O futuro do automóvel

Modernos 16 Abr 2021

O futuro do automóvel

Por Irineu Guarnier

Já foi dito que “o automóvel é o cigarro do século 21 “. Há quem compare os danos à saúde humana e ao meio ambiente provocados pelo automóvel aos malefícios associados ao tabaco. Ou seja, daqui a pouco quem possuir um carro será tão mal visto pela sociedade que não poderá dirigi-lo perto de crianças…
 
Exagero, claro. Mas é fato que, em São Paulo, os carros despejam 97% do monóxido de carbono que polui a atmosfera, e matam quase cinco mil pessoas por ano. A capital paulista emplaca cerca de 800 novos veículos por dia – contra 500 nascimentos de bebês. E já registrou engarrafamentos de mais de 300 quilômetros. Não se pode imaginar que, a longo – ou mesmo médio – prazo tal situação seja sustentável. Não é. Algo tem de ser feito. Urgentemente. Mas, o quê?
 
São Paulo estabeleceu o rodízio de carros. Deu certo? Os paulistanos que o digam… Londres instituiu pedágios caríssimos em seu perímetro central. Reduziu em cerca de 20% o tráfego de veículos particulares na região, mas o centro da capital inglesa continua uma balbúrdia.
 
Nova York experimentou há algum tempo transformar a região de Times Square em um boulevard para pedestres, com canteiros de flores e cadeirinhas de praia. Resolveu o problema dos engarrafamentos em Manhattan? Claro que não.
 
Paris criou o sistema Vélib – bicicletas de aluguel espalhadas pela cidade. É chique andar de bicicleta em Paris. Ou de patinete. Mas a bicicleta e o patinete resolveram a confusão do trânsito parisiense? Tente contornar o Arco do Triunfo às seis da tarde…
 
Sei não, mas acho que é meio tarde para a civilização ocidental pretender banir completamente o carro das cidades. A boa notícia é que, ao contrário do tabaco, o carro pode ser “domesticado”. Mas, que ele veio para ficar, não tenho dúvida.
 
Desde que o homem adestrou o cavalo, e experimentou a liberdade proporcionada por um meio de transporte individual, qualquer modalidade de transporte coletivo, por melhor que seja, será sempre uma opção, não a única forma de deslocamento urbano. Ou alguém aí acredita, a sério, que poderemos despachar milhões de automóveis para Marte e, de um dia para o outro, transformar idosos, crianças, obesos, gestantes ou pessoas portadoras de necessidades especiais em ciclistas?
 
Ainda acho que a alternativa mais inteligente é buscar uma convivência amigável com o automóvel. Carros pequenos, leves, elétricos, movidos a hidrogênio, recicláveis, compartilhados por amigos e vizinhos, com restrições para circulação em áreas centrais, podem melhorar bastante a vida nas metrópoles do planeta.
 
Ao mesmo tempo, é claro que os governos terão de investir muito, mas muito mesmo, em transporte coletivo de qualidade. Porque, do contrário, quem puder comprar o seu carrinho não vai se espremer como sardinha enlatada em ônibus e metrôs superlotados e sujos.
 
Agora, se nada disso contentar os inimigos do automóvel, então eles devem pensar seriamente em trocar as grandes cidades por ilhas desertas ou regiões inacessíveis à roda. E viver a sua utopia regressiva com a mesma frugalidade de nossos ancestrais das cavernas.


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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