O meu primeiro vôo

LifeStyle 18 Ago 2021

O meu primeiro vôo

Por Irineu Guarnier

Cresci ouvindo a história do meu “primeiro voo”, quando teria pouco mais de um ano de idade, na cabine de comando de um antigo bimotor!

Minha mãe estava novamente grávida quando precisou viajar às pressas para a capital. Na época, uma viagem de comboio da cidade em que ela vivia até a capital do Estado demorava mais de doze horas. De avião, o tempo encurtava para menos de três horas.

O equipamento era o robusto e confiável Douglas DC-3, que a Varig utilizava então nas suas rotas para o interior do Rio Grande do Sul. O DC-3 não era pressurizado, por isso voava baixo, e naquele dia o tempo estava péssimo. Choveu muito no percurso, o avião balançou, a minha mãe enjoou bastante, e eu não parava quieto na minha poltrona. O comissário de bordo, muito gentil, se ofereceu para me distrair e foi assim que fui parar na cabine de comando.


Bem, esta pode ter sido, de fato, a minha primeira vez no ar, mas como não tenho memória deste dia o primeiro voo que conta para mim foi o que fiz por volta dos 18 anos, numa tarde fria de inverno. Se bem me lembro, foi um desafio que me impusera havia já alguns anos.

Morávamos a poucos quilômetros de um aeroclube, e todos os dias observava os pequenos aviões sobrevoando a nossa casa ao aproximarem-se para o pousar. Embora já gostasse de aviação, lia muito sobre o assunto e até compreendia relativamente bem a física do voo, nunca deixava de me assombrar o fato de uma máquina mais pesada que o ar se conseguisse sustentar tão graciosamente na fina e invisível camada atmosférica, confesso que até hoje me parece um milagre. Por isso, tenho que admitir, eu morria de medo de voar.

Mas um dia criei coragem e fui até o aeroclube, decidido a fazer um “voo panorâmico”. Na chegada, a primeira impressão não foi das melhores. O prédio branco do aeroclube, ficava no alto de um monte, lembrava-me uma antiga estação ferroviária. Havia apenas um velho monomotor fora do hangar. A pista era uma larga faixa de grama entre campos de trigo. Não havia sinalização, nem luzes, nem torre de comando, apenas uma “biruta” solitária girava preguiçosamente ao sabor do vento. Era um fim de tarde gelada e o por do sol já se anunciava no horizonte, uma boa hora para voar, me garantiu a único pessoa ainda por ali àquela hora, o piloto. Então, vamos voar!

Ocupei meu lugar no banquinho de trás do Neiva, o famoso “Paulistinha” dos aeroclubes brasileiros, que tinha dois assentos em tandem, e o piloto foi dar a partida girando manualmente a pesada hélice de madeira. Ao sinal de “contato”, eu deveria acionar as chaves dos magnetos. Nada muito complicado, mas estranhei que ao passageiro coubesse aquela tarefa.

O piloto gritou “Contato!”, acionei os magnetos, o motor tossiu e se calou. Aconteceu de novo, um barulho estranho de louça quebrada, alguns engasgos fumacentos, mas o motor não virava. Ainda fizemos uma terceira tentativa infrutífera. Saltei do aviãozinho e já fui dizendo que estava tudo bem, que eu voltaria noutro dia, sem problemas. Estava claro que o avião não queria voar. Que nada, me disse o piloto, não se preocupe, o avião está a cem por cento, ele só demora um pouco para pegar porque está frio. Tanto insistiu que, sem querer passar recibo de medroso, voltei para a cabine e finalmente o motor “pegou”.

Fizemos um voo maravilhoso. Breve, mas que me pareceu uma eternidade, porque cada segundo lá em cima era fascinante para mim. O pequeno “Paulistinha” vibrava muito, contorcia-se, era barulhento e cheirava a gasolina. Tinha várias seções da fuselagem de tela remendadas, mas singrava o ar denso daquele entardecer com a altivez de uma águia velha. Pouco tempo depois do pôr do sol, quando apenas uma claridade amarelada como a chama de um lampião de querosene ainda iluminava os campos ondulados, pousamos suavemente no gramado em cujas margens algumas vacas sonolentas pastavam.

Para todos os efeitos, este foi o meu primeiro voo de verdade. Nas décadas seguintes, acumularia milhares de horas no ar, como passageiro, em todo tipo de aeronave. Mas nada se compara àquele primeiro passeio pelo céu. Foi naquele dia que perdi o medo de voar e me apaixonei definitivamente pela magia do voo.

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Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


TAGS: Douglas Aircraft Company Douglas DC-3


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