Mini Moke em Portugal: O princípio do fim

Clássicos 23 Jul 2020

Mini Moke em Portugal: O princípio do fim

Por Francisco Lemos Ferreira

Chegados à última parte da entrevista com o Engenheiro Leonel Vicente, ao qual deixamos o nosso sentido agradecimento, uma pessoa inexcedível neste testemunho para memória futura da história do Mini Moke em Portugal.


1989: Os custos e vantagens da produção e o encerramento da produção

Os anos 80 foram bastante atribulados, não só quanto aos problemas originados pelas lutas dos trabalhadores mas também pela crise económica (sempre a mesma) em que a inflação que chegou a rondar os 30%.
A história do Moke em Portugal é também o reflexo da história dos anos 80. Chegou em 1982 à IMA, saiu para o BRI em 1985 e cessou as operações em 1989.


Em termos laborais, os anos de BRI foram serenos mas, os custos não cessaram de aumentar. Em 1 de Janeiro de 1986 Portugal adere à CEE e em 1 de Janeiro de 1988 cessam as contingentes para importação de automóveis oriundos da CEE, passando a importação de CBU´s a ser livre.

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O aumento dos preços de produção, que duplicaram entre 1985 e 1989, também se fez sentir nas encomendas previstas para 1989 e 1990, já que a venda no mercado interno era normalmente deficitária e o grande mercado, que agora recuava, eram as ilhas do turismo que procuravam um produto atractivo e barato para o rent-a-car, o que também fazia com que as vendas fossem sazonais, obrigando a stocks de viaturas com os custos inerentes.

A quebra desses mercados não podia portando ser compensada com o mercado interno e a vantagem para a importação de viaturas novas tinha desaparecido.



Este último factor acabou por ser determinante. O Moke, que sempre teve um Valor Nacional Acrescentado (VAN) oscilando entre os 62 e os 70%, não tinha mais qualquer contributo para a importação de viaturas novas e  pressão para a inclusão de componentes nacionais deixou de existir.

Face a estes argumentos, decidiu-se cessar a produção do Mini Moke em 1989, tendo-se iniciado um programa de run out que visava fabricar, não o que o mercado pedia mas, o que podíamos fornecer optimizado o material em stock e minimizando as perdas por obsolescência e “surplus”.


Epílogo


Mais que trabalhar num projecto, foi um prazer, pelas pessoas com que trabalhei, pelo admirável Jim Lambert que sempre recordarei com saudade, por me ter dada a possibilidade e despertado em mim capacidades e energia, que ignorava ter, para fazer andar o projecto em tempos tão difíceis e conturbados.

Quiseram ter a amabilidade, por iniciativa do Jim, de construírem especialmente para mim, no fim da produção, com o apoio de vários fornecedores, e vendido por um preço simbólico, um Moke que recorda todo este processo pois, o mesmo é um híbrido construído com “surplus” do modelo de jante 13″, com que começámos em 1983, e do modelo Moke 25 de 1989. Equipado, depois, já fora de linha, com o sistema de refrigeração adoptado pela CAGIVA.


A amabilidade foi rematada com uma placa assinada pelo Jim Lambert, orgulhosamente colocada no tablier e onde se pode ler, traduzido do inglês:

“Certifico que o Mini Moke VIN Nº 981231 foi construído exclusivamente para Eng. Leonel Vicente pela equipa Moke da Austin Rover Portugal em Julho de 1989 para marcar o fim da produção Moke.

Este Moke é um de apenas dois, produzidos especialmente com a cooperação de Baptista Russo, IETA e Nunes Maia e comemora 7 anos de produção em Portugal, entre os anos de 1983-1989. Durante este período de tempo um total de 8173 Mokes foram produzidos, dos quais 7105 foram exportados para 32 países”



Entre Janeiro de 1989 e Julho de 1989, quando cessa a produção em nome da Austin Rover, foram ainda produzidos 1162 unidades, totalizando, entre 1983 e 1989, 8173 unidades.


Mapa da produção por países entre 1986 e Junho de 1989. A exportação real pode ter sofrido alterações em relação ao programa de produção, embora não muito significativas.
Jim Lambert


Contudo, o prémio máximo do meu trabalho foi-me dado pelo Jim na apreciação anual que fez do meu contributo para o projecto e que me iria abrir portas para novos horizontes.


Jim Lambert e o Engº Manuel Vicente e respectivas esposas no dia do Casamento de Jim

Por fim a nossa relação era quase de pai e filho e, para mim, cujo pai morreu nos meus 3 anos, dava-me enorme conforto sentir essa empatia.


Não fiquei na fábrica até ao seu encerramento. A direcção da Austin Rover Portugal, propôs-me que assumisse a integração dos seus serviços de Parque e Logística Automóvel numa empresa com a qual já trabalhavam e que se estava a instalar em Portugal. E, foi assim, que começou uma nova aventura, agora integrado no Grupo Toquero.



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