O dia em que Fangio foi raptado

Arquivos 15 Mar 2021

O dia em que Fangio foi raptado

Por Bruno Machado

Em vez de deixar a Fórmula 1 no final da temporada de 1957, após o quinto título de campeão do mundo, Juan Manuel Fangio prefere ir despedindo-se ao longo de toda a época de 1958, participando em algumas provas do calendário, entre as quais o Grande Prémio de Cuba. Fangio não ganhou a corrida, nem sequer participou…

 

 

Chegados à ilha de Cuba, então dirigida por Fulgencio Batista, Fangio e o seu empresário, Marcello Giambertone ou “Giamba” como é mais conhecido, são recebidos na residência onde o General Miranda, ministro da defesa do regime, organiza uma recepção em honra do ilustre piloto argentino. A dada altura Giamba é chamado para atender um telefonema. Chegado ao telefone, constata que não está ninguém do outro lado da linha. Regressando ao salão, é barrado por dois guardas armados que o questionam sobre a sua identidade. Giamba responde naturalmente ser o empresário de Juan Manuel Fangio:

 

– “Finalmente! Apanhámos o tal espião castrista que se faz passar por empresário de Fangio!”, retorquem os militares, sendo Giamba imediatamente detido.

 

Protestando em vão, Giamba é levado para uma cela onde os militares lhe dão a ordem de retirar a gravata, o cinto e os atacadores dos sapatos. Giamba não percebe ao certo o que lhe está acontecer… até os seus “jauleiros” começarem a rir às gargalhadas à sua frente, entre os quais o amigo Juan Manuel Fangio que entretanto apareceu. Afinal, tudo isto não passara duma brincadeira muito bem organizada!

 

No dia seguinte, 23 de Fevereiro, por volta das 18h, no hall do hotel Lincoln: desta vez é Fangio que é abordado, por um homem que lhe encosta um revólver, ordenando-lhe que viesse com ele.

 

-“Pronto, já chega de brincadeiras…” responde Fangio, pensando ele em mais uma encenação, certamente a vingança de Giamba pela partida da véspera.

 

Só que o nervosismo que emana do homem e os rostos tão estupefactos quanto abatidos dos restantes amigos presentes no hotel mostram que desta vez é mesmo a sério. O indivíduo avisa ainda que caso fosse seguido Fangio e as outras pessoas presentes seriam abatidas pelos outros agentes do seu movimento, igualmente presentes no local.

 

Assim, Fangio sai do hotel sob a ameaça do revólver e entra num automóvel que o leva para um sítio desconhecido. Durante a viagem, o motorista pede desculpa a Fangio pela situação, garantindo-lhe que se não se mexer e colaborar nada tem a temer. Explica ainda a motivação desta acção: o Movimento do 26 de Julho é uma organização castrista que pretende com este rapto chamar a atenção da comunidade internacional para o movimento e a situação política cubana.

 

No hotel Lincoln, logo após o arranque do automóvel onde seguiu Fangio, Giamba corre até às portas da traseira, de onde vê os cúmplices arrancarem noutro automóvel. Não consegue ver as matrículas e precipita-se de imediato para o telefone mais próximo ligando de imediato para o número pessoal do General Miranda contando-lhe que Juan Manuel Fangio acabara de ser raptado, merecendo como reposta… uma boa gargalhada do general, o qual acaba por desligar a chamada! Desesperado, Giamba contacta então Ernesto Azua, o director da corrida, que lhe dá uma resposta idêntica: risos!

 

Poucos minutos depois é o General Miranda que telefona a Giamba. E já não se ria! Tinha sido informado da veracidade do acontecimento e procedido à delimitação dum perímetro de segurança para a realização de buscas.

 

Entretanto, Fangio é levado de residência em residência, transitando dum automóvel para outro, mas sempre com uma extrema cortesia por parte dos seus raptores. São-lhe servidas generosas refeições e a companhia mostra-se sempre muito agradável, comportando-se mais como admiradores do que como sequestradores.

 

 

A corrida mantém-se e Fangio, substituído por Maurice Trintignant, ouve o relato pela rádio. O resultado desportivo e mais propriamente a vitória de Stirling Moss são eclipsados não só pelo rapto de Fangio mas também pelo acidente do Ferrari de Armando Garcia Cifuentes que atinge mortalmente sete pessoas do público, causando ainda cerca de 40 feridos.

 

As buscas prosseguem um pouco por todo o lado. Giamba está demasiado preocupado para ficar à espera no hotel e participa igualmente nas buscas durante as quais vem a saber que a polícia tinha recebido uma mensagem dum informador, segundo a qual Fangio seria raptado às 18h. A informação fora imediatamente transmitida ao General Miranda, que desvalorizou a mesma…

 

 

Ao fim do dia, Fangio é informado que um “jantar de despedida” será organizado, pois a seguir, será levado até à embaixada argentina e assim libertado. Tal como prometido, os raptores deixam Fangio (quase) à porta da embaixada, tendo ainda a delicadeza de lhe pedir desculpa pelo incómodo! Fangio está livre, são e salvo…

 

Três meses depois, Fangio é solicitado para intervir a favor dum indivíduo chamado Moggia que fora detido pelas tropas do General Miranda. Tratava-se do agente que o tinha abordado no hotel Lincoln. Fangio não esqueceu a cortesia e a gentileza com que tinha sido tratado pelos membros do Movimento, pelo que aceita intervir junto do General Miranda do qual obtém a garantia de que a vida de Moggia seria poupada. Mais tarde, Fangio veio a saber que apesar da promessa do General, Moggia tinha sido fuzilado na sequência dum “lamentável erro burocrático”.

 

Em 1981, na qualidade de dirigente da Mercedes-Benz Argentina, Fangio volta a Cuba, reencontrando e confraternizando com os seus antigos sequestradores, agora no poder e que o apresentaram ao que era à data líder cubano, Fidel Castro.

 



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