Fim dos motores de combustão: os clássicos estão a salvo?

Clássicos 20 Jul 2021

Fim dos motores de combustão: os clássicos estão a salvo?

Por Pedro Cegonho

O cerco aperta. Os tempos são de mudança e, ao dia de hoje, todos os entusiastas do automóvel já se aperceberam de que as sucessivas medidas com vista a extinguir os velhinhos motores térmicos estão a chegar em força.

Actualmente, as alterações climáticas – sendo reais e preocupantes, sem dúvida –  são desculpa e pretexto para tomadas de decisão no mínimo precipitadas. A classe política, em vez de integrar várias fontes de energia e tentar criar um mix com o propósito de cumprir os objetivos a que se propõe, entra “a matar” e assegura que a salvação mundial são apenas e só os automóveis eléctricos, a solução única para todos os problemas ambientais existentes. Existiriam certamente outras medidas que, em conjunto com a mobilidade eléctrica, ajudariam a fazer face ao problema, mas não me vou alongar nesta matéria que já foi amplamente discutida.

Isto para dizer que, na passada quarta-feira, a Comissão Europeia propôs a redução dos níveis de emissões de dióxido de carbono para automóveis novos em 100% a partir de 2035, o que significa que a partir dessa data apenas automóveis elétricos poderão ser comercializados.


A ser aprovado o novo conjunto de medidas, depressa se conclui que este acarreta mais transformações do que as que nos ocorrem inicialmente. Afinal, a rápida mudança de paradigma e o corte radical com o passado são evidentes. O sector automóvel já teve de dar o passo em frente e orientar a estratégia das suas marcas para os novos tempos, como se percebe pelas suas campanhas publicitárias e acções comerciais onde se respiram electrões. Quanto ao mercado de usados e às redes de abastecimento de combustíveis, estas irão sofrer profundas alterações nos próximos anos.

Mas vamos à questão que nos interessa. E quanto aos nossos clássicos, que futuro para eles?

É sabido que o nicho dos automóveis clássicos tem um impacto residual no meio ambiente, pois a sua utilização é muito reduzida face aos veículos actuais utilizados no dia-a-dia. Não obstante, toda a azáfama em torno da mudança irá afectar o mundo dos clássicos e, ainda que indiretamente, poderá significar o afastamento de muitos entusiastas da aquisição ou posse destes automóveis. Existem três pontos fundamentais para que no futuro tal possa acontecer, são eles o aumento exponencial do preço dos combustíveis, impostos “verdes” que irão penalizar fortemente estes veículos e as restrições ou até proibições de circulação, cada vez mais abrangentes.

Ora, se um entusiasta dos clássicos que pretende dar uns passeios no seu automóvel ao fim de semana se vir confrontado com pesados encargos anuais com impostos, a gasolina a preços impraticáveis e não puder ir onde deseja pois a estrada onde quer circular se encontra interdita ao seu automóvel, inevitavelmente a razão é obrigada a dar lugar à paixão.

Claro que os clássicos de prestígio terão sempre lugar numa qualquer colecção, até porque actualmente muitos destes automóveis já são apenas peças de museu, com direito a meia dúzia de quilómetros rodados por década. O maior problema serão todos os outros clássicos, os mais populares, onde milhares de entusiastas não abastados, mas adoram fazer um passeio ou ir a um evento e cuidam do seu carro antigo, vão ser quase obrigados a encostá-los.

Assim voltamos à questão inicial, estarão os clássicos estão a salvo no futuro? Após alguma reflexão não estou muito optimista, mas só o futuro o dirá. É certo que existem entidades que actuam no sentido de salvaguardar os nossos clássicos, mas será que a médio prazo, mesmo com um estatuto especial, os proprietários não vão ceder à carga fiscal, principalmente ao nível dos combustíveis e às limitações de circulação? É antagónico que no futuro o condutor entusiasta tenha a sensação de cativeiro na condução do seu automóvel, quando o que sempre caracterizou esta experiência foi a liberdade associada ao acto de conduzir. Por tudo isto, é aproveitar enquanto podemos desfrutar.



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