Fiat Panda 4x4: O todo-o-terreno Alpino

Clássicos 13 Out 2020

Fiat Panda 4×4: O todo-o-terreno Alpino

Por Pedro Fernandes

O Fiat Panda 4×4 define-se como um exemplo de excelência no campo dos pequenos automóveis com grandes aptidões. Acessível, simples e resistente, o bem-amado modelo da grande construtora italiana provou que um todo-o-terreno não teria necessariamente de ser dispendioso para se provar eficaz.

O Panda iniciou produção em 1980, tendo existido duas versões da primeira geração do modelo. Produto da imaginação do respeitado engenheiro Aldo Mantovani e do lendário designer Giorgetto Giugiaro (criador do DeTomaso Mangusta, Iso Grifo, BMW M1, DMC DeLorean e vários outros ícones da história automóvel), o Panda tinha como propósito ser um automóvel tão acessível e popular quanto o seu antecessor, o Fiat 126. A quando do fim de produção de ambos os modelos, tanto o 126 como o Panda acabaram por ver produzidas, respectivamente, quase quatro milhões e meio de unidades; logo, o (então) novo carro do povo da Fiat cumpriu certamente o seu propósito.


Em 1983, o Panda aventurou-se por um novo e desafiante território, o da tracção às quatro rodas, tendo sido o primeiro automóvel do seu segmento a fazê-lo. Quando o Panda 4×4 se estreou, os primeiros exemplos vinham equipados com motores de 48 cavalos directamente derivados das unidades que propulsionavam os Autobianchi A112. Aliás, os motores Fiat da denominada Série 100 equiparam um grande número de modelos desde os Fiat 600 e 850, passando igualmente pelo 127, Cinquecento, Uno e até mesmo – em alguns mercados – o Seicento já em finais da década de 90. Em 1986, um upgrade às motorizações do Panda (base e 4×4) concretizou-se com a utilização dos populares e duradouros motores FIRE de 1.1L e 50 cavalos.

O sistema de tracção às quatro rodas do Panda foi idealizado e produzido pela Steyr-Puch. A bem conhecida companhia Austríaca tem uma longa história de sucesso neste campo, tendo sido responsável pela criação e construção do prolífero veículo militar Pinzgauer (4×4 e 6×6) e pelo desenvolvimento do Puch G, modelo que se viria a designar como Gelandewagen, sendo mais conhecido como o popular Classe-G da Mercedes-Benz. O sistema 4×4 do Panda é simples mas engenhoso, podendo ser activado apenas quando o condutor necessita; em condições normais, o Panda 4×4 funciona apenas com tracção dianteira. O pequeno Fiat foi verdadeiramente pioneiro no campo dos económicos com capacidades todo-o-terreno, tendo sido o primeiro automóvel de motor transversal a ser dotado de sistema de tracção às quatro rodas.


A funcionalidade do Panda 4X4 perante condições desafiantes, especialmente neve e gelo, aliada ao charme inegável do compacto italiano, acabaram por garantir que este encontrasse lugar de destaque em uma das localizações mais carismáticas do velho continente: os Alpes. Férias de inverno em St. Moritz são um marco do turismo de luxo na Europa desde os finais do século XIX. Johannes Badrutt iniciou trabalhos no que viria a ser o Kulm Hotel St. Moritz em 1856, dando pouco depois origem ao turismo de inverno quando convenceu turistas ingleses de verão a permanecerem nos Alpes até à primavera. A partir de então, o belíssimo cenário natural e os desportos de neve têm sucessivamente atraído visitantes à região, muitos dos quais consideravelmente abastados. Um desses visitantes era Gianni Agnelli, o patriarca da família que controlava o vasto e influente império Fiat. Giovanni “Gianni” Agnelli, neto de Giovanni Agnelli, fundador da Fiat, tomou as rédeas da companhia em 1966, tornando-se rapidamente no industrial mais poderoso de Itália e um dos mais influentes do mundo.  Agnelli era igualmente playboy e bon vivant de fama internacional assim como reconhecido ícone da moda masculina; o estilo, gostos e tendências de Agnelli desencadeavam repercussões tangíveis pelas atitudes da alta sociedade que o rodeava, tanto em Itália como em retiros do jet set pela Europa; tal era certamente o caso de St. Moritz e, sem surpresas, a influência de Agnelli estendia-se igualmente ao gosto em automóveis.

Detentor de uma colecção invejável que incluía (entre muitos outros) modelos únicos como um Lancia Delta Integrale Spider, um Fiat 130 Coupe Shooting Break, um Ferrari Testarossa Spider e um Ferrari 365 P Berlinetta Speciale de três lugares e volante ao centro, o que conduzia então o carismático magnata nas escapadelas de inverno aos Alpes? Nada mais que um Panda 4×4. Agnelli era aliás um grande admirador do modelo e possuía, pelo menos, 11 Pandas distribuídos pelas propriedades e estâncias de montanha, campo e praia que frequentava, incluindo um exemplar dos raríssimos Panda Moretti Rock, um automóvel aberto (com opção de hardtop ou lona) de configuração quase ao estilo pick-up, mas mantendo o assento traseiro.  Ao contrário dos exóticos na coleção do industrial, o Panda 4×4 Trekking de 1993 que Agnielli reservara para serviço em St. Moritz definia-se como ideal às condições exigentes dos Alpes. A boa capacidade fora de estrada providenciada pelo sistema de tracção às quatro da Steyr-Puch associada à leveza do Panda conferiam ao pequeno automóvel potencialidades acentuadas perante os desafios colocados pela neve e gelo, aptidões que não passaram despercebidas ao patrão da Fiat. Este continuaria a conduzir o Panda 4×4 nos Alpes até 2001, data na qual a saúde física e mental de Agnelli já começara a declinar.


Graças à influência exercida pela figura glamorosa do magnata, no início da década de 90 o Panda 4X4 estabeleceu-se rapidamente como o todo-o-terreno de excelência para os visitantes da alta-roda à região. Contudo, não foi apenas junto das camadas mais abastadas que o automóvel encontrou sucesso. Na Itália, este modelo foi adoptado pela polícia e até pelo exército, com a versão Furgonetta a ser utilizada na configuração de ambulância por diversos serviços de emergência e a versão Van a constituir um veículo de trabalho muito atractivo para transporte de pequenas cargas em áreas mais remotas. Na Suíça, longe de se confinar ao papel de transporte de turistas entre hotéis e pistas de ski, o Panda 4X4 foi utilizado pelos correios para distribuição de correspondência e pelos serviços de resgate de montanha. Os próprios agricultores alpinos tornaram-se adeptos incondicionais do pequeno Fiat, não sendo incomum encontrar exemplos do Panda 4×4 ainda em “serviço” diário na região na actualidade. Simplesmente, nunca surgiu melhor alternativa à combinação preço/capacidades oferecida pelo modesto todo-o-terreno. Além do mais, os baixos custos associados à manutenção destes automóveis, resultado de uma mecânica geralmente bastante fiável e da pronta disponibilidade da maioria das peças de substituição, garante que a opção de manter os Panda 4×4 em circulação se defina como não excessivamente dispendiosa e, portanto, fácil de tomar. Será contudo relevante ressalvar que o maior inimigo dos Panda é, usualmente, a ferrugem, com as portas a constituírem as primeiras vítimas, seguidas (entre outros) do fundo da mala, elementos da suspensão e, derradeiramente, o próprio chassi, sendo muito relevante para qualquer possível interessado num destes automóveis uma atenção especial a estes elementos.


Ao longo da sua produção, o Panda 4×4 contou com uma série de edições especiais dotadas de diferentes cores, gráficos e acessórios para o interior e exterior. Em 1985 surge o Nuova Panda 4×4 (também designado Edizione Limitata); em 1987 chegam ao mercado o Val d’Isére e o Brava; o Piste Noire, disponível apenas em preto – como seria de esperar – encontrou-se à venda entre 1988 e 1989, ano em que o Trekking começou igualmente a ser produzido; 1990 introduziu o CLX e 1991, o Gianni; a versão Country Club surgiu em 1992. Em 2002, o Climbing torna-se a última edição especial do Panda 4×4 a  estar disponível para o público. Várias destas edições foram disponibilizadas em diversos anos no decorrer do longo período de produção do automóvel (1983-2002), mas a variante mais reconhecível do pequeno todo-o-terreno para o público português será, provavelmente, o Panda 4×4 Sisley. Introduzido em 1987, de acordo com o Clube Pandista Português, este modelo encontrava-se disponível apenas em quatro cores: bordeaux, cinzento quartzo, azul agadir e verde tropical; especulamos que esta última cor terá sido, provavelmente, a escolha mais adoptada pois atualmente continua a não ser incomum encontrar belíssimos Sisley “verde tropical” de jantes brancas a circular nas estradas nacionais.


O Panda 4×4 permanece, em alguns círculos, tão popular hoje como o era há três décadas. Aliás, em 2019 deu-se o primeiro encontro Classic Driver Panda 4×4 em St. Moritz, no qual diversas variantes raras do pequeno Fiat estiveram presentes, um testemunho da popularidade duradoura deste modelo. 2020 só não assistiu à segunda edição do evento devido aos motivos de força maior que levaram ao cancelamento de quase todas as actividades desta natureza.  


TAGS: Fiat Panda 4x4


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