A história do Alba vermelho

Clássicos 13 Jan 2021

A história do Alba vermelho

Por Francisco Lemos Ferreira

Ficam para memória futura muitas das conversas que tive com António Augusto Martins Pereira, criador do automóvel português Alba.

No Natal de 2008, conforme combinado, toquei à campainha da primeira casa à entrada de Albergaria e abre-me a porta António Augusto com um sorriso aberto. Efusivamente voltávamos aos Alba. Desta vez passámos ao segundo Alba a ser construído, o TN-10-82, que se encontra actualmente numa colecção particular para os lados da Costa do Estoril.

Quando foi construído o TN? No fim de 1952 começou a sua construção e acabámos o carro no verão de 1953. O carro era para quem? Para o Noémio Capela que gostou do OT e encomendou um.




Ele foi o principal responsável pela construção deste carro pois foi ele que o pagou. E correu com ele? Sim, pelo menos no Rainha Santa correu, pois fizemos equipa os dois: eu no OT e ele no TN. Eu fiquei em terceiro lugar e ele em segundo, cada um na sua categoria. (No III Rali Rainha Santa em Coimbra, em Julho de 1954, e foi a única prova que fez com o carro). Tenho aqui uma foto dos dois Alba na I Taça Cidade do Porto em 1953.

Quem ia correr com ele era Manuel Nunes dos Santos, mas o Ângelo disse que o motor do carro ainda não estava em condições e nem sequer participou nos treinos. No ano a seguir, quem correu com ele no Porto foi Elísio Melo.


Portanto o TN nunca foi seu? Não, era do Capela, mas éramos amigos e sempre fez questão que o carro fizesse parte da equipa Alba e assim eram dois Albas a participar nas provas, tanto de regularidade, como de velocidade. E no circuito de Monsanto? O Chico foi com o meu (OT) e o Noémio Capela emprestou o dele (TN) ao Castro Lima . O Alves Barbosa, amigo da Malaposta, também chegou a correr com esse Alba (TN) em Monsanto (mais à frente falaremos com Manuel Alves Barbosa acerca dos Alba).


Este carro foi feito pelas mesmas pessoas do OT? Sim, eu o Côrte-Real Pereira e o Ângelo Costa, mas a carroçaria era diferente da do OT. A frente principalmente. E pintado da mesma cor? (A cor das cadeiras do Cineteatro Alba). Sim, o mesmo amarelo. Mas este carro não foi do Côrte-Real Pereira? Foi. Acho que o comprou em 1960. Ponho duas fotos do TN em cima da mesa da sala de jantar enquanto António Augusto chama a Mimi, sua esposa Maria Emília, a dizer que estou lá em casa.

O TN teve duas frentes ou duas carroçarias? Foi o Chico que o alterou depois de o comprar. Estava sempre a inventar. O carro agora acho que tem motor Fiat 1100, sem a potência que tinha quando foi feito. Tinha quatro velocidades e dava 180 km/h. Então foi ele que cortou o habitáculo? Deve ter sido. Ele era muito alto. A carroçaria feita lá na fábrica era normal. Não tinha nada disso. (A carroçaria do TN tem uma particularidade: o habitáculo foi cortado, e o lugar do piloto é bastante mais recuado que o lugar do pendura).


Foi o TN que correu em Vila Real? Não. Foi o que o Chico construiu (LA). O TN teve uma capota? Teve. Foi o Baltasar Vilarinho que a adaptou depois de comprar o carro ao Capela, mas aquilo não ficava nada bem. Apareceu com a capota na Volta ao Minho. Correram três Alba: o meu (OT) o do Chico (LA) e o do Baltasar (TN), mas só eu e o Chico é que éramos pilotos de fábrica. No OT também cheguei a fazer um plano para um hard-top em alumínio, mas não o cheguei a produzir.

Francisco Côrte-Real Pereira, sozinho, desenvolve e constrói, em 1955, na sua garagem o terceiro Alba, o LA-11-18 (de que falaremos na próxima parte) e pinta-o de vermelho, o que o distingue dos outros, além da frente com uma grelha distinta. Grande amigo de António Augusto, mantém o nome Alba no carro com um motor Alfa Romeo de seis cilindros.

Quando comprou o TN a Baltazar Vilarinho (fez a estreia do carro na segunda Volta ao Minho organizada pelo Sport Club do Porto) que o havia comprado a Noémio Capela, retira a carroçaria do LA e adapta-a ao TN e, posteriormente, terá construído outra igual (que ainda hoje está no carro). Este então aparece no Rali Nocturno do Salgueiros, em 1961, com uma nova frente e com um novo motor Peugeot (actualmente terá motor Fiat 1100, obra do actual proprietário para o tornar mais utilizável fora de competição).

A mudança de motores era vulgar na época, em busca de melhores performances, e Côrte-Real Pereira fazia-o com enorme facilidade. Foi ele o último a pilotar um Alba em competição, o TN, e terá sido ele a pintá-lo de vermelho como tinha feito com o LA. Aproximava-se a hora de jantar e demos mais um abraço e fiquei de, na Páscoa, passar lá para lhe oferecer folar mal cozido. António Augusto, contrariado, acabou por concordar com um aceno de cabeça.


Neste juntar de peças sobre os Alba, chega-me o testemunho de João Paulo Ferreira, entusiasta de clássicos residente em Lisboa, sobre o TN-10-82: “Em 1976/77 apareceu à venda num stand de veículos usados na Avenida Álvares Cabral, em frente ao Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, um pequeno carro antigo vermelho, de carroçaria aberta, de que eu desconhecia a marca. Foi-me dito pelo proprietário do stand que se tratava de um Alba, pequeno carro de corrida de fabrico Nacional, que tinha pertencido ao Conde de Monte-Real.”

“O carro era construído em alumínio sobre um chassis Fiat e tinha um motor Peugeot 203 muito modificado, tinha a particularidade de ter o banco do condutor recuado na carroçaria relativamente ao do pendura. Era um carro de corrida, concebido para andar em pista e, portanto, não tinha capota, limpa vidros, travão de estacionamento, luzes de mudança de direcção nem de cruzamento. Apesar de não estar restaurado e não de trabalhar há bastante tempo, apresentava-se em bom estado de conservação, a única peça danificada era o volante que estava partido, faltando a parte superior do aro.”

“O preço eram 30 contos. Eu, que era estudante naquela época, andei durante meses a tentar convencer o meu pai a comprar o carro. Finalmente ele concordou, mas na condição do carro ser observado antes por um mecânico. Consegui marcar, para uma segunda-feira, uma visita do Senhor Tó que nos arranjava os carros lá de casa, e que dizia ter dado assistência aos Alba nas corridas quando era novo. Pedi no stand que pusessem o carro a trabalhar para o podermos experimentar. Infelizmente, nesse fim-de-semana, o meu irmão teve um acidente com o carro da família e na segunda-feira a prioridade foi outra.”

“Quando finalmente pude passar no stand, o Alba estava à porta e o homem disse-me que já o tinha vendido. Tinha-o tirado para a rua na segunda-feira como combinado e, como não aparecemos, vendera-o a um senhor que entretanto o viu à porta do stand. Foi um desgosto. Nunca mais soube o que fora feito do Alba TN-10-82, até que um dia, em conversa com um conhecido meu, este me diz que tinha comprado um Alba nos anos setenta, num stand da Avenida Álvares Cabral. Ele não tinha qualquer interesse no carro, mas sabia que ia agradar a um amigo que por sua vez tinha um quadro que lhe interessava a ele. Assim, o Alba foi trocado por um quadro, e que eu saiba ainda se encontra na posse do mesmo proprietário.”


O Alba TN-10-82 teve novas aparições em eventos de clássicos em 1996, no Estoril, em 2001, no Salão Automóvel na Moita, em 2009, na exposição de Automóveis Portugueses do Museu do Caramulo e em 2014, na exposição do Museu de Oeiras do CPAA.


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