Os automóveis de Salazar

Clássicos 27 Jul 2020

Os automóveis de Salazar

No dia em que se assinalam 50 anos sobre a morte de António de Oliveira Salazar, figura incontornável da história portuguesa do séc. XX, olhamos para os vários automóveis que o então Chefe de Estado usou e para os que, por várias razões, nunca quis usar.

Mercedes-Benz 770 “Grosser” de 1938, o falso “presente de Hitler”

Quando a Mercedes-Benz apresentou, em 1930, o novo modelo 700, nome de código W07, destacou claramente o seu principal objectivo: servir de viatura a figuras de Estado. Imponente por natureza, luxuoso por desígnio, o modelo 700 era motorizado por um oito cilindros em linha com válvulas à cabeça e pistões em alumínio, com 7,7 litros de capacidade, debitando 150 CV de potência às 2800 rotações. Opcionalmente, o cliente podia encomendar uma versão 700K, equipada com um compressor tipo Roots, que elevava a potência para os 200 CV às 2800 rotações, possibilitando uma velocidade máxima de 160 km/h. Ao nível da transmissão, o modelo 700 utilizava uma caixa de quatro velocidades, sendo a primeira velocidade uma relação directa e a quarta velocidade uma overdrive. A carroçaria do Mercedes-Benz 770 assentava num chassis em escada, medindo 3750 mm entre eixos e 1500 mm de largura. Em termos de suspensão, este modelo fazia uso de molas de lâmina em ambos os eixos.

Trabalhando por encomenda, a linha de montagem dos 770 fabricava também versões exclusivas do modelo, tais como a limousine Pullman, na qual podiam viajar várias personalidades no mais completo luxo, e ainda a versão Pullmansteel, um blindado destinado aos mais altos dignatários e à sua protecção. Do maior e mais caro Mercedes-Benz, foram produzidas, de 1930 a 1938, 117 unidades, em Untertürkheim, com várias carroçarias, das quais 42 blindadas, na forma limousine Pullmann. O Imperador do Japão, Hiroito, adquiriu três, e para o Estado Português vieram dois em 1938.

Para além da sua blindagem, a carroçaria Pullmansteel oferecia níveis de conforto e luxo inigualáveis na série W07. O amplo interior era detalhado à mão por trabalhadores especializados, de forma a garantir que os ocupantes viajavam no mais alto requinte. Disponível em várias configurações na parte traseira, a mais popular das quais a vis-a-vis, onde as duas filas de bancos estavam face a face, e podendo albergar até seis pessoas, a limousine Pullman era uma referência na época, destinada a rivalizar com modelos semelhantes da Rolls-Royce.

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Em Portugal, um dos 770 mais famosos pertenceu a Salazar, tendo sido um dos vários modelos blindados adquiridos para a figura de Estado. A história dos blindados adquiridos em nome de Oliveira Salazar, à época Presidente do Conselho de Ministros, tem na compra do Mercedes-Benz 770 Grosser um dos seus capítulos mais curiosos. Após o inconsequente atentado à bomba levado a cabo no domingo, dia 4 de Julho de 1937, quando Salazar se encaminhava para assistir à Missa da manhã, na Avenida Barbosa du Bocage, a PVDE tratou de encomendar, a 27 de Outubro de 1937, dois modelos Type 770 Grosser com carroçaria blindada Pullmansteel. A nota de encomenda foi feita através do agente da marca, em Lisboa, a Sociedade Comercial Mattos Tavares, Lda., que tratou de a passar para os escritórios da marca na Alemanha. Dada a especificidade do modelo, a encomenda tardava em chegar e por esse facto foi comprado um Chrysler Imperial, igualmente blindado, que entrou ao serviço a 22 de Novembro de 1937, tendo sido utilizado não só como veículo de Salazar, mas também como meio de fuga de oito presos políticos da prisão de Caxias.

Segundo os arquivos da fábrica, a construção dos chassis data de 18 de Janeiro de 1938, e a das carroçarias Pullmansteel de 9 de Março. Os dois carros foram expedidos para Lisboa em 12 de Abril. Ambos foram matriculados em Junho de 1938, em nome da PVDE, e são postos à disposição dos Presidentes da República e do Conselho, General Óscar Carmona (AL-10-71, chassis #182 067) e Prof. Oliveira Salazar (DA-10-72, chassis #182 066).

Salazar, que não fora consultado sobre a aquisição destes automóveis, logo manifestou o seu descontentamento, recusando-se a utilizar o Mercedes-Benz que lhe fora atribuído, não só por ser um automóvel ostensivo, mas também porque se pensava ter sido um presente de Hitler ao Presidente do Conselho. O automóvel foi utilizado apenas uma vez, por ocasião da visita oficial do Generalíssimo Franco, em 1949. Normalmente, era aproveitado pelo motorista Raúl para transportar as visitas ao Palacete de São Bento. Daí só acusar 6000 quilómetros quando, dezassete anos depois, é mandado vender em hasta pública, pela Direcção-Geral da Fazenda. Arrematado por seis contos pelo sucateiro Alfredo Nunes, que o regista em seu nome, a 9 de Fevereiro de 1955, é pouco tempo depois vendido aos Bombeiros Voluntários do Beato e Olivais, com o fim de ser aproveitado para uma ambulância. Porque o custo de transformação se revelou elevado, decidem vendê-lo, a 16 de Junho de 1956, a João de Lacerda. Actualmente acusa apenas no odómetro 12.949 quilómetros, por ter circulado desde 1956 com alguma frequência, já no Caramulo, para conservação da mecânica. Nunca houve necessidade de o restaurar, por estar, desde a pintura aos cromados e estofos, impecável. Até os pneus são de origem, sendo mantidos a 40 libras de pressão, não acusando gretas nos flancos, talvez por terem sido fabricados com borracha sintética tipo Buna. É, pois, considerado o mais perfeito e mundialmente mais bem conservado Mercedes-Benz Grosser.

Ficha técnica
1938
Alemanha
150 CV
8 cilindros
7655cc
3 velocidades
3960 Kg
150 Km/h
Motor #182066
Chassis #182066

Chrysler Imperial de 1937, o automóvel substituto que acabou na PIDE

“Provavelmente um dos Chrysler com mais história em Portugal”, assim se pode resumir o currículo de um modelo que serviu não só Salazar, como também uma das mais mediáticas fugas da prisão de Caxias, protagonizada por oito militantes do PCP, e da qual ainda hoje guarda marcas de balas nos vidros. Adquirido em Outubro de 1969 pelo Museu do Caramulo, o famoso Chrysler Imperial, blindado, foi alvo de um restauro que teve em conta a importância histórica do modelo, mantendo intactos os vidros blindados originais, bem como os estofos. Actualmente com quase 30.000 quilómetros no odómetro, o Imperial de Salazar é conservado em perfeito estado de funcionamento, sendo exibido juntamente com outros exemplares utilizados pelo histórico político nacional.

Registado pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), a 22 de Novembro de 1937, o modelo blindado foi a resposta de segurança ao atentado à bomba sofrido meses antes pelo Presidente do Conselho de Ministros, o Prof. Oliveira Salazar. Baseado no Imperial de quarta geração, equipado com motor V8 Flathead, de 5,3 litros de capacidade, com 140 CV de potência e caixa de três velocidades, o HE-10-32 adoptava uma carroçaria blindada, desenvolvida pelos técnicos da Chrysler, em colaboração com especialistas da Smart Safety Engineering Corporation, de Detroit. O resultado eram 2650 quilogramas de estrutura resistente, com uma velocidade máxima de apenas 130 Km/h, pensada para transportar em conforto personalidades expostas a perigos.

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Mantido nas instalações da PVDE até 1960, o enorme modelo americano foi transferido, nesse ano, para a prisão de Caxias, por falta de espaço nas garagens daquela polícia, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Começava assim a segunda vida do Chrysler. Planeada com o blindado em mente, a 15 de Dezembro de 1961 era concluída com êxito uma aparatosa fuga das instalações de Caxias por parte de oito presos políticos aí enclausurados. António Gervásio, Francisco Miguel, Elídeo Esteves, Domingos Abrantes, José Magro, Guilherme da Costa Carvalho, Tereso e Verdial utilizariam o Chrysler Imperial como uma espécie de aríete de luxo para derrubar os portões da prisão, destruindo, neste processo, parte da frente do automóvel e sofrendo as marcas das balas de metralhadora ligeira nos vidros laterais direitos, que ainda hoje são possíveis ver.

Ficha técnica
1937
EUA
140 CV
8 cilindros
5302cc
3 velocidades
2650 Kg
130 Km/h
Motor #8152236
Chassis #7805201

Cadillac Series 75 de 1947, o automóvel que Salazar utilizou até ao fim

Conhecida pelos seus luxuosos e possantes modelos, a americana Cadillac manteve em produção, entre as décadas de 30 e 80, chassis equipados com motores V8, dos quais a chamada Series 75 é a mais conhecida. Distintos entre si pelo tamanho e tipologia das carroçarias, e ainda pelo nível de equipamento, os modelos eram bastante populares junto da clientela mais abonada. No pós-guerra eram os automóveis de maior prestígio da indústria dos Estados Unidos da América, não sendo de admirar que, no ano de 1947, a Cadillac tenha produzido 59.436 unidades.

A Series 75 veio ocupar o espaço das anteriores séries 72 e 67, mais pequenas em tamanho. Com uma distância entre eixos de 3500 mm, e uma carroçaria distinta das restantes produzidas pela marca, este modelo podia ser encomendado numa de cinco configurações Touring Sedan: com pequenos vidros laterais, com bancos adicionais de recurso; Business; Imperial de sete lugares ou de nove lugares.

Todas as versões eram equipadas com o anterior motor V8 de válvulas laterais, apresentado em 1938, com uma capacidade de 5,7 litros e 150 CV de potência. Em termos de equipamento, o Cadillac Series 75 contemplava no exterior saias laterais, capot e embaladeiras em aço inoxidável, enquanto no interior o equipamento era descrito como luxuoso.

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Em 1947, o Estado Português mandou comprar dois automóveis Cadillac iguais: um para o Presidente da República – Óscar Carmona – e outro para o Presidente do Conselho de Ministros – Prof. Oliveira Salazar. Até essa altura, as viaturas oficiais estavam normalizadas nas marcas e modelos. Todos os Ministros dispunham de automóveis Packard Clipper, de oito cilindros, de sete lugares e os Secretários e Subsecretários de Estado de automóveis da mesma marca, mas de cinco lugares.

Desde então, e até à sua morte, Salazar usou sempre o Cadillac que lhe estava destinado, tendo recusado um Mercedes-Benz 600 adquirido pelo Ministério das Finanças, em 1968 (carro que hoje está na Presidência da República), por entender que o Cadillac continuava em bom estado e servia muito bem para o seu serviço oficial.

Em Abril de 1971, menos de um ano após a morte de Salazar a 27 de Julho de 1970, o Cadillac Series 75 foi vendido em hasta pública, sendo então adquirido, por João de Lacerda, para ser exposto no Museu do Caramulo. Curiosamente, o interior do modelo encontra-se em perfeito estado de conservação, por ter sido protegido com capas nos bancos, por ordem de Salazar.

Ficha técnica
1947
EUA
150 CV
8 cilindros
5675cc
3 velocidades
2350 kg
130 Km/h
Motor #21-501
Chassis #3 420 872


TAGS: Cadillac Series 75 Chrysler Imperial Mercedes-Benz 770


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