Uma gota num oceano de metal, a história do Rumpler Tropfenwagen

Clássicos 18 Abr 2021

Uma gota num oceano de metal, a história do Rumpler Tropfenwagen

Por Edgar Freitas

Uma das coisas mais fascinante do mundo dos clássicos prende-se com o facto de que todos os automóveis podem ser apresentados como uma história. Tal como crianças na hora de dormir, é com tamanho entusiasmo que qualquer um dos nosso assíduos leitores lê cada palavra, cada frase, como numa descoberta por algo de novo. Uma história automóvel é tal qual um conto de criança. Tudo parte de um sonho na cabeça de um artista, que exprime a sua vocação com um lápis. Ao invés de palavras, usa linhas. Ao invés de parágrafos usa esquadro. Ao invés um esboço, faz um rabisco, e é desse rabisco bruto e grosseiro que nasce a borboleta que com quatro rodas que hoje chamamos de clássico. As metáforas são provavelmente a expressão máxima do irrealismo que primeiro quebra com a monotonia da velha constante. Num oceano de metal ferrugento e linhas conservadoras rectificadas, houve quem decidisse ir para além do comum e mundano.
 

 
É invulgar olhar para o passado distante e contemplar a beleza e o inconformismo do pensamento humano. Se Deus quer, o homem sonha, e a obra nasce, este é um dos exemplos disso! O clássico que vos mostro hoje reúne no seu conceito vários diferendos, tornando-se num dos automóvel mais fascinantes de sempre. Tal como milhares de clássicos, as suas características mecânicas são aos dias de hoje obsoletas. O que dizer então da performance hilariante ou da segurança inexistente? Pois bem, um automóvel antigo não passa de um veículo arcaico. Apenas quando se conta a sua história este torna um clássico! É a história que faz bater o coração e acender a chama que ilumina aquele fragmento da extensa narrativa automóvel.
 
Hoje levo o leitor até 1921, num mundo acabado de sair de uma guerra que devastou impérios e elevou o poder das armas. Uma das armas que sofreu um avanço surpreendente foi precisamente a aviação. Todo um mundo pós primeira guerra foi mudado com os avanços criados pelo esforço em vencer a guerra das guerras. A influencia de um mundo mais «aéreo» passou também pela adopção de linhas aerodinâmicas ou «streamline» como muitos conhecem. À data de 1921, o Rumpler Tropfenwagen foi aquele que foi pioneiro na descoberta do arrasto aerodinâmico. Anos longos se passaram até surgir um modelo semelhante, e ainda hoje surge a dúvida de como aquele engenheiro conseguiu um feito desta dimensão.
 
Decorria o ano de 1921 quando o Rumpler Tropfenwagen foi apresentado no Salão de Berlim. Fruto do génio de Edmund Rumpler, ou provavelmente de inspiração divina, este automóvel diferia de tudo visto até à data. Edmund doa o seu apelido ao carro, cuja tradução é qualquer coisa como carro em forma de gota do Rumpler. O seu design é inspirado precisamente pelo formato de uma gota de água. Se pensarmos bem, uma gota de água é um fenómeno em que podemos observar as leis do universo com a maior das naturalidades, aplicando princípios como a aerodinâmica e a gravidade.
 

 
Num universo de automóveis semelhantes e de aspecto austero, são as linhas rectas que imperam. Nesta época, pouco ou nenhum esforço é dirigido à aerodinâmica, sendo os automóveis desenhados para serem ora práticos e simples, ora elegantes e faustosos. Pese embora alguns automóveis clássicos possam ter algumas linhas vanguardistas e pareçam evidenciar traços de um estudo aerodinâmico, é seguramente fruto de inspirações puramente estéticas e sem foco no conceito de aerodinâmica. Pois temos que neste automóvel, tudo foi pensado ao pormenor para reduzir o arrasto aerodinâmico.
 
Na data da sua concepção, este conceito ainda era desconhecido e negligenciado. Todo o fascínio deste automóvel prende-se com o facto de alguém se ter dedicado a resolver um problema que ninguém achava sequer existir. Os primeiros túneis de vento seriam inventados cerca de duas décadas mais tarde para uso na aviação militar. Um pouco com as pirâmides ou as cidades aztecas, a pergunta que impera é, como? Como é que apenas usando a mente humana se é capaz de alcançar tamanho nível de perfeição. Em 1921, o arrasto aerodinâmico não era uma noção quantificável, mas em 1979, portanto, 58 anos depois, o Tropfenwagen foi testado no túnel de vento da Volkswagen, atingindo um valor inimaginável de 0.28 de arrasto. Recorrendo a software especializado e testes intensivos, as berlinas de luxo atingem este valor com alguma dificuldade, e passar esta barreira já requer um investimento considerável.
 

 
A dimensão aerodinâmica é tal, que comparações têm de ser materializadas. Com um coeficiente aerodinâmico de 0.36, o Citroën DS lançado em 1955 era considerado avantgarde relativamente às suas linhas de baixo arrasto. Com o mesmo valor de 0.36 temos o Ferrari Testarossa lançado em 1986, cerca de 65 anos depois! O que torna este carro especial, é, portanto, o esforço que o seu criador Edmund Rumpler dedicou para tornar este automóvel em algo de exclusivo. Para atingir este feito, vários pormenores foram tidos em consideração.
 

 
Em primeiro lugar, as luzes passaram a ser incorporadas na carroçaria, algo de incomum na altura. De seguida, vários apêndices aerodinâmicos em forma de asas horizontais foram distribuídos pelo automóvel, que como chassis tinha exactamente a forma de uma gota de água. Para fazer frente a este constrangimento e alguma falta de linhas rectas, o condutor ocupava uma posição central, com um vidro especialmente curvo e inédito na indústria automóvel, que conferia um comportamento aerodinâmico semelhante a um avião. Podemos também observar que o teto do veículo e toda a sua carroçaria seguiam as formas do chassis, conferindo a este clássico uma elegância difícil de negar.
 

 
Alguns outros pormenores faziam deste automóvel algo de assustadoramente novo e revolucionário. O seu motor de seis cilindros em W, sim um W6, estava montado numa única unidade em conjunto com a transmissão e o diferencial, imediatamente acima do eixo traseiro. Capaz de debitar 36 cavalos, o Tropfenwagen conseguia atingir velocidades da ordem dos 110 km/h, deslocando os seus cerca de 1300 kg com imensa rentabilidade, pois o seu arrasto insignificante ditava um consumo relativamente baixo de combustível.
 
As qualidades deste carro não se resumem apenas à qualidade do seu desenho enquanto performance e economia, mas também no conforto dos seus ocupantes. Este automóvel está equipado com o primeiro par de braços oscilantes, que independentes um do outro, amorteciam as irregularidades das estradas com eficácia.
 

 
O resultado final deste automóvel era uma agradável visão do futuro. Um clássico que passados 58 anos espantou cientistas, e passado quase um século da sua apresentação ainda causa no leitor admiração e puro fascínio. A história guarda histórias que precisam de ser contadas, porque olhar só por olhar, é apenas um automóvel arcaico com um design atípico.
 
A sociedade contemporânea do Tropfenwagen não foi muito acolhedora, sendo que apenas 100 unidades foram comercializadas no decurso de quatro anos de produção. Vários pequenos ajustes foram feitos ao longo do tempo, incluindo um upgrade de motor ou até a opção de descapotável. Devido ao seu conforto acima da média e interior espaçoso, capaz de levar até sete pessoas confortavelmente, tornou-se num requisitado táxi nas grandes cidades alemãs e austríacas.
 


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