Jochen Rindt: Rei ausente na coroação

Competição 07 Set 2020

Jochen Rindt: Rei ausente na coroação

Por Bruno Machado

Monza, 5 de Setembro de 1970 – Monza, 5 de Setembro de 2020. Duas qualificações para o GP de Itália, com 50 anos de intervalo. O que une essas duas datas: Jochen Rindt, cujo talento continua a ser recordado, meio século depois da sua morte. 

Filho de um pai alemão e de uma mãe austríaca, Karl Jochen Rindt nasce em 1942, na cidade alemã de Mainz. Com apenas 15 meses de idade, perde os pais num bombardeamento, passando a crescer com os avós maternos, na cidade de Graz, na Áustria. É lá que conhece Helmut Marko, com quem começa a idealizar uma carreira de piloto, tendo como referência o alemão Wolfgang von Trips, malogrado piloto Ferrari, vítima de um trágico acidente no GP de Itália de 1961, em Monza, na curva Parabolica.

Nesse mesmo ano, Rindt começa a participar em corridas, mais ou menos oficiais, primeiro, ao volante de um modesto Simca Aronde Montlhéry, e no ano seguinte, com um Alfa Romeo Giulietta Ti, com o qual começa a dar nas vistas, em provas de montanha e circuito. Encorajado pelos bons resultados, Rindt passa para os monolugares em 1963, ao adquirir um Cooper T59 de Fórmula Junior.  

             


Mas é na época de 1964 que o talento de Rindt ganha maior visibilidade, nomeadamente com a vitória no London Trophy (Fórmula 2), à frente de pilotos de Fórmula 1 já consagrados, tais como Graham Hill, Jim Clark ou Denis Hulme. Participa, nos 1000 Km de Nürburgring e nas 24 Horas de Le Mans ao volante de um Ferrari 250 LM, estreando-se, igualmente, na Fórmula 1 no Circuito de Zeltweg, na Áustria, com um Brabham BT11.


Não obstante a sua contratação como piloto oficial da equipa Cooper, a temporada de 1965 de Fórmula 1 revela-se decepcionante para Rindt, com apenas 4 pontos e um 13º lugar no campeonato. Felizmente, consegue alguns resultados positivos noutras categorias, nomeadamente, um terceiro lugar nos 1000 km de Nürburgring ao volante de um Porsche 904/8 (com Jo Bonnier), e sobretudo, a vitória nas 24 Horas de Le Mans, num Ferrari 275 LM (com Masten Gregory) da equipa privada americana NART. É a última vitória de um Ferrari em Le Mans.

As épocas seguintes são muito parecidas. Vence na Fórmula 2, em provas de resistência e Turismo, mas ainda não conhece o sabor da vitória na categoria rainha. Nem a passagem pela Brabham, em 1968, lhe permite obter bons resultados, não conseguindo fazer melhor do que um 12º lugar no campeonato.

Para a época de 1969, Jochen Rindt assina pela Lotus. Sabe que os monolugares de Colin Chapman são tão rápidos quanto frágeis, mas também sabe que são os únicos capazes de o levar à vitória e, porque não, ao título. E, de facto, o Lotus 49 é um sério rival do Matra de Jackie Stewart, mas o “light is right”, tão caro a Chapman, também mostra os seus limites. Exemplo disso, é o Grande Prémio de Espanha, no circuito de Montjuic, em que os dois Lotus são, sucessivamente, vítimas de uma ruptura dos seus ailerons, provocando, no caso de Rindt, um acidente que podia ser-lhe fatal. Na sequência desse acidente (e de outros na Fórmula 2), Rindt escreve uma carta a Chapman, na qual comunica a sua perplexidade relativamente à concepção dos seus monolugares, e que conclui dizendo: “só posso pilotar um carro no qual tenho alguma confiança, e sinto que o ponto de não-confiança está bastante próximo.


A crispação que se faz sentir nas relações entre Colin Chapman e Jochen Rindt, atenua-se, sobretudo depois da vitória conquistada em Watkins Glen, a tão esperada primeira vitória na Fórmula 1! Ao ponto de Rindt renovar com a Lotus por mais um ano.


Na temporada de 1970, Rindt vence o Grande Prémio do Mónaco, depois de uma incrível recuperação sobre Jack Brabham e um erro deste na última curva. A vitória seguinte, no GP da Holanda, será muito mais amarga, com a morte, nessa mesma prova, do seu grande amigo, Piers Courage, três semanas depois de Bruce McLaren. Profundamente marcado com estes dramas, Jochen Rindt, casado e pai de uma pequena Natasha, começa a pôr em causa o seu futuro na Fórmula 1, comunicando isso mesmo à sua esposa, Nina.


Depois de uma série de quatro vitórias consecutivas, Rindt chega a Monza com 20 pontos de vantagem em relação a Brabham. Rindt parte em busca da pole position quase sem apoio aerodinâmico, para buscar aquelas décimas que faltam em relação aos Ferraris de Ickx e Regazzoni. Na travagem para a Parabolica, Rindt perde o controlo do seu Lotus, que colide com os rails de segurança. Percebe-se imediatamente a gravidade da situação, mas para evitar o cancelamento da corrida, o óbito é declarado horas mais tarde (tal como em 1994, em Imola). Na realidade, Jochen Rindt morreu, aos 28 anos, na mesma curva que o seu ídolo, Wolfgang von Trips, nove anos antes. No final da temporada, Nina Rindt recebe o troféu destinado ao seu marido, declarado campeão do mundo, a título póstumo.


Stirling Moss era conhecido como “o rei sem coroa”, por nunca ter sido campeão do mundo apesar do seu inegável talento. Jochen Rindt venceu, de facto, o campeonato de 1970, mas não chegou a assistir à sua “coroação”. A coroa estava sem o rei.



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