A confraria dos pilotos jurássicos

Clássicos 01 Ago 2020

A confraria dos pilotos jurássicos

Por Irineu Guarnier

Da época de ouro do automobilismo clássico de competição no Sul do Brasil sobreviveu uma das mais longevas e unidas agremiações de aficionados por carros antigos: a Confraria dos Pilotos Jurássicos Gaúchos – ainda em plena atividade.

Na virada do milênio, ex-pilotos costumavam se encontrar nas noites de sexta-feira na oficina do preparador e piloto de motociclismo Horst Dierks, em Porto Alegre, para conversar, obviamente, sobre corridas e carros – principalmente DKW, marca com a qual muitos tinham competido. A oficina era um lugar quase místico para eles. Participavam desses encontros os ex-pilotos Francisco “Chico” Feoli, Roberto Giordani e Oscar Fernando Leke, todos com mais de 60 anos de idade. Os quatro são considerados os fundadores da Confraria, que ganhou este nome quando Leke teria comentado que os encontros do grupo pareciam “uma reunião de dinossauros da Era Jurássica”. Logo em seguida o “Parque dos Dinossauros” ganharia novos integrantes, com a chegada dos ex-pilotos e amantes do automobilismo Henrique Iwers, Flávio del Mese, Jorge Amorim, Mário Katz, Rudolfo “Zuio” Rieth, “Alemão Octávio e Teodoro Janusz.

O grupo cresceu tanto que a oficina de Dierks ficou pequena para abrigar as reuniões dos “dinossauros”. Por essa época, início dos anos 2000, Janusz havia inaugurado uma ampla garagem na Zona Norte de Porto Alegre para acomodar a sua coleção de diversos modelos de DKW, miniaturas e memorabília, e convidou os amigos para visitá-la. Os ex-pilotos ficaram encantados com o que viram. O “Templo Sagrado dos DKW”, como ficaria conhecida a garagem do advogado, passou a receber encontros regulares da Confraria dos Pilotos Jurássicos Gaúchos. Nele, os amantes da “pequena maravilha” (DKW, em alemão) ainda hoje sentem-se em casa, cercados de modelos icônicos da marca que amam, como um Puma-DKW vermelho, um elegante Fissore, um raríssimo DKW 3=6 Sonderklasse Limousine Spezial 1955 e, inclusive, o DKW vermelho com o qual Janusz competiu por muitos anos na Fórmula Classic – todos muito bem conservados.

A Confraria dos Pilotos Jurássicos, hoje com mais de 60 integrantes (ex-pilotos, ex-mecânicos e ex-dirigentes da Federação Gaúcha de Automobilismo), se reúne mensalmente em diferentes locais. Alguns dos participantes têm mais de 70 anos; outros já bateram à porta dos 80. Mas, nesses encontros, se divertem como meninos ao falar de seus brinquedos (por vezes, também “trocam figurinhas sobre doenças”…). A Confraria preserva a história da marca DKW e já editou livros sobre automobilismo, como o primeiro e o segundo tomos da obra “Das Pistas Para a História”, de Gilberto Menegaz, Paulo Lava, Roberto Giordani e Leandro Sanco. Com o tempo, o lanche habitual evoluiu para preparações gastronômicas mais sofisticadas. “Hoje, nos reunimos também em torno da culinária”, revela Janusz, que só tira da garagem o seu DKW vermelho de pista uma vez por ano, em Novembro, para participar das comemorações do aniversário do Autódromo de Tarumã, em Viamão.

Como nem sempre é possível reunir todos os integrantes, um pequeno grupo de dez aficionados criou, dentro da Confraria dos Pilotos Jurássicos, um subgrupo, digamos assim, que se reúne semanalmente, às quintas feiras. São os Old Boys. Os filhos de alguns ex-pilotos também participam desses encontros. Tão cedo o culto às corridas de clássicos não vai desaparecer.

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Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Comoantigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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