O Karmann Ghia Frankenstein

Clássicos 23 Abr 2021

O Karmann Ghia Frankenstein

Por Irineu Guarnier

Customizações são motivos de intermináveis discussões entre antigomobilistas. De um lado, estão os puristas radicais, que não admitem nenhuma alteração mecânica ou estética nos veículos antigos. De outro, há os que gostam de mexer bastante nas suas máquinas, incorporando-lhes equipamentos e acessórios modernos: ar condicionado, direção hidráulica, injeção eletrônica, freios a disco, pinturas metálicas…Há gosto para tudo. E, com toda certeza, não existe uma verdade absoluta nesta controvertida questão. O bom senso parece ser a melhor solução para a maioria desses embates. 

Quando um bom Karmann Ghia original valia o equivalente a uns 5 mil euros no Brasil (faz muito tempo) um sujeito me ofereceu um modelo vermelho 1969 por 10 mil euros – exatamente o dobro do preço de mercado. Por que isso? Não porque o seu KG fosse excepcionalmente bem conservado ou porque tivesse algum valor histórico especial. É que ele havia “investido” muito dinheiro na “customização” do carrinho: o equipara com direção hidráulica, freios a disco, vidros elétricos, e um sistema de som capaz de fazer trepidar uma boate.

Também fizera modificações estéticas de gosto duvidoso: alargara os paralamas para abrigar rodas protuberantes, instalara um aerofólio na traseira e coisas do tipo. De fato, gastou bastante dinheiro no carro – muito mal, a meu ver. O Karmann Ghia – que é, reconhecidamente, uma joia irretocável do design automotivo mundial – havia se transformado num Frankenstein mecânico.


Abro aqui um parêntese para esclarecer que não me considero um fundamentalista da originalidade automotiva. Convivo bem com pequenas atualizações mecânicas, que possam tornar um automóvel clássico mais seguro e funcional no dia a dia. Até gosto de algumas customizações sutis, delicadas, de bom gosto, que deixam o projeto original mais bonito. Admiro, por exemplo, as belíssimas criações do designer e construtor de carros americano Chip Foose (meu sonho seria ter um carro meu “roubado” pela equipe do Foose).

Mas, voltando ao “Karmann Ghia Frankenstein”: disse ao proprietário que não faríamos o negócio, porque eu teria que gastar os 10 mil euros (ou mais) que me pedia para retirar tudo o que ele acrescentara a fim de devolver ao veículo a sua insuperável elegância original. Pronto. O sujeito se ofendeu e me acusou de não saber apreciar os “melhoramentos” feitos e a “exclusividade” do seu projeto.

Ainda tentei explicar-lhe que, se quisesse um carro com todos aqueles dispositivos modernos, eu compraria um modelo zero quilômetro ou seminovo. Que o prazer de conduzir um veículo antigo consistia justamente em experimentar a tecnologia de uma outra época. Mas não teve jeito. O diálogo se encerrou por aí. O homenzinho me virou as costas, entrou no seu Karmann Ghia grotescamente “customizado”, subiu os vidros elétricos e partiu furioso em sua máquina exclusiva.

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Fotos : Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


TAGS: Volkswagen Volkswagen Karmann Ghia


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