Jean Todt: Um homem de desafios

Competição 01 Mar 2021

Jean Todt: Um homem de desafios

Por Bruno Machado

“Se quiser enviar uma cafeteira para a lua, confie o projecto a Jean Todt!”. Esta frase, que circulou no meio da Fórmula 1, bastaria para resumir o actual presidente da FIA, mas, aproveitando o seu 75º aniversário, preferimos recordar aqui o seu invulgar percurso.

Jean Todt nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1946 em Pierrefort, no sul de França. O seu pai, médico generalista, via os automóveis como meros instrumentos de trabalho para visitar os seus pacientes. Mas tal não impediu o seu filho de se apaixonar pelo automobilismo, tendo Jim Clark e Dan Gurney como ídolos. Jean Todt sonhava ser piloto, a vida levou-o para o lugar de co-piloto, quando passou a substituir o navegador habitual de Guy Chasseuil, piloto oficial NSU em França. Progressivamente, “Jean-Jean” foi conquistando uma boa reputação entre os pilotos, que o requisitavam cada vez mais, tornando-se assim co-piloto de figuras como Rauno Aaltonen, Hannu Mikkola ou Ove Andersson.


O seu rigor e sentido de organização faziam dele um elemento essencial nas equipas por onde passava, extravasando a mera navegação, quase um dirigente informal, nomeadamente, na equipa Talbot, com a qual se tornou campeão do mundo em 1981, juntamente com o piloto Guy Fréquelin.


Nessa altura, a Peugeot encontrava-se numa situação particularmente difícil a nível financeiro,  apostando no novo 205 para recuperar. A marca de Sochaux, que contava com o campeonato mundial de ralis (Grupo B) para promover o seu novo modelo, escolheu Jean Todt para liderar a equipa Peugeot Talbot Sport. E o resultado foi este: dois campeonatos mundiais de ralis com o 205 T16 (1985 e 1986), quatro vitórias no Dakar (com o 205 T16 e o 405 T16) e duas vitórias em Pikes Peak com o 405 T16.


Mas Jean Todt também é conhecido (e criticado) pelas “ordens de equipa”, em detrimento do espectáculo desportivo. O Dakar de 1989 foi um dos primeiros exemplos: os dois pilotos da casa, Jacky Ickx e Ari Vatanen, lutavam pela liderança da prova e para não comprometer uma vitória  praticamente garantida da Peugeot, Jean Todt optou por atirar uma moeda ao ar para decidir as posições entre os dois. Ganhou o finlandês.


Depois do sucesso alcançado nos ralis, a Peugeot lançou-se nas provas de resistência com o 905, que conquistou os 1º e 3º lugares nas 24 Horas de Le Mans em 1992, e monopolizou o pódio na edição seguinte. Mas esta última vitória marcou igualmente o fim da colaboração de Jean Todt com a Peugeot.


Poucos dias depois do triunfo em Le Mans, Jean Todt iniciou funções na Scuderia Ferrari, com a missão (impossível, diziam alguns) de recuperar o prestígio de uma equipa, agora desorganizada, que não ganhava qualquer título desde 1979 (pilotos) e 1983 (equipas), e com lutas internas a agravar ainda mais os resultados. As reacções dos tiffosi à contratação de Jean Todt, oscilavam entre o cepticismo (“não se vai aguentar muito tempo”) e a indignação (“um estrangeiro a dirigir um símbolo nacional como a Scuderia Ferrari?!”).


Os pilotos eram Jean Alesi e Gerhard Berger, ambos com contrato até 1995 (o que impediu Todt de contratar Senna). Com as vitórias do austríaco no GP da Alemanha em 1994 (a primeira vitória da Ferrari desde o GP de Espanha de 1990) e do francês no Canadá em 1995, vislumbrava-se alguma melhoria, mas Todt continuava sem convencer os mais exigentes. No GP de Portugal de 1995, os métodos do “piccolo Napoleone” geraram, novamente, polémica: instado a deixar passar o seu colega de equipa (pela segunda vez na época), Alesi insurgiu-se no fim da prova contra as instruções da equipa, denunciando a “Radio Todt”…


Mas apesar da tensão que se fazia sentir, Todt mantinha-se confiante, pois sabia que poderia contar com um piloto de topo para a próxima época: Michael Schumacher. O então bi-campeão do mundo já tinha mostrado o seu valor e constituía um elemento fundamental para fazer a Ferrari regressar às vitórias. Com a contratação do piloto alemão, o optimismo estava de regresso a Maranello. Talvez por isso, na esperança de colher os louros das (previsíveis) vitórias, alguns dirigentes da Ferrari procuraram livrar-se de Jean Todt no início de 1996. A atitude de Schumacher foi decisiva para frustrar essas tentativas:”Se Todt sair, eu também saio!”. Pouco tempo depois, as imagens de alegria de Todt e Schumacher no pódio do GP de Barcelona, evidenciaram uma forte ligação entre o piloto e o director. Já não havia espaço para as habituais intrigas internas.


Depois da revolução na equipa de pilotos em 1996, Jean Todt fez outra revolução, agora na equipa de engenheiros. A decisão de concentrar todas as actividades em Maranello, provocou o fim do departamento de chassis situado em Inglaterra, com a consequente demissão de John Barnard, que o dirigia. Este foi substituído por Ross Brawn, sendo que Rory Byrne chegaria poucos meses depois. O trio Schumacher-Brawn-Byrne, vitorioso com a Benetton, estava agora reconstituído, agora sob a autoridade de Jean Todt.


A Scuderia Ferrari, agora constituída em torno de Schumacher, dispunha claramente das pessoas certas para voltar a ganhar. E depois das frustrações de 1997 e 1998 , acabou por conquistar, em 1999, o título mundial de equipas. No ano seguinte, Michael Schumacher ganhou o seu terceiro título mundial e o primeiro título de um piloto Ferrari desde Jody Scheckter em 1979! Seguiram-se mais quatro épocas de domínio absoluto da Scuderia e de Schumacher, sem deixar a mais pequena hipótese à concorrência, chegando até ao extremo, como no caso do GP da Áustria em 2002 , em que a “Radio Todt” pediu a Barrichello (que liderava a corrida) para deixar Schumacher ganhar, sendo que este não precisava de tal favor para dominar o campeonato.


Depois da era Schumacher, seguiram-se ainda, mais dois título de equipa (2007 e 2008), com Kimi Raikkonen (campeão 2007) e Felipe Massa. A “missão impossível” transformara-se numa das maiores epopeias da história da Fórmula 1, com 8 títulos de equipa, 6 títulos de piloto e 116 vitórias para a Scuderia Ferrari, entre 1993 e 2009, ano em que Jean Todt deixou a Ferrari para iniciar um novo capítulo da sua vida profissional.

Em 2009, Jean Todt foi eleito presidente da FIA, funções para as quais foi reeleito em 2013 e 2017, tendo dado uma particular atenção para a segurança rodoviária (enviado especial da ONU) e as novas tecnologias, além da regulamentação das várias modalidades tuteladas pela Federação.

Numa entrevista recente, Jean Todt recordava a primeira vez que se encontrou com Enzo Ferrari, no final dos anos 60. Tinha ido a Maranello com o seu amigo Jean Guichet, piloto Ferrari e playboy habitualmente rodeado de belas mulheres. Ao recebê-los, o Commendatore manifestou imediatamente a sua surpresa ao seu piloto: “Desta vez, não vens tão bem acompanhado!”. Ai, as ironias do destino…



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