A Babel dos anúncios digitais

Clássicos 12 Abr 2021

A Babel dos anúncios digitais

Por Irineu Guarnier

Os sites de veículos usados representam um avanço extraordinário em relação às antigas seções de classificados de jornais e revistas. Isso porque permitem a visualização de um número muito maior de fotografias, até de vídeos, além de disponibilizarem mais espaço para descrições detalhadas. E ainda oferecem um eficiente canal de comunicação entre vendedores e compradores – os chats.

Contudo, uma rápida consulta à internet revela que essa ferramenta extraordinária ainda é muito mal utilizada no Brasil. Os anúncios, em geral, são muito mal escritos. Com frequência, os nomes dos veículos aparecem grafados de maneira incorreta, e alguns anúncios omitem informações importantes como o ano de fabricação e até o preço. As fotografias, não raramente, são sofríveis: fora de foco, mal enquadradas ou escuras, não permitem uma avaliação razoável do modelo à distância.

Mas nada é mais pitoresco do que certas expressões utilizadas nesses anúncios. Algumas não fazem o menor sentido; outras, são simplesmente risíveis. Por exemplo:


“Carro de médico”

O que garante que um médico seja mais cuidadoso com seu automóvel do que um engenheiro, um advogado ou um barbeiro?


“Carro de mulher”

Além de sexista, a expressão é tola: há homens mais cuidadosos com seus carros do que mulheres e mulheres mais cuidadosas do que homens. O gênero não faz a menor diferença no quesito conservação do veículo . Nem para o mal, nem para o bem.


“Carro de família”

Se a família é grande, tem crianças e cachorros e os pais são relaxados, o que garante que o interior do veículo, por exemplo, possa estar bem conservado?


“Carro de garagem”

De que adianta um automóvel ser guardado em uma garagem à noite se, no uso diário, é maltratado pelo seu motorista e não recebe uma manutenção decente?


“Carro de cinema”

O que significa? Há carros sensacionais e verdadeiras sucatas de todos os modelos nos filmes, dependendo dos enredos e dos personagens. Mais uma expressão que não diz nada.


“Único dono”

O que é preferível: o carro ter tido um único dono desleixado ou três cuidadosos?

“Baixa quilometragem”

Pouca quilometragem, acumulada em condições severas de uso e sem manutenção adequada, pode ser mais danosa a um veículo do que uma quilometragem mais alta percorrida corretamente e com manutenção feita de acordo com o manual do fabricante.


Infelizmente, sobram adjetivos vazios e faltam informações relevantes na maioria dos anúncios digitais brasileiros. Seria interessante, por exemplo, que trouxessem informações mais precisas sobre modificações mecânicas e estéticas realizadas. Um motor reformado num carro com baixa quilometragem ou uma pintura integralmente refeita em outro de pouca idade podem esconder problemas sérios. A quilometragem original, embora não seja um dado decisivo, é importante porque pode ajudar o futuro proprietário a avaliar os reparos que terá de fazer em razão da fadiga normal dos componentes. Mas, principalmente, seria bom que os anúncios já alertassem para a existência de multas ou gravames legais sobre o bem.

Fotos : Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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