Alba, da estrada para as pistas

Clássicos 06 Jan 2021

Alba, da estrada para as pistas

Por Francisco Lemos Ferreira

Ficam para memória futura muitas das conversas que tive com António Augusto Martins Pereira, criador do automóvel português Alba.


António Augusto em discurso directo: no dia em que o motor trabalhou, o Albérico e o teu avô Francisco vieram disparados de Lisboa para ver a obra. No primeiro ensaio, fixámos o motor na bancada e adaptámos uma panela da fábrica como volante do motor.



Como foi feita a carroçaria do OT? Quem a desenhou? Essa e as outras foram feitas à mão com martelo e encontrador. Eu fiz vários esboços e o José Marques, que era o desenhador, aperfeiçoou e desenhou as linhas.


Porque é que o automóvel foi pintado de amarelo? Não me lembro bem, mas sempre gostei daquela cor. Também pintámos as cadeiras do cinema e os bancos com a mesma cor e outras peças feitas lá em cima na fábrica.

A bateria ficou dentro do habitáculo do lado direito dos pés do pendura, porquê? Por uma questão de espaço e mais fácil acesso. Deu muito jeito quando houve um curto-circuito e o carro teve um princípio de incêndio numa prova com o Chico (Circuito da Boavista).


O automóvel foi praticamente feito à mão na fábrica, em que ano? Sim, o Alba foi feito durante o ano de 1952 à moda antiga. Até veio cá um engenheiro alemão da Bosch de propósito para ver o motor e fazer os distribuidores adequados.

O ganso pintado no OT, que significado tem? Nenhum especial. Um dia ia a passar na fábrica e esse desenho estava em cima de uma secretária. Gostei e pedi para pintar no carro. Acho que foi o Ângelo que desenhou (Ângelo Costa, um dos construtores do motor Alba).


Quando foi a primeira prova do Alba? Em 1952? Sim, em Agosto ou Setembro. Foi em Vila do Conde com o Chico (Francisco Côrte-Real Pereira).

Qual a vitória mais importante do Alba? Foi com o Chico no Porto, com o FAP a falhar por todos os lado. (O Alba ganhou a Taça Cidade do Porto na categoria Sport de pequena cilindrada até 1100cc). A partir daí já se começou a falar no Alba em todo o país, além dos FAP e DM.


Reparei nas fotografias antigas e o carro não tinha a entrada de ar no capot como tem hoje, porquê? O motor tinha alguns problemas e até lhe desenhei um circuito de lubrificação exterior. Antes de ir a Guimarães (Rali de Guimarães de 1955) fizemos a entrada de ar para arrefecer melhor.


Quem pilotou em Guimarães? Eu! E ganhei! Com o motor Alba? Sim. Aí venci na classe e ganhei também à geral no Rali do Vinho do Porto na Régua e no Rali da Mundial em Lisboa. E circuitos? Nunca fiz, quem os fazia era o Côrte-Real Pereira: o da Boavista e o Circuito de Monsanto, mas nunca ganhou (ficou em 5º lugar no circuito de Monsanto).


A sua amizade com o Côrte-Real Pereira era grande? Sim. Ele era daqui (Freguesia da Branca, Albergaria-a-Velha). Era um grande amigo, excelente piloto e mecânico. Era muito activo e estava sempre a inventar. Morreu numa corrida em Angola. Foi um desgosto. Também construiu lá um carro com o Emílio Marta. (O Marta Real com chassis de base Lotus em Y).

Francisco Côrte-Real Pereira faleceu num acidente a 15 de Agosto de 1970 em Sá da Bandeira (Huíla) ao volante do seu Lótus nas “3 Horas da Huila”.


De salientar que António Augusto de Lemos Martins Pereira e Francisco Côrte-Real Pereira foram os principais pilotos da Alba que também foram pilotados por Manuel Alves Barbosa, um grande campeão da motonáutica, com quem falaremos sobre os Alba mais à frente, Noémio Capela, Elísio de Melo, Baltazar Vilarinho, Castro Lima e Manuel Nunes dos Santos. Demos um abraço e ficámos de nos encontrar no Natal em Albergaria.


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