Jean Ragnotti: Espectáculo no asfalto

Clássicos 18 Fev 2021

Jean Ragnotti: Espectáculo no asfalto

Por Bruno Machado

Está tudo calmo na região do Vaucluse, no sul de França. Tudo muito pacato, sossegado, ouve-se o canto das cigarras e o tempo vai passando, assim devagar. Nada parece perturbar esta tranquilidade… e eis que surge Jean Ragnotti! Numa bicicleta a caminho da escola, ou, bem mais tarde, num Renault 5 Turbo, qualquer passagem de “Jeannot” é um show!
 

 
Jean Ragnotti, nascido no dia 29 de Agosto de 1945, de pais agricultores com origens italianas e espanholas, revela muito cedo, uma tendência para a condução “espectáculo”. Para se deslocar até à escola situada na aldeia vizinha, o pai Ragnotti oferece uma bicicleta nova ao seu filho Jean, a qual não dura muito tempo, vítima das habilidades deste enfant terrible, que a partir daí, deverá contentar-se com bicicletas de segunda mão!
 
Além do seu talento para as derrapagens, Jean Ragnotti mostra uma certa propensão para a brincadeira, como amarrar as bicicletas dos colegas de escola a uma árvore ou poste, fazendo-os cair poucos metros depois.
 
Estas características manter-se-ão ao longo de toda a carreira de Jean Ragnotti.
 
Uma carreira que se inicia em 1967, em provas regionais ao volante de um Renault 8 Gordini, participando no ano seguinte à Coupe Gordini, que viu passar pilotos como Jean-Luc Thérier ou Jean-Pierre Jabouille. O estilo de condução de Ragnotti faz dele um grande consumidor de pneus o que era financiado graças aos bons resultados obtidos! Estava lançada uma carreira, essencialmente virada para os ralis, dando nas vistas, dos espectadores e não só!
 
Assim, depois de uma série de bons resultados nos ralis regionais, é com a Opel que o jovem Ragnotti sob de patamar, terminando vice-campeão de França de ralis em 1970 no Grupo 1 e no quarto lugar do campeonato europeu. Em 1973 assina o seu primeiro contrato com a Renault, pilotando um dos dois modelos 12 Gordini (o outro é atribuído a Patrick Tambay).
 

 
Em 1978, o Renault 5 Alpine Grupo 2 chega aos segundo e terceiro lugares no rali de Monte-Carlo (com Ragnotti e Guy Fréquelin, respectivamente), à frente de todos os Grupo 4 (nomeadamente o 131 Abarth de Walter Röhrl ou o Stratos HF de Michèle Mouton), à excepção do Porsche 911 de Jean-Pierre Nicolas que vence na geral.
 
Em 1980 sagra-se campeão de França de ralis, ainda com um Renault 5 Alpine (e também com o principiante Renault 5 Turbo Grupo 4), renovando o título nacional em 1984, desta vez ao volante do Renault Turbo Grupo B. Pelo meio, vence o Monte-Carlo em 1981 e o Tour de Corse de 1982, com um Renault 5 Turbo, vencendo novamente esta última corrida em 1985, ao volante de um Maxi 5 Turbo Grupo B. E em 1987 chega a ameaçar a vitória de Markku Alen com o seu Lancia Delta HF 4WD, ao volante de um simples Renault 11 Turbo, simples tracção dianteira.
 

 
Aos 45 anos, sagra-se campeão nacional de ralis do Grupo N com um Super 5 GT Turbo em 1990 e vice-campeão de França (campeão na categoria 2L), nas épocas de 1992 e 1993 com o Clio 16s. Termina a carreira em 1995, com o Clio Maxi.
 

 
Mas o talento de Jean Ragnotti também foi visível nos circuitos.
 
Obtém o segundo lugar da Classe 2 nas 24h de Spa ao volante de um Alfa Romeo 2000 GTV e vence nas 24 horas de Nürburgring na Classe 2 com um Opel GT, no ano de 1972, mostrando que Ragnotti é um piloto completo.
 
Inicia-se ainda nos monolugares, como piloto de Fórmula 3 pela equipa Martini (depois March) em 1973, seguindo-se o campeonato de protótipos (com a March), regressando aos monolugares com a Fórmula Renault em 1975, lutando pelo título com pilotos como René Arnoux e Didier Pironi (termina em 2º lugar). Os resultados obtidos despertam o interesse de Ken Tyrell (conhecido pela sua intuição para detectar novos talentos) que lhe propõe um teste na Fórmula 1. Uma proposta irrecusável… que Ragnotti recusa, a sua preferência pelos ralis é mais forte.
 
Em 1976, faz uma nova época de Fórmula Renault (sem o brilho da época anterior), mas participando ainda em alguns ralis ao volante dos Alpines A110 e A310. No ano seguinte, domina a época de ralicross com o A310 e acaba em 4º na geral (1º lugar na categoria) nas 24h de Le Mans com a Inaltera-Rondeau, resultado que repete em 1978 com o Renault-Alpine A442 (carro vencedor com Jean-Pierre Jaussaud e Didier Pironi).
 

 
Participa ainda no campeonato francês de Production (um DTM à la française) a partir de 1986, ao volante de um Renault 5 Turbo e depois com um 21 Turbo Quadra, em 1988 (campeão) e em 1989 (vice-campeão), no então denominado Superproduction.
 
A recordação que as suas passagens deixaram nos espectadores, assim como os vídeos disponíveis na internet, que permitem aos mais novos descobrir o talento deste piloto, fazem com que Jean Ragnotti seja visto como uma lenda dos ralis. Um piloto generoso e talentoso!


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