tal não aconteceu porque o meu pai é do Belenenses. Tinha sofrido ainda mais do que ser um fã da Ferrari. Foi então que o meu pai decidiu: “Vamos aos Karts!”.
 
Estávamos de férias no Algarve e contra todas a indicações de segurança dadas pela minha mãe, fomos todos os primos e amigos ao Kartódromo de Almancil. Todos enfiados numa pista de karts minúscula, sem força para virar o volante ou altura para chegar ao pedal do travão. As coisas tinham tudo para correr mal. A verdade é que a corrida foi mais emocionante do que qualquer corrida de Fórmula 1 da era moderna e o acidente mais marcante ocorreu fora de pista.
 
Na altura, o Kartódromo de Almancil, sem qualquer razão aparente, achava que os praticantes de karts gostariam de observar avestruzes. Assim, enquanto o meu pai, tios e tias, estavam distraídos a observar a corrida mais emocionante do mundo tentando conter as rédeas dos seus participantes, a minha irmã mais nova, com quatro anos, decidiu ter a “Experiência Safari de Almancil” de borla. Colocou-se em frente ao “piu piu grande” e levou uma bicada antes de toda a gente se aperceber do que estava a acontecer. Naquele dia fiquei apaixonado por tudo o que envolvesse carros e a minha irmã ficou para sempre com medo de avestruzes.
 
É impossível para mim determinar o momento em que comecei a apreciar todos os automóveis que passavam na rua e a seguir os principais eventos automobilísticos, no entanto, consigo definir alguns dos primeiros momentos que me marcaram e que muito em parte foram graças à tal ingenuidade e desprezo pelas indicações de segurança por parte do meu pai. Obrigado pai por nem sempre ouvires a mãe…



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Carlos Lourenço
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espetacular a historia , eu ja fiz o mesmo com os meus filhos e adoraram , tirando a parte do avestruz