Alba, o automóvel português que veio de Albergaria

Clássicos 30 Dez 2020

Alba, o automóvel português que veio de Albergaria

Por Francisco Lemos Ferreira

Ficam para memória futura muitas das conversas que tive com António Augusto Martins Pereira, criador do automóvel português, Alba.


As Fábricas Metalúrgicas Alba surgem em Albergaria-a-Velha, em 1921, com o nome e Fundição Lisbonense pela mão do Comendador Augusto Martins Pereira. Na sua juventude, António Augusto Martins Pereira, neto do fundador, em conjunto com o seu amigo Francisco Côrte-Real Pereira, idealizaram e conceberam um automóvel inteiramente fabricado em Portugal com a particularidade de o motor de alumínio de quatro cilindros ter sido feito em molde de areia na fundição de Albergaria. Motor esse que, com duas árvores de cames à cabeça, duas velas por cilindro e dois carburadores Solex, dava ao Alba a potência que se pretendia.


Pela ligação do meu avô materno à família Martins Pereira e à fábrica Alba, de que era representante em Lisboa, tive desde miúdo ligação uma forte ligação à fábrica, ao Alba e à família Martins Pereira. Tenho frescas as memórias das tardes passadas na fábrica dentro do Alba, enquanto o meu avô tratava dos assuntos de trabalho. António Augusto Lemos Martins Pereira, amigo pessoal do meu avô Francisco, desde cedo se sentiu atraído pelas corridas de automóveis.

Após várias visitas a salões internacionais e observando o que os chamados “construtores de garagem” iam fazendo, idealizou e construiu o Alba. Um modelo pensado para competição, com evoluído motor de 1500cc. De salientar que existiram cinco Alba e até agora falámos do primeiro a ser construído, o OT-10-54, o único que correu com o motor Alba e que actualmente se encontra à guarda do Museu do Caramulo.

Este Alba, “Albinha” era como lhe chamavam em casa, começou a ser construído em 1951 para António Augusto ter um carro ao seu estilo, que lhe permitisse participar em provas.A estreia do Alba em competição acontece em 1952 no 3º Circuito de Vila do Conde, para espanto geral. O desenho era ao estilo da barchetta Gordini e montava jantes raiadas Borrani, provenientes de um Simca, em contraste com as jantes de aço dos concorrentes da época. Nas muitas tardes que passámos juntos após o meu regresso a Albergaria, fui recolhendo em vídeo muitos relatos para memória futura.

Esta primeira conversa aconteceu no início do Verão de 2008, numa tarde em Albergaria. Por força da idade, demos um passeio até à farmácia e, sempre em amena cavaqueira fomos regressando ao passado. Foi para mim um prazer e uma honra o facto de Martins Pereira me ter concedido testemunhos para memória futura, ele que nos deixou em Janeiro de 2013.


A primeira questão é quantos Alba foram produzidos? Cinco.

Quantos tinham motor Alba? Um. O OT que está no Caramulo é meu, mas já não tem esse motor. Tem motor Fiat ou Simca já não sei (ED: trata-se efectivamente de um motor Simca de 1098cc).


Como surgiu o projecto do Alba? Estava farto de ver os Porsche passar por mim. Com este motor já me batia taco a taco com eles. Comprei um Fiat 1100, levei-o para a fábrica e desmontei-o todo. Encurtei a distância entre eixos de 2420 mm para 2200 mm, reforcei o chassis e baixei o centro de gravidade. Fiquei com um carro ao meu gosto para fazer rampas e circuitos, com um arranque que deixava os Porsche para trás. Os primeiros cem metros eram sempre meus.

É verdade que o habitáculo foi cortado por causa do tamanho do Côrte-Real? Não, o carro foi construído assim. Ele e o Ângelo eram excelentes mecânicos. O do TN foi feito à medida do Francisco Corte Real Pereira.


Porquê a cessação da construção dos veículos? E porque não foram comercializados a particulares?

Isto, antes de mais, era uma diversão e distracção para mim e não tinha a ideia de criar uma fábrica de automóveis.


O Alba que correu em Vila Real tinha um motor 1500? Este motor era um Alfa Romeo 1750 de um 6C com a cilindrada reduzida para 1500? Não. O do Côrte-Real Pereira era de um Peugeot 203 e andava menos que os outros. O motor não tinha a estaleca dos Fiat e muito menos do Alba. O motor Alba gastava pouco – talvez 7,5 litros – e atingia 185 km/h e embalado talvez 200 km/h. Com 70 cv.

Este automóvel fez a sua última prova em Vila Real? Acho que sim.

Quem foi o seu último proprietário? Não me lembro.


Há um Alba vermelho? Há, de um ex-oficial do exército. Está em Almada ou no Seixal. Aqui há tempos deu uma entrevista na televisão e aparecia a andar no carro. O Alba vermelho TN-10-82 é o que tem o tal corte feito pelo Côrte-Real Pereira.

O motor Alba ainda existe? Existe. Está na minha garagem (risos), mas roubaram- -me os carburadores e os distribuidores Bosch. Vieram cá os engenheiros da Bosch de propósito.


Que carburadores tinha o motor Alba? Solex 36.

O único que é todo Alba é o OT? É. Dos outros quatro, dois tinham chassis Alba e dois chassis Fiat adaptados, porque a distância entre eixos era menor. O meu tinha chassis Alba mais largo, para as rodas de raios. Tinha outra estabilidade e andava mais. Era o carro de fábrica (risos). Com ele, com o motor Alba, corri os dois Ralis de Guimarães em 1955 e na Régua fui vencedor absoluto. Com o motor feito lá em cima (na fábrica) já não tinha grande medo dos Porsche. Lembro-me de passar tardes sentado no OT na garagem da fábrica. Bons tempos, Francisco! A seguir fomos até a garagem onde está o motor Alba, ficamos a contemplá-lo e a reviver emoções. Era sua intenção dar-lhe vida novamente. Demos um abraço e ficou combinado um almoço em Agosto, na Costa Nova.

Como tinha ficado combinado, voltámos a encontrar-nos na Costa Nova do Prado, num fim de tarde do início do mês de Setembro de 2008. Voltámos à conversa sobre o Albinha, o verdadeiro Alba, OT-10-54. Como já falámos na edição anterior, foi o único que correu com o motor Alba de quatro cilindros, 1500cc, duas árvores de cames à cabeça, duas velas por cilindro, distribuidores movidos directamente pelas árvores de cames e bloco e cabeça em alumínio, com caixa de quatro velocidades.


Ainda relativamente ao motor como lhe surgiu a ideia? Eu, o Chico e o Ângelo estudámos várias hipóteses dentro dos 1500cc (de acordo com as novas exigências do ACP, que vieram alterar completamente as corridas), pensámos modificar um motor Alfa Romeo que o Côrte-Real Pereira tinha (do 6C com 1750cc e que veio a utilizar no 3º Alba o LA-11-18 que abordaremos mais à frente), um motor Volvo (Bloco do PV444), fizemos uma consulta de mercado, mas sempre tive preferência pelos motores italianos que tinham mais potência e falei com a Maserati, que me pediu oitenta contos por um motor. Eu respondi: “Por esse preço ou mais barato faço eu aqui um na fábrica!”, e fizemos!

Neste momento, António Augusto abre a carteira e tira, cuidadosamente, três fotos já devoradas pelo tempo, do magnífico motor Alba em cima da estrutura original que ainda estava na garagem da sua casa e a foto do grupo que construiu o motor.

Da esquerda para a direita, Arlindo, o “Espanhol”, que era o encarregado dos fornos, António Augusto Lemos Martins Pereira, Carlos Miranda o electricista, que chegou a pilotar um Alba mas despistou-se e ficou por aí, Moura que foi quem desenhou o motor, Arnaldino, encarregado geral da fundição, Decort Coutinho o torneiro, Alberto Barreiro o serralheiro; Francisco Corte Real Pereira, mecânico e piloto e Ernesto Tavares da Silva “Pisco”. Faltam aqui o José Marques o designer da carroçaria e Ângelo de Oliveira e Costa, o mecânico do Porto, responsável pela afinação do motor Alba nas provas.


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