Clássicos 14 Set 2020

Alfa Romeo Duetto: O spider italiano conquista Hollywood

“It is a very forgiving car. Very pretty, too”. Assim fala do Duetto um excepcional gentleman driver: Steve McQueen, convidado no verão de 1966 pela Sports Illustrated a experimentar o spider italiano, entre outros fast friends. O automóvel testado é um dos primeiros Alfa Romeo 1600 Spider desembarcados nos Estados Unidos depois da estreia no Salão de Genebra, poucos meses antes. A opinião de McQueen abarca a essência do Duetto e a unicidade da Alfa Romeo: prazer de condução e beleza em estado puro.

É um parecer abalizado, mesmo tecnicamente. Steve McQueen é coleccionador de super-desportivos e piloto hábil, capaz de classificar-se em segundo, na respectiva categoria, nas 12 Horas de Sebring de 1970, fazendo equipa com Peter Revson.

Um ano depois, quem está ao volante do Duetto é Dustin Hoffman, que corre a toda a velocidade ao som das músicas de Simon & Garfunkel no inesquecível “A Primeira Noite”. Imagens que fazem parte da história do cinema e que dão origem a um filão: o Duetto é utilizado como carro de cena em centenas de obras do pequeno e do grande ecrã e torna-se um “objecto de culto”. Também o campeão mundial de pesos-pesados Muhammad Ali deseja um Duetto: recuperando o seu mote “Float like a butterfly, sting like a bee”, personaliza-o com a matrícula “Ali Bee”.

E assim começa a carreira do Duetto em direcção ao estrelato. Mas vamos dar um passo atrás para ficar a conhecer as suas origens: a inovação técnica do Giulia e o fascínio do Giulietta Spider.


Nascido para descobrir a América

Também na história do Giulietta Spider há um protagonista de nome Hoffman. Não Dustin, o actor, mas sim Max Edwin Hoffman: ex-piloto de competição, forçado pelo nazismo a trocar a Áustria pelos Estados Unidos, torna-se, em poucos anos, o importador americano de referência para as Marcas europeias.

Max é muito mais que um simples “comerciante”: é um profundo conhecedor do mercado. Orienta as políticas comerciais, encomenda modelos específicos, sugere variações de estilo – e, com os seus conselhos, contribui para a criação de alguns dos automóveis desportivos mais admirados de sempre. Entre os quais está o Giulietta Spider.

Para Hoffman, o Spider é uma obsessão. Começa a pedi-lo à Alfa Romeo em 1954, logo a seguir ao lançamento do Giulietta Sprint. Sente que pode tornar-se o automóvel perfeito para a Costa do Pacífico – e sabe que, em Hollywood, todos vão querer um. Está tão certo do sucesso que diz-se disposto a comprar várias centenas de viaturas ainda antes de ver os desenhos definitivos.


A “Bella Signorina”

Hoffman consegue convencer Francesco Quaroni e Rudolf Hruska, e o projecto arranca. O estilo é posto a concurso entre dois designers do momento: Bertone e Pinin Farina. Bertone apresenta uma versão extrema, filha do protótipo “2000 Sportiva” de Franco Scaglione: frente pontiaguda, faróis englobados na carroçaria, aletas traseiras. A proposta de Pinin Farina é desenhada por Franco Martinengo e é a escolhida, pela elegância e pelo equilíbrio clássico das formas.

“bella signorina” (bela jovem), como lhe chama Pinin Farina, nasce com para-brisas panorâmico e vidros laterais deslizantes. Na parte de dentro das portas não existe puxador: a abertura é accionada com uma corda. Só mais tarde chegarão um para-brisas tradicional, vidros laterais de descer, painéis das portas equipados, capota em lona dobrável, puxadores externos e novos interiores.

Um

 concept de puro desportivo, confirmado por performances extremamente brilhantes. O Spider adopta o motor do Giulietta: quatro cilindros em linha, 1290 cm³ de cilindrada, 65 cv de potência e 155 km/h de velocidade máxima. A potência continua a subir nas versões sucessivas – a começar pelo Spider Veloce de 1958 de 80 cv.

Ágil, jovem, rápido. E belo. O Giulietta Spider agrada ao cinema: Fellini dá-lhe um papel em “La Dolce Vita”, Antonioni escolhe-o como o carro de Alain Delon em “O Eclipse”. Torna-se um status symbol: amado por celebridades, desejado por todos.


Made in Italy

Chega o momento de dar um herdeiro ao Giulietta Spider. Luraghi e a sua equipa sabem que não basta construir um excelente automóvel: é preciso recriar o mesmo carisma. A apresentação tem de ser um acontecimento – uma cerimónia solene, a meio caminho entre a investidura e a coroação.

A Alfa Romeo pensa grande. Para o lançamento nos EUA, organiza um cruzeiro e convida as mais exclusivas personagens do mundo do espectáculo, do desporto e da moda. A bordo seguem 1300 VIP, entre os quais Vittorio Gassman, Rossella Falk e a soprano Anna Moffo. O navio italiano Raffaello, com motores a turbina, viaja de Génova para Nova Iorque, fazendo escala em Cannes na altura do Festival de Cinema, e durante todo o cruzeiro três exemplares do novo Spider dão o seu próprio show no convés: um verde, um branco e um vermelho.

Sublinhando o carácter italiano do seu produto, a Alfa Romeo antecipa em mais de uma década a linha de comunicação do “Made in Italy”.


A herança técnica do Giulia

O Alfa Romeo Spider 1600 nasce a partir da plataforma do Giulia, com distância entre eixos reduzida a 2250 mm; a mecânica é a do seu contemporâneo Giulia Sprint GT Veloce (evolução do Sprint GT). Na altura do lançamento, o Duetto é equipado com o clássico quatro cilindros de duas árvores de cames de 1570 cm³ em liga leve, capaz de debitar 108 cv e com peso seco de menos de 1000 kg. A velocidade máxima é de 185 km/h.


“Duetto” ou “Osso di Seppia”?

Só o nome do modelo já dá para uma história. Para escolhê-lo, é organizado um concurso com prémios em colaboração com todos os concessionários da Europa. O nome escolhido é “Duetto” – mas surge uma questão de direitos (pela homonímia com uma bolacha de chocolate) que obriga a lançar a viatura como “Alfa Romeo Spider 1600”.

O nome Duetto fica em segundo plano, consolida-se na memória dos fãs e torna-se o apelido comum a todas as gerações do modelo. Outros surgirão: o Spider de 1966, primeiro da série e última obra-prima de Battista Pinin Farina, fica conhecido como “Osso di Seppia” (osso de choco) pela sua forma elipsoidal: frente e traseira arredondadas, lados convexos e linha de cintura muito baixa. O segundo é o “Coda Tronca” (traseira cortada), de 1969, que se distingue pelo corte aerodinâmico da parte posterior. O terceiro é o “Aerodinamica”, de 1983, nascido dos estudos em túnel de vento. Em 1989, chega a última geração, denominada “IV Serie” – automóvel de linhas depuradas e esguias, uma espécie de regresso às origens.

Quatro gerações, mais de 124.000 unidades produzidas em 28 anos: a vida mais longa de sempre para um modelo Alfa Romeo.


TAGS: Alfa Romeo Storie Alfa Romeo


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