Hoffmeister Kink,a expressão máxima do estilo à alemã

Clássicos 06 Set 2020

Hoffmeister Kink,a expressão máxima do estilo à alemã

Por José Brito

A possibilidade de os elementos mais simples de design representarem o magnetismo inexplicável que detemos sobre certos modelos de automóveis começou recentemente a tomar contornos meritórios de certeza. Chamemos-lhe um gosto adquirido, um complexo de atracção, ou um alinhamento ideológico, mas a realidade mais cercana da situação é atingida quando ao observar dado modelo compreendemos a proximidade que detemos ao mesmo sem conseguir precisar uma justificação imediata, mas seguros de que os mais ínfimos pormenores podem provocar a maior das distinções.

Pensando num BMW, seja qual for o deambulo da imaginação, a probabilidade de a escolha recair sobre um série 3 E46 ou um série 5 E39, dois dos veículos mais facilmente reconhecíveis do fabricante bávaro, é extremamente elevada. Tentando compreender o porquê de tal legado, grande parte dos inquiridos mencionariam a grelha em formato de duplo rim, a derradeira associação do design automóvel à imagem de marca, representando o sucesso absoluto da preconização mental dos modelos do fabricante. Contudo, tal elemento de design não se encontra só na definição de linhas do gigante alemão.

É neste sentido e no fascínio inegável detido pela gama Neue Klasse da BMW, que surge a associação a um dos supramencionados “vincos de estilo”, onde a subtileza e quebra de rectidão de linha acabam por gerar um legado incontornável na indústria automóvel passada, presente e futura. Eis o Hoffmeister Kink, designado daqui por diante por HK, quer por simplicidade de escrita, quer para evitar um estrangeirismo por uma sigla.

O HK, designação homónima adquirida graças ao Director de Design da BMW entre 1955 e 1970, Wilhelm Hoffmeister, representa um elemento de design automóvel que possui tanto de subtil como de característico: a simples inversão de linha na base no pilar C quando a mesma começa a tender para a secção traseira do veículo, reencaminhando-a de volta para a frente do mesmo por curvatura. Este elemento relevante no design BMW marcou a sua estreia no 1500 Neue Klasse de 1961.


Definição de estilo vindouro

Ao nível histórico, a relação de simbiose entre a BMW e o HK possui relativa linearidade, assumida num período crucial para o estabelecimento dos bávaros enquanto o gigante automóvel que são actualmente. Após a 2ª Grande Guerra, a Alemanha (e a Europa na sua generalidade) enfrentavam um período de elevadas dificuldades. A BMW sobrevivia com recurso à fabricação de cutelaria, tendo-se afastado da indústria automóvel e dos motociclos. A escolha não possuía um cariz de opção, mas antes de escolha motivada pela falta de capacidade económica do povo alemão. Em 1959, a situação económica da BMW era de tal forma desfavorável que a venda à Daimler-Benz parecia inevitável para evitar a bancarrota. Contudo, num esforço final, o investidor Herbert Quandt foi convencido ao emprego de uma soma avultada numa decisão considerada como sendo de alto risco, evitando-se o que parecia certo.

Com a chegada de Quandt, e tendo por base a alentada experiência do mesmo no meio industrial, a BMW começou o seu percurso ascendente com o desenvolvimento dos veículos Neue Klasse, após uma fase de deambulo entre os automóveis-bolha como o Isetta e os pequenos desportivos como o 700. A sua criação teve a marca indelével de Fritz Fiedler, cuja compreensão do mercado permitiu o investimento em veículos com cilindradas comportadas entre 1,5 e 2 litros, no seguimento de sedans de elevado sucesso como o Borgward Isabella.

Tido como revolucionário para a época, o primeiro 1500 Neue Klasse foi revelado no Salão Automóvel Internacional de Frankfurt de 1961, no qual a procura pelo mínimo vislumbre era tal que as visitas ao espaço dos bávaros tiveram de ser limitadas.

Poucos seriam os automóveis com o impacto que o 1500 teve na indústria automóvel há época. Com o seu motor de 1,5 litros de 4 cilindros a desenvolver 75 cavalos de potência às 5500 rotações por minuto, os travões de disco à frente e, talvez com maior relevo, um novo design aliado a um preço convidativo, o 1500 roubou as atenções ao mais luxuoso 3200CS apresentado contemporaneamente.

O elogiado design do 1500 teve a crucial incorporação de Giovanni Michelotti no Departamento de Design da BMW, responsável pelo pequeno, mas glamoroso, 700, o 1º automóvel no retorno da BMW à indústria. A grelha em duplo rim, a incorporação do HK (há altura sem designação definida) e a aplicação de uma carroçaria a oscilar entre sedan e coupé vaticinariam o 1500 Neue Klasse como intemporal.

No verão de 1965, a BMW substituiu o 3200CS por um novo coupé com base na plataforma Neue Klasse, com incorporação da curvatura invertida no pilar C, agora já designada de HK pela imprensa especializada, elemento demarcado nas seguintes série 02 e Neue Six de 1968.


Inspiração generalizada

Antes da BMW, também a Peugeot havia incorporado um elemento similar ao HK no 203 Coupé de 1952, sem, todavia, uma definição de linha do mesmo calibre. No final da década de 50 e início da de 60 também a General Motors e a Fiat procuraram incorporar um elemento semelhante, com particular destaque para o Fiat 600. A Ferrari com o 250 GTE, a Aston Martin com o DB4 GT Bertone Jet e a Lancia com o Beta representam exemplos de veículos de cariz mais desportivo com implementação desta solução de estilo.

Apesar de possuir anterior aplicação, o elemento aparentava possuir um estatuto de one-off, sem grande réplica para os modelos seguintes e sem particular evidência no design geral dos modelos em que era implementado, possivelmente pela falta de um desenho complementar que incorporasse o HK com tanta fidedignidade como o desenvolvido por Hoffmeister e Michelotti.

Contudo, a maior influência para o departamento de design da BMW terá sido a aquisição da Glas em 1966, há altura com o objectivo de obtenção de patentes como a utilização de uma correia com uma árvore de cames à cabeça, algo único na indústria automóvel há data, mas também com o propósito de aquisição da sua fábrica em Dingolfing e da sua mão-de-obra experiente.

A Glas, fundada em 1883 com o propósito de fabrico de maquinaria agrícola, voltar-se-ia para os motociclos e para os automóveis, com especial foco em microcarros como o Goggomobil, apesar de ter alcançado relativo sucesso com coupés como o 2600GT. Com a aquisição por parte da BMW, os veículos passariam a incluir a insígnia bávara, acabando por se cessar a produção pelo final da década de 60, ocorrendo dedicação total à produção de eixos dianteiros e traseiros para a BMW. Um dos aspectos interessantes no design dos veículos produzidos pela Glas era a presença de uma curvatura no pilar C a fazer lembrar o posterior HK, mas invertido. Por nota de interesse será de relevo mencionar que a fábrica original da Glass em Dingolfing é actualmente a maior fábrica BMW com cerca de 22.000 funcionários dedicados à produção das séries 5, 6 e 7 e carroçarias para a Rolls-Royce.


Como a longevidade faz o legado

Possivelmente, o factor que mais tende a atenção para a implementação do HK na BMW será a sua longevidade, encontrando-se presente inclusive nos modelos de gama i, onde a ruptura com o passado ao nível de propulsão não impôs uma quebra de costumes relativamente ao design. Poucos serão os fabricantes capazes de lograr de forma tão vindoura um traço característico transversal a todos os modelos, particularmente um não tão evidente como o afamado duplo rim, e que confere ao mais recente dos seus veículos uma porção da história que o antecedeu, história essa remontante de há mais de 60 anos.

Apesar da sua subtileza para o design geral do veículo, é impossível pensar que terá sido um dos fios conductores do design automóvel da casa bávara, um aspecto a incorporar nas mais diversas gamas e criações pelo look desportivo que confere, mas também pela acentuação que permite à porção traseira do veículo, fazendo adivinhar o factor transcendente a todos os modelos BMW até muito recentemente, a tracção às rodas anteriores. Nos segmentos em voga actual e pela existência de pilar D nos segmentos SUV (série X), o HK surge nesta zona, ainda que com a mesma linha conductora dos restantes modelos.

Nos modelos mais recentes é ainda possível encontrar um HK reposicionado no para-choques dianteiro, mais precisamente no contorno superior do duplo rim, algo que a imprensa em geral designou de 7 e 7 invertido. Tal demonstra plenamente a importância que este elemento ainda possui para o departamento de design dos bávaros, assim como a vontade de fazer com que a sua incorporação perdure.


A generalização em alta gama

Desde a sua introdução, este traço característico deixou de ser exclusivo à marca bávara, pelo que pode ser encontrado nos mais variados fabricantes, com predominância por segmentos mais altos. Exemplos actuais podem ser encontrados com frequência em fabricantes americanos como a Lincoln, com transcendência para o mercado asiático com a Lexus, a Kia, a Honda e a Hyundai e para o mercado europeu com a Volkswagen.

Por outro lado, e sem necessidade de esclarecimentos posteriores, este traço (ou a sua mera influência) é dificilmente encontrado nos restantes gigantes automóveis alemães.

Sem uma imponência e vivacidade no exercício de memória como a grelha em duplo rim, mas com um papel vigente na história da BMW (e não só), o Hoffmeister Kink representa uma característica de relevância não imediata, mas de influência incorporativa plena, traço este ao qual se augura uma conservação no que será o Design Automóvel moderno não só no domínio bávaro, como também na generalidade dos fabricantes que pretendam um enfase marcante nas suas linhas.


TAGS: BMW


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