Toyota Celica TA22, a história de uma paixão

Clássicos 03 Ago 2021

Toyota Celica TA22, a história de uma paixão

Por Carlos Lourenço

A nossa história começa na minha infância como muitos rapazes da minha geração, a gostar de carrinhos, sobretudo da famosa marca Matchbox. Assim que comecei a formar as minhas primeiras palavras, segundo contam os meus pais, comecei a distinguir as marcas dos automóveis da altura, talvez por influência do meu pai que era mecânico na Transmotor de Cabo Ruivo.

Como a maior parte dos mecânicos da altura também o meu pai fazia uns biscates de mecânica fora das horas de trabalho na garagem de casa, ele e alguns dos seus colegas. Por consequência eu encontrava-me sempre no meio deles para pesadelo da minha mãe e dos meus avós que me encontravam sempre tão ou mais sujo do que eles.

Por trabalharem na Transmotor o grande forte deles eram os Toyotas, e certo dia apareceu um cliente com um lindo Celica TA22 para fazer uma reparação no motor o que se tornou um trabalho longo e delicado, então para eu não os chatear muito, o meu pai e os colegas colocavam-me dentro do automóvel para eu brincar.


Hoje fazendo uma retrospetiva creio que esse tempo foi onde desenvolvi uma paixão incomparável por esse modelo nipónico, ao ponto de durante muito tempo guardar as imagens que conseguia do modelo, sem nunca julgar ser possível possuir um.


Até porque sempre foi um modelo dispendioso para a classe trabalhadora desses tempos, a minha família era uma das poucas a possuir um automóvel no bairro o que era um luxo, e era uma simples carrinha Corolla que o meu pai tinha comprado batida e sem rodas, que andou por muito lado e agora está religiosamente guardada na garagem lá de casa, mas isso é outra história.

Alguns anos depois quando fiz 18 anos e tirei a carta com algumas economias tive de me contentar com um Fiat uno 55S com o motor partido e em muito mau estado, que como é logico tive de ajudar a reparar e a embelezar lentamente, mas o sonho sempre esteve presente e eu perseguia o com muita intensidade, até que algum tempo depois apareceu no correio da manhã um anúncio de um Toyota Celica importado de França à venda por 400 contos em Santarém.

Como é lógico os meus pais disseram que nunca me dariam dinheiro para tal, até porque não o tinham, entao eu fiz o impensável e coloquei o meu Fiat à venda, foi uma jogada arriscada pois demorou um tempinho e ainda consegui 450 contos pelo meu automóvel, o problema era se o Toyota já tinha sido vendido.


Para minha sorte telefonei e, afinal, o veículo ainda não tinha sido vendido, não perdendo tempo, combinei logo deslocar-me até Santarém no fim de semana seguinte o que na minha perspectiva demorou uma eternidade a chegar. No fim de semana lá fomos nos na velhinha KE26 até Santarém eu, os meus pais e um amigo bate-chapas.

Quando lá chegamos vi pela primeira vez o automóvel, pois os anúncios não continham fotografias, todo vermelho com umas jantes horríveis e umas saias em chapa soldadas nas longarinas. Refletindo, o automóvel encontrava-se muito modificado e com mau aspeto, mas na altura a paixão era tanta que nem me apercebi e contra os conselhos do bate-chapa adquiri o automóvel sem qualquer tipo de negociação.

Fiz logo a viagem de Santarém a Lisboa no automóvel o que acabou por se tornar uma viagem atribulada pois as folgas e a ineficácia dos travões davam muito trabalho. Assim que cheguei a casa ofereci uma volta com o meu avô, tinha que ser ele o primeiro a andar no automóvel, e foi quando as coisas começaram a correr de maneira inesperada, pelo menos para mim. Fiz um arranque e o banco do passageiro partiu, ficando o meu avô deitado, fui guardar o automóvel na garagem um pouco triste, mas com a satisfação de ter comprado o carro.


Na manhã seguinte comecei a limpar a viatura e descobri umas bolhas de ferrugem na ilharga esquerda em baixo e resolvi, com o meu pai, limpar e tratar essa zona. O sonho tornou-se num pesadelo, o podre e a ferrugem era tanta que metade da ilharga e da cava da roda desapareceram, fiquei de rastos.

Seguiram-se cinco longos anos de restauro sendo que no final deste período as únicas partes originais que ficaram foram a tampa da mala e o tejadilho, tudo o resto sendo restaurado. Durante este tempo fui mostrar o meu automóvel de sonho à minha mulher que gentilmente disse que era “muito giro”, quando na verdade não passava de um destroço.


Finalmente o veículo ficou pronto, e como nessa altura eu já andava no meio das competições de clássicos, resolvi que iria convertê-lo num carro de corrida fiel à época e à ficha de homologação. Veio mais um longo processo de desmontagem, procura e aquisição. Ao fim de uma década consegui terminar e certificá-lo como veículo de competição e voltar a circular com ele na estrada e brevemente em pista.

É um sonho de criança realizado e o mais gratificante é de ver no meu filho a mesma paixão que eu tinha pelo automóvel quando tinha a idade dele, com a vantagem do automóvel já estar na família.


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