A Rainha foi à Guerra

Arquivos 09 Mar 2021

A Rainha foi à Guerra

Por Ricardo Grilo

Revolucionário pela estrutura monobloco, pela tracção dianteira e devido à baixa altura ao solo, o Citroën “Traction Avant” começou a ser produzido em 1934, marcando novos padrões de comportamento e estabilidade. Em França, a designação “Reine de la Route” (Rainha da Estrada) revelava bem o apreço que o público tinha pelo modelo criado pela genial dupla Flaminio Bertoni e André Lefèbvre, o designer e o engenheiro-piloto de Grand Prix que, em conjunto, iriam dar corpo a alguns dos mais icónicos e revolucionários modelos do Século XX.
 
Só que em Setembro de 1939 começou a Segunda Guerra Mundial e o “Traction Avant” foi chamado para o serviço militar. De início a contragosto, pois o exército francês achava que o carro era demasiado baixo para o serviço requerido. Ainda assim, pela necessidade de transporte, foram adquiridos ou requisitados quase três centenas de “Tractions” logo no início das hostilidades. Com a invasão nazi de 1940, estes descobriram no Citroën inimigo um modelo de eleição, tendo mantido a produção até 1941 e requisitado largas dezenas para o seu serviço. Com efeito, além dos muitos que foram utilizados pela Gestapo e pela Wehrmacht na ocupação de França, os “Traction Avant” com matrícula branca começada por “WH” foram conduzidos para destinos tão longínquos como Trípoli ou Estalinegrado. Por seu turno, pelas mesmas qualidades que os nazis apreciavam, os “Traction” foram também veículos muito prezados pelos “gangsters” locais e pela resistência francesa, que usava estes Citroën sempre que possível, por vezes marcados com a Cruz de Lorena e as inevitáveis letras FFi (de Forces Françaises de l’Intérieur) traçadas a branco na carroçaria.
 

 
A foto colorida que aqui vemos apresenta uma cena dramática ocorrida algumas semanas após o desembarque dos aliados, vendo-se um Citroën Traction da Wehrmacht, com o inevitável camuflado a três cores, emboscado e imobilizado por acção de soldados de um destacamento da França Livre (os buracos das balas são bem visíveis).
 
Ferido e caído na vala, um infeliz condutor da Wehmacht aguarda o seu destino que tanto poderia passar por um hospital de campanha como por um tiro de misericórdia com sabor a desforra.
 
O Citroën provavelmente terá mudado de dono pela terceira vez, passando a ser usado pelos militares franceses ou cedido a um qualquer destacamento local das FFI.
 
Com o final da guerra, findava também a carreira militar destes carismáticos modelos da Citroën. Continuariam, no entanto, a ser fabricados até 1957. O mais interessante é que logo a seguir ao conflito passaram naturalmente a ser usados pelas autoridades do novo governo francês mas também pelas já referidas quadrilhas de “gangsters”, algumas das quais a atingirem o estatuto de mito, como o “Gang des Tractions Avant” do ex-colaboracionista e ex-resistente “Pierrot le Fou”.
 
Mas essa já é outra história…
 
Imagem colorida por Ricardo Grilo


TAGS: Citroën


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